Pra que despedidas?

Fevereiro 21, 2008

Aconteceu assim: um gaúcho apareceu repentinamente em terras tucujus e conheceu todos os meus amigos e se integrou “ao grupo”. Quando já estávamos adaptados ao seu jeito pimbudo de ser, ele precisou sair das terras tucujus para buscar novos caminhos e novos horizontes.

A convivência foi de poucas semanas mas tudo aconteceu numa intensidade tão impressionante que já o considerávamos como “membro da equipe”. Nessas poucas semanas, um pouco de tudo aconteceu: farras, passeios, doenças, gargalhadas e papos cabeça.

No dia de sua partida, eu estaria de plantão. Então, na véspera, falei com ele pelo MSN e desejei felicidades. Ele me garantiu que não viajaria sem se despedir de mim, mandando uma mensagem que me deixou enternecida (não, eu não sou meiga assim mas a mensagem tava muito bonita mesmo) mas nem sempre as coisas acontecem conforme a nossa vontade, então ele partiu sem se despedir.

Assim, deixei um testimonial no orkut pra ele porque fiquei pensando em despedidas…

Pra que despedidas?
Pra que despedidas se cada pessoa que passa pela nossa vida deixa um pouco de si e leva, mesmo que sem querer, um pouco de nós?
Pra que despedidas se quando nos aproximamos de alguém e deixamos que este alguem faça parte de nosso dia-a-dia (almoços, farras, passeios, doenças, papos cabeça, conselhos, etc.), percebemos subitamente que o Universo se modificou para que aquela pessoa lá entrasse?
Pra que despedidas se quando a amizade é verdadeira, só existe “até logo”?

Pensei, então, em vários tipos de despedidas. Desde os “tchaus” até os “até nunca mais” que, na maioria das vezes, nem imaginamos que irão acontecer. Claro que pensei também no famoso texto do Chaplin que diz que cada pessoa que passa pela nossa vida passa sozinha mas deixa um pouco de si e leva um pouco de nós.

O fato é que despedidas são momentos tristes de um sofrimento muitas vezes desnecessário, já que estamos neste mundo para interagir, mas podem ser também momentos de extremo crescimento pessoal.

Quando me despedi da minha mãe e dos meus amigos para morar em São Paulo, pensei que estava fazendo um negoção. Ledo engano. Estava na verdade cavando uma forma de voltar pra casa, mesmo inconscientemente e isso me fez amadurecer muito.

Quando me despedi de São Paulo para voltar pra Belém, achei que estava sendo a pior das losers. Ledo engano. Estava na verdade reescrevendo a minha história.

Quando disse “até logo” para Belém e vim morar em Macapá, julguei que passaria aqui apenas uma chuva, que não faria amigos, que não amadureceria mais e que voltaria correndo pra Belém, ao final dos 2 anos. Há cerca de 2 semanas, eu disse “olá” pra Macapá e percebi que já aprendi muito aqui, que já me encantei com muitas coisas da terra, que aqui encontrei amigos fantásticos que não encontraria em outro lugar, que apesar de minhas raízes paraoaras, eu posso e sou muito feliz aqui em terras tucujus.

Pra que despedidas?

Guardo com saudades todo mundo que me fez e faz bem. Sempre. Assim como lugares, cheiros, emoções.

Baci!

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Aniversário

Fevereiro 10, 2008

Hoje é aniversário do meu primo Fabricio.

É muito estranho “comemorar” o aniversário de alguém que não está mais estre nós, no mundo físico, mas não deixa de ser uma data extremamente especial por lembrarmos o dia em que AQUELA PESSOA ESPECIAL nasceu.

Apesar de ter certeza de que já falei nesse assunto em demasia e correr o risco de me tornar uma chata (sempre de plataformas, por favor), o assassinato do meu primo-irmão foi e ainda é, pra mim e pra toda a minha família, um verdadeiro divisor de águas.

Pra ser bem sucinta, aconteceu assim: Meu primo era promotor de Marapanim, uma cidade no interior do Pará, há cerca de 10 anos. A cidade é super pacata, tem um caranguejo maravilhoso, marujada (dança típica), o Círio de Nossa Senhora da Conceição e outras coisas legais. Lá, Fabricio era autoridade. Muito querido e super bem tratado.

Ele pediu que um tal advogado devolvesse um processo que ele mesmo (o advogado) estava envolvido por tentativa de homicídio e lesão corporal gravíssima, mas o tal advogado não queria devolver o processo ao fórum, como forma de tentar atrasar o julgamento. Fabricio solicitou providências à juíza que expediu um ofício (ou seja lá como se chama o documento que foi mandado) ao tal advogado numa quarta-feira.

Na sexta-feira, por volta de 8 e 9 da manhã, o tal advogado entrou na sala do meu primo, dentro do fórum de Marapanim e atirou 6 vezes nele. Fabricio não teve chance de defesa e morreu cerca de 2 a 3 minutos após, sendo que um dos tiros foi na nuca, quando ele já estava morto e caído no chão, como forma do assassino ter certeza de que ele não sobreviveria.

Falar do Fabricio é muito difícil pra mim. Ele sempre foi meu irmão em todos os sentidos e todos os dias. Ele puxava minhas orelhas por todos os motivos do mundo, desde coisas banais como eu ter esquecido de tampar a garrafa de água, até coisas graves como moral, amizades, romances e etc.

Ele me apoiou durante toda a faculdade, teve milhões de medos por mim e tentava me proteger de absolutamente tudo. A coisa mais comum do mundo era ele chegar na sua casa, num dos finais de semana em que eu ficava por lá e gritar “Cadê minhas meninas???” ou fazer comentário do tipo “Cabelo de mulher não tem cor, com exceção dos cabelos da minha irmã e da minha prima”.

Certa vez, uma namorada dele o acusou de tê-la traído e ele falou: “Meu bem, na minha vida só existem 03 mulheres – a minha mãe, a minha irmã e a minha prima”.

Ele tinha momentos de grosseria extrema comigo, formas exdrúxulas de me repreender, mas tinha a palavra de conforto, o ombro em que eu sempre soube que poderia me apoiar.

Falar do Fabricio no dia do se aniversário é lembrar de festa, muitas festas sempre.

Meu primo sempre foi festeiro, sempre teve muitos amigos, sempre gostou de reunir todos que ele amava (e ama) ao seu redor.

Acho que a lembrança mais antiga que tenho dele é do aniversário dele de 15 anos, numa pizzaria. Eu tinha 04. Claro que são poucas lembranças de fato. O que eu acho que é lembrança, pode ser só fruto da minha imaginação pelas fotos que vi mais tarde, mas eu acho que me lembro da pizzaria e de todas aquelas crianças e adolescentes reunidos comendo horrores de pizza 🙂

Houve aniversários do Fabricio em que ele fez churrascadas memoráveis, com direito a mais de 10 horas de festa. Houve aniversários em que comemoramos na casa dos meus tios com muita comida e bebida e que no dia seguinte nos matávamos de comer os RO (restos de ontem) e abríamos os presentes, comentávamos as situações e os convidados.

Houve também aniversários em que éramos só nós, só a família, só um bolo e todo o amor do mundo. Tio Reynaldo, tia Aurea, Vanessa, Fabricio, Vovó e eu. O resto da família chegava e depois víamos televisão ou jogávamos bridge, autorama, xadrez, dama.

Saudade dói e muito mas o amor que existe entre nós, jamais terá fim. Hoje eu tenho plena certeza disso.

Abaixo segue o texto que escrevi pro meu primo e li na missa de 01 ano de seu falecimento. Minha tia fez questão de publicá-lo no jornal hoje, dia do seu aniversário de 39 anos.

“Após um ano da nossa brusca e prematura separação, os ânimos vão se acalmando, a revolta vai nos deixando e a mágoa dói mais fundo. A tua ausência se manifesta diariamente nas coisas e situações mais ínfimas às mais importantes.

Impossível não pensar em tudo que poderia ter sido e não é. Em tudo que poderíamos ter dito e não dissemos. Em tudo, absolutamente tudo, que poderíamos ter vivido e não nos foi permitido.

Nas atividades cotidianas, quando displicentemente tentamos levar uma vida o mais próximo possível do normal, subitamente nos damos conta da grandiosidade da tragédia que se abateu sobre nós e te levou.

Quantas vezes me ligarias pra tirar alguma dúvida médica, perguntar sobre um remédio ou sobre um especialista?

Quantas vezes almoçaríamos juntos na casa de teus pais e tu contarias as fofocas, as novidades, o carro novo, a viagem de férias, os preparativos para o casamento?

Qual o sabor da pizza que pediríamos pra que tu comesses ao retornar do futebol de sábado e nos culpar por termos comido até o último pedaço, quando na verdade tinha comido tudo menos o último pedaço?

De quantas festas participaríamos na tua casa com tantos amigos e pessoas queridas?Quantas pessoas encontraríamos na rua e comentaríamos depois? Quantas pessoas conhecidas tuas encontrei nesse ano e simplesmente não achei qualquer palavra pra dizer diante da tua falta?

Quantas vezes perguntarias sobre a grafia de alguma palavra ou me contarias sobre o restaurante novo, a boate da moda?

Que vestido eu usaria no teu casamento?

Ficarias feliz com o término da minha residência? E os novos rumos na  minha carreira, aprovarias?

Quantas vezes me criticarias como forma de mostrar como te importavas comigo?

Que presente eu te daria no Natal?

Viajaríamos juntos mais alguma vez?

Quantas vezes mais brigaríamos e nos xingaríamos pra depois passar qualquer raiva como se nada tivesse acontecido?

Quantas gargalhadas daríamos e quantas lágrimas eu poderia enxugar no teu ombro?

Nossos filhos seriam amigos?

Quantas vezes eu tive a oportunidade de te dizer o quanto te amo e não aproveitei? Será que tu tens a devida noção do quanto és amado até hoje?

Quantas vezes não acordei querendo crer que tudo não passava de um pesadelo e que aparecerias na porta da tua casa subitamente?

O que falar pra quem não te conheceu? Como explicar tua importância?

Como explicar que quem atirou em ti, matou também um pedaço de cada um de nós?

Como explicar que não és apenas um nome, uma foto, uma lembrança, uma história triste, uma premiação, um auditorio ou um centro de estudos?

Primo, hoje, após um ano sem ti, só posso dizer que a dor não cessa nem diminui. A revolta se torna inútil porque não faz com que os nossos corações se acalmem e até a raiva pela tua partida e pelo teu algoz não se aproxima da imensidão da tua falta.

Como conviver com a falta da tua voz, da tua eloqüência, da tua luz, da tua vida?

O que esperar e desejar e tentar acreditar além de justiça e reencontro?

Nesses 365 dias, só a esperança do nosso reencontro tem nos feito prosseguir, mas não há dúvidas que sem você meu primo, meu irmão, o mundo se tornou mais cinza, menos alegre e com muito menos sentido.

Fique em paz nos braços da vovó Pascoa, do vovô Eduardo e dos teus avós Consuelo e Alexandre e não se esqueça de preparar a festa mais bonita que puderes para o nosso reencontro, pois imploramos a Deus que ele permita que isso aconteça.

Qualquer dia, primo, a gente vai se encontrar.

Até breve ou até sempre, porque hoje te vejo como parte de mim e da minha consciência e sei que de onde estiveres, estarás sempre zelando por nós.” 

Descobertas

Janeiro 26, 2008

Só para variar um pouquinho, estou escrevendo este post durante um plantão.

Claro que meus plantões não são sempre calmos e traqüilos. Se assim os fossem, eu não estaria escrevendo este post de madrugada. Pelo menos hoje não me transformei numa espécie de Jack Bauer e não estou na escravidão por 24 horas. São apenas 12 horas que me separam da liberdade.

Esse lance de escrever em blog é interessante. Acho que os maiores beneficiados somos nós mesmos, porque a partir do momento em que a gente começa a pensar no assunto pra escrever (redigir seria mais adequado), a gente começa a se questionar sobre muitas coisas além do assunto. Lembranças, fatos, opiniões, gostos, etc.

E foi assim, num dia qualquer que fiz algumas descobertas importantes sobre mim.

Descoberta número 01: Eu adoro tomar banho.

Mas veja bem. Não é um banho qualquer. Meu dia se torna mais feliz de acordo com o número crescente de banhos que tomo e não são banhos “checos”. Meu banho só se torna maravilhoso (meu amigo especial adora que eu comente isso) se além dos básicos shampoo e condicionador, houver sabonete em barra, sabonete hidratante, esfoliante corporal e óleo de banho. Agora eu deixo vocês me imaginarem morando na França. Já imaginaram??? Pois é. Eu seria deportada com menos de 01 mês daquele país por desperdício de recursos hídricos! Quase um crime digno de prisão perpétua ou cadeira elétrica!

Sempre me achei apenas limpinha e cheirosa, mas percebi que fico muito contente quando experimento cremes novos e fragrâncias novas, o que acabou se revelando uma compulsão já que posso ir ao supermercado só pra comprar pão, queijo e presunto, mas sempre volto com pelo menos um creminho e/ou um esfoliantezinho de “brinde”.

Descoberta número 02: Eu sou uma farsa

Vejam bem. Eu sou uma jovem (nem tão jovem assim, mas tá valendo) médica, independente, que mora só, numa cidade distante da família alguns muitos kilômetros, dois aeroportos e um rio gigantesco e passo a idéia de que tudo posso, tudo sei, tudo aconteço.

Mas o que poucas pessoas (bem poucas por sinal) sabem é que por baixo de tudo isso, resta uma menininha quase indefesa, super insegura, morrendo de medo de fazer tudo errado. Tenho pavor da hipótese de rejeição e sou super carente. Pronto, falei.

Tenho medo de errar, de descobrir que os caminhos que eu acho que escolhi são errados ou menos certos do que os que eu deveria seguir.

Tenho medo de “pirar o cabeção”, de me atirar na profissão como única tábua de salvação, de abdicar da minha vida pessoal em prol de um protótipo de “médica-jovem-bem-sucedida-independente-sabe-tudo”.

Enfim, em muitos momentos não sou nada mais do que um cachorrinho assustado.

Descoberta número 03: Eu sou sensível

Dentre as várias certezas que eu sempre tive, há uma em especial: além de me achar super capaz de fazer qualquer coisa, sempre me achei uma fortaleza impenetrável, alguém forte, objetiva, sem tempos para sentimentalismos baratos e histórias de revista pra mulherzinha.

Ledo engano.

Sou uma manteiga derretida que se magoa até quando alguém não dá bom dia. Sou uma besta que se apaixona por filmes românticos  água com açúcar e fica imaginando quando uma daquelas histórias vai acontecer consigo. Sou quase uma Lisbela. 🙂

Baci!