Mudanças

Janeiro 23, 2011

E quando eu penso que tudo tomou seu lugar…

Lá vem a vida, a tão famosa vida, e muda tudo de novo de cabeça pra baixo….

Famílias x Médicos

Março 20, 2008

Ainda não havia comentado aqui mas, apesar de já pensar em escrever num blog há alguns anos, o evento que me fez decidir definitivamente por escrevê-lo foi um plantão de UTI.

Na época (ano passado) eu havia passado por uma experiência no mínimo bizarra.

A visita dos familiares na UTI é variável, mas numa das UTIs em que trabalho só acontece durante a tarde e apenas 2 familiares podem entrar e se aproximar do paciente num curto período de 1 hora. Como vocês devem imaginar, apesar de ser um período curto, todas as atividades param nessa uma hora (medicações, banhos, exames, etc.) para que os parentes entrem. É óbvio que muitos barracos são feitos como esposas e amantes brigando pra entrar juntas ou uma primeiro que a outra e outras coisas bizarras…

Eu particularmente tenho o costume de me retirar do salão da UTI, permanecendo no meu repouso para que os familiares visitem de fato os pacientes e não fiquem apenas me perguntando as coisas.

Nesse dia em questão, uma paciente de uns 70 anos “resolveu” aspirar a secreção gástrica e fazer o que chamamos de broncoaspiração, isto é, o conteúdo do estômago foi parar nos pulmões e ela então parou de respirar. Simples assim. O problema maior foi que ela já tinha uma doença cardíaca grave e já tinha tido “derrames” (acidentes vasculares cerebrais). Aí, como desgraça pouca é bobagem, ela evoluiu com uma parada cardíaca bem na frente da filha e de outros acompanhantes dos outros pacientes, a visita foi interrompida abruptamente e as manobras de ressuscitação foram iniciadas.

É necessário explicar que dificilmente uma reanimação cardiopulmonar tem sucesso se o coração já tiver uma doença prévia importante, porque é necessário um esforço tremendo pra que ele volte a funcionar e, se ele já tiver uma doença grave anteriormente, todo o esforço que empregamos acaba se tornando inútil. Foram mais de 30 minutos de reanimação e nada.

Após isso, o pior momento é explicar pra família que os esforços possíveis e necessários foram feitos mas que, infelizmente, o paciente não reagiu e foi a óbito.

Nesse dia, não foi a parada que me chocou, ou o momento e a forma como aconteceu, tampouco o fato da paciente não ter voltado, já que ela já tinha várias doenças prévias (comorbidades), mas as palavras da filha dela quando recebeu a notícia.

A filha da paciente não apenas questionou minhas condutas, como questionou inclusive minha formação médica. Gritou que eu não era médica coisa nenhuma e que queria falar com um determinado médico que também trabalha nessa UTI.

Controlei todos os meus impulsos pelos xingamentos e tentei me colocar no lugar dela, que estava visitando a mãe e a viu broncoaspirar na sua frente e morrer alguns minutos depois. Expliquei mais uma vez o que havia acontecido e me coloquei a sua disposição para quaisquer outros exclarecimentos que se tornassem necessários.

Nesse dia, pensei em muitas coisas, como de praxe.

Meus colegas médicos diriam que é impossível que alguém instruído como ela é, não compreendesse que uma paciente que já tinha tido 02 derrames prévios, um coração doente há anos e uma infecção respiratória grave que a fez ser transferida para a UTI, era uma paciente grave que poderia ir a óbito a qualquer momento e que todos os nossos esforços poderiam ser inúteis frente a isso.

Mas nesse dia e nesse momento, eu percebi que não. As pessoas, instruídas ou não, negam a verdade para si mesmas e ainda há colegas médicos que contribuem com isto ao não explicarem todos os fatos tim-tim por tim-tim.

Ontem, novamente durante um plantão de UTI, fiz mais uma vez todos esses questionamentos.

Um paciente de 83 anos com uma doença cardíaca grave (“coração grande” e arritmia – para os médicos, miocardiopatia dilatada com BAVT) estava internado no Hospital para ser submetido a um implante de marcapasso. Durante a internação, ele apresentou um quadro respiratório infeccioso, com posterior piora da função renal (já que como ele tinha várias doenças prévias e idade avançada, os rins já estavam lesados mas não a ponto de estarem “paralisados” como dizem).

Pelas evoluções dos outros colegas médicos, ele apresentou um evento agudo de desorientação (“não falava coisa com coisa”, “não reconhecia os parentes”) e foi pensado em várias hipóteses, como num “derrame” (AVCI) ou até mesmo num distúrbio metabólico (infecção, insuficiência renal crônica agudizada, hipoglicemia), isto é, algo que estivesse fazendo com que o organismo dele deixasse de funcionar adequadamente, digamos assim.

O fato é que o paciente foi transferido da enfermaria para a UTI e estava apresentando um quadro ainda mais grave, já que tanto os rins, quanto a infecção respiratória haviam piorado e ao invés de ele acordar e voltar a falar e reconhecer as pessoas, ele estava o tempo todo sonolento (rebaixamento do nível de consciência). O implante do marcapasso estava suspenso, para que o estado geral do paciente melhorasse e este pudesse então ser submetido a uma intervenção cirúrgica, ou não.

Após a visita (sempre ela), o médico do plantão da UTI chama os familiares para falar sobre os pacientes e explicar a situação em que se encontram, que tipo de tratamento foi instituído e o que estamos aguardando.

Quando saí da UTI, havia nada mais nada menos do que 20 acompanhantes desse paciente, ávidos por informação e com um desejo quase canibal de comer meu pobre fígado. Eles queriam explicações, queriam respostas, queriam ver rapidamente uma melhora que eu não podia assegurar-lhes que chegaria um dia. Mais do isso, eles queriam entender o que ninguém havia lhes explicado.

Uma das acompanhantes, a mais indagadora de todas, anotava num papel todas as palavras que eu dizia. Eu disse TODAS AS PALAVRAS. E ainda fazia questão de tentar me colocar contra os outros médicos, além de me testar para ver se estávamos todos falando a verdade.

Mais uma vez me perguntei se todas essas pessoas não entendiam que alguém que tem 83 anos, um coração extremamente debilitado, a ponto de necessitar de um marcapasso, umA infecção pulmonar grave e uma insuficiência renal crônica agudizada que está numa Unidade de Terapia Intensiva para tratamento, é alguém com um estado geral muito grave e um prognóstico pra lá de sombrio, ou seja, alguém que até pode melhorar, mas que estatisticamente falando, as chances são muito pequenas, ~pra não dizer ínfimas.

Mais uma vez, tentei ser o mais imparcial possível e explicar novamente pra família todo o quadro do paciente e o que estávamos fazendo por ele.

Não sei se eles me compreenderam e muito menos se aceitaram a verdade dos fatos. Também não sei se eles também acham que não sou médica. O fato é que eu tentei. Isso não é a coisa mais reconfortante do mundo mas talvez um dia eles entendam que não somos perfeitos e, apesar de nos esforçarmos bastante, somos absolutamente impotentes diante da maioria das doenças que infelizmente fogem ao nosso controle e à nossa vontade.

Baci!

Fechando ciclos…

Fevereiro 2, 2008

… E abrindo outros.

Porque vida é o que a gente vive entre um ciclo e outro. Ou melhor, a vida é um eterno abrir e fechar de ciclos, muitas vezes sinérgicos.

Ontem terminei a Residência de Clínica Médica. Deixo de ser Residente (pelo menos por 01 ano) e volto a ser médica (piada interna).

Na verdade funciona assim: a maioria das pessoas não faz  a menor idéia do que é um Médico Residente. Todo mundo acha que estamos no “limbo”, ou seja, não somos nem médicos, nem estudantes. Certa vez, no Hospital onde fiz residência me contaram que uma técnica de enfermagem que estava como circulante (auxiliando na cirurgia porém sem participar ativamente dela, ou seja, buscando materiais externos à mesa operatória e etc) não sabia como descrever o médico residente e colocou no relatório que era o “Acadêmico Médico Residente Estudante Doutor Fulano de Tal”.

Na verdade, o médico residente é a pior escória da Medicina. Já é médico e, como tal, pode ser responsabilizado cível e penalmente por seus atos, porém, ganha pouco, trabalha demais, dedica-se quase que integralmente à Residência e não é nem um pouco valorizado, já que não passa de um “estudantezinho”, na opinião dos outros e muitas vezes, até mesmo de pessoas da área de saúde.

O fato é que ESSE ciclo da minha vida acabou. Daqui pra frente é só focar na subespecialidade. Sim. Porque além de ralar como um condenado, a especialidade que escolhi (Clínica Médica) ainda tem um agravante: Quem termina 02 anos de Pediatria, é Pediatra (as pessoas conseguem entender isso). Quem termina 02 anos de Clínica Cirúrgica, é Cirurgião Geral (as pessoas também conseguem entender isso). Quem termina 03 anos de Ginecologia & Obstetrícia, ao final é Ginecologista e Obstetra.

Mas quem termina 02 anos de Clínica Médica, é clínico especialista em Clínica Médica, mas pra 99,9% da população é exatamente a mesma coisa que ser “Clínico Geral”, isto é, o mesmo título que qualquer um de nós recebe ao acabar os 06 anos da Faculdade de Medicina.

Isto significa que é muito comum as pessoas me perguntarem porque estudei tanto pra ser alguma coisa que eu já era antes de fazer a tal Residência Médica (??????????)

O fato é que só vou passar a ser “fixe” quando terminar meus 03 anos de Oncologia Clínica mas cada vitória deve ser intensamente comemorada (aprendi isso com minha prima-irmã Vanessa) e apesar de saber que ter terminado esse ciclo não vai fazer tanta diferença assim no final das contas, ou pelo menos durante este ano, estou me sentindo de alma lavada e pronta para os novos ciclos que se iniciarão.

Neste ano, vou fazer muitas coisas e espero continuar vivendo, ou seja, continuar abrindo e fechando ciclos.

Baci!

Sacerdócio

Janeiro 8, 2008

Há exatos 04 anos me casei.

Não um casamento normal e tradicional, embora tenha envolvido uma igreja também.

Há 04 anos me casei com a minha profissão.

No momento em que nós, médicos, recebemos o grau, passamos a usar o anel no anelar esquerdo, símbolo do único casamento indissolúvel que eu conheço!

Existem ex-professores, ex-advogados, ex-mulher, ex-marido mas há algumas coisas que não existem!

Ex-corno, ex-gay, ex-sogra e ex-médico.

Já sofri bastante com e pela minha profissão. Já desejei largar tudo e ter uma vida “normal”. Já disse que isso não era pra mim.

Mas também já tive dias de tanta felicidade que fiz questão de ligar pra minha mãe e agradecer a ela por ter me tornado  médica.

Sim. Se hoje sou médica devo em mais de 90% a minha mãe, que sonhou isso pra mim e viu em mim potencial para sê-lo.

Acredito que minha profissão, casamento, sacerdócio seja uma das coisas mais importantes da minha vida e hoje eu completo mais um ciclo da minha vida.

Há 04 anos eu era apenas uma recém-formada besta. Hoje eu sou uma médica formada há 04 besta ! 😉

Parabéns pra mim e que muito mais conquistas venham!

Parabéns pelo meu casamento feliz!

Baci!