Mudanças

Janeiro 23, 2011

E quando eu penso que tudo tomou seu lugar…

Lá vem a vida, a tão famosa vida, e muda tudo de novo de cabeça pra baixo….

Famílias x Médicos

Março 20, 2008

Ainda não havia comentado aqui mas, apesar de já pensar em escrever num blog há alguns anos, o evento que me fez decidir definitivamente por escrevê-lo foi um plantão de UTI.

Na época (ano passado) eu havia passado por uma experiência no mínimo bizarra.

A visita dos familiares na UTI é variável, mas numa das UTIs em que trabalho só acontece durante a tarde e apenas 2 familiares podem entrar e se aproximar do paciente num curto período de 1 hora. Como vocês devem imaginar, apesar de ser um período curto, todas as atividades param nessa uma hora (medicações, banhos, exames, etc.) para que os parentes entrem. É óbvio que muitos barracos são feitos como esposas e amantes brigando pra entrar juntas ou uma primeiro que a outra e outras coisas bizarras…

Eu particularmente tenho o costume de me retirar do salão da UTI, permanecendo no meu repouso para que os familiares visitem de fato os pacientes e não fiquem apenas me perguntando as coisas.

Nesse dia em questão, uma paciente de uns 70 anos “resolveu” aspirar a secreção gástrica e fazer o que chamamos de broncoaspiração, isto é, o conteúdo do estômago foi parar nos pulmões e ela então parou de respirar. Simples assim. O problema maior foi que ela já tinha uma doença cardíaca grave e já tinha tido “derrames” (acidentes vasculares cerebrais). Aí, como desgraça pouca é bobagem, ela evoluiu com uma parada cardíaca bem na frente da filha e de outros acompanhantes dos outros pacientes, a visita foi interrompida abruptamente e as manobras de ressuscitação foram iniciadas.

É necessário explicar que dificilmente uma reanimação cardiopulmonar tem sucesso se o coração já tiver uma doença prévia importante, porque é necessário um esforço tremendo pra que ele volte a funcionar e, se ele já tiver uma doença grave anteriormente, todo o esforço que empregamos acaba se tornando inútil. Foram mais de 30 minutos de reanimação e nada.

Após isso, o pior momento é explicar pra família que os esforços possíveis e necessários foram feitos mas que, infelizmente, o paciente não reagiu e foi a óbito.

Nesse dia, não foi a parada que me chocou, ou o momento e a forma como aconteceu, tampouco o fato da paciente não ter voltado, já que ela já tinha várias doenças prévias (comorbidades), mas as palavras da filha dela quando recebeu a notícia.

A filha da paciente não apenas questionou minhas condutas, como questionou inclusive minha formação médica. Gritou que eu não era médica coisa nenhuma e que queria falar com um determinado médico que também trabalha nessa UTI.

Controlei todos os meus impulsos pelos xingamentos e tentei me colocar no lugar dela, que estava visitando a mãe e a viu broncoaspirar na sua frente e morrer alguns minutos depois. Expliquei mais uma vez o que havia acontecido e me coloquei a sua disposição para quaisquer outros exclarecimentos que se tornassem necessários.

Nesse dia, pensei em muitas coisas, como de praxe.

Meus colegas médicos diriam que é impossível que alguém instruído como ela é, não compreendesse que uma paciente que já tinha tido 02 derrames prévios, um coração doente há anos e uma infecção respiratória grave que a fez ser transferida para a UTI, era uma paciente grave que poderia ir a óbito a qualquer momento e que todos os nossos esforços poderiam ser inúteis frente a isso.

Mas nesse dia e nesse momento, eu percebi que não. As pessoas, instruídas ou não, negam a verdade para si mesmas e ainda há colegas médicos que contribuem com isto ao não explicarem todos os fatos tim-tim por tim-tim.

Ontem, novamente durante um plantão de UTI, fiz mais uma vez todos esses questionamentos.

Um paciente de 83 anos com uma doença cardíaca grave (“coração grande” e arritmia – para os médicos, miocardiopatia dilatada com BAVT) estava internado no Hospital para ser submetido a um implante de marcapasso. Durante a internação, ele apresentou um quadro respiratório infeccioso, com posterior piora da função renal (já que como ele tinha várias doenças prévias e idade avançada, os rins já estavam lesados mas não a ponto de estarem “paralisados” como dizem).

Pelas evoluções dos outros colegas médicos, ele apresentou um evento agudo de desorientação (“não falava coisa com coisa”, “não reconhecia os parentes”) e foi pensado em várias hipóteses, como num “derrame” (AVCI) ou até mesmo num distúrbio metabólico (infecção, insuficiência renal crônica agudizada, hipoglicemia), isto é, algo que estivesse fazendo com que o organismo dele deixasse de funcionar adequadamente, digamos assim.

O fato é que o paciente foi transferido da enfermaria para a UTI e estava apresentando um quadro ainda mais grave, já que tanto os rins, quanto a infecção respiratória haviam piorado e ao invés de ele acordar e voltar a falar e reconhecer as pessoas, ele estava o tempo todo sonolento (rebaixamento do nível de consciência). O implante do marcapasso estava suspenso, para que o estado geral do paciente melhorasse e este pudesse então ser submetido a uma intervenção cirúrgica, ou não.

Após a visita (sempre ela), o médico do plantão da UTI chama os familiares para falar sobre os pacientes e explicar a situação em que se encontram, que tipo de tratamento foi instituído e o que estamos aguardando.

Quando saí da UTI, havia nada mais nada menos do que 20 acompanhantes desse paciente, ávidos por informação e com um desejo quase canibal de comer meu pobre fígado. Eles queriam explicações, queriam respostas, queriam ver rapidamente uma melhora que eu não podia assegurar-lhes que chegaria um dia. Mais do isso, eles queriam entender o que ninguém havia lhes explicado.

Uma das acompanhantes, a mais indagadora de todas, anotava num papel todas as palavras que eu dizia. Eu disse TODAS AS PALAVRAS. E ainda fazia questão de tentar me colocar contra os outros médicos, além de me testar para ver se estávamos todos falando a verdade.

Mais uma vez me perguntei se todas essas pessoas não entendiam que alguém que tem 83 anos, um coração extremamente debilitado, a ponto de necessitar de um marcapasso, umA infecção pulmonar grave e uma insuficiência renal crônica agudizada que está numa Unidade de Terapia Intensiva para tratamento, é alguém com um estado geral muito grave e um prognóstico pra lá de sombrio, ou seja, alguém que até pode melhorar, mas que estatisticamente falando, as chances são muito pequenas, ~pra não dizer ínfimas.

Mais uma vez, tentei ser o mais imparcial possível e explicar novamente pra família todo o quadro do paciente e o que estávamos fazendo por ele.

Não sei se eles me compreenderam e muito menos se aceitaram a verdade dos fatos. Também não sei se eles também acham que não sou médica. O fato é que eu tentei. Isso não é a coisa mais reconfortante do mundo mas talvez um dia eles entendam que não somos perfeitos e, apesar de nos esforçarmos bastante, somos absolutamente impotentes diante da maioria das doenças que infelizmente fogem ao nosso controle e à nossa vontade.

Baci!

Fechando ciclos…

Fevereiro 2, 2008

… E abrindo outros.

Porque vida é o que a gente vive entre um ciclo e outro. Ou melhor, a vida é um eterno abrir e fechar de ciclos, muitas vezes sinérgicos.

Ontem terminei a Residência de Clínica Médica. Deixo de ser Residente (pelo menos por 01 ano) e volto a ser médica (piada interna).

Na verdade funciona assim: a maioria das pessoas não faz  a menor idéia do que é um Médico Residente. Todo mundo acha que estamos no “limbo”, ou seja, não somos nem médicos, nem estudantes. Certa vez, no Hospital onde fiz residência me contaram que uma técnica de enfermagem que estava como circulante (auxiliando na cirurgia porém sem participar ativamente dela, ou seja, buscando materiais externos à mesa operatória e etc) não sabia como descrever o médico residente e colocou no relatório que era o “Acadêmico Médico Residente Estudante Doutor Fulano de Tal”.

Na verdade, o médico residente é a pior escória da Medicina. Já é médico e, como tal, pode ser responsabilizado cível e penalmente por seus atos, porém, ganha pouco, trabalha demais, dedica-se quase que integralmente à Residência e não é nem um pouco valorizado, já que não passa de um “estudantezinho”, na opinião dos outros e muitas vezes, até mesmo de pessoas da área de saúde.

O fato é que ESSE ciclo da minha vida acabou. Daqui pra frente é só focar na subespecialidade. Sim. Porque além de ralar como um condenado, a especialidade que escolhi (Clínica Médica) ainda tem um agravante: Quem termina 02 anos de Pediatria, é Pediatra (as pessoas conseguem entender isso). Quem termina 02 anos de Clínica Cirúrgica, é Cirurgião Geral (as pessoas também conseguem entender isso). Quem termina 03 anos de Ginecologia & Obstetrícia, ao final é Ginecologista e Obstetra.

Mas quem termina 02 anos de Clínica Médica, é clínico especialista em Clínica Médica, mas pra 99,9% da população é exatamente a mesma coisa que ser “Clínico Geral”, isto é, o mesmo título que qualquer um de nós recebe ao acabar os 06 anos da Faculdade de Medicina.

Isto significa que é muito comum as pessoas me perguntarem porque estudei tanto pra ser alguma coisa que eu já era antes de fazer a tal Residência Médica (??????????)

O fato é que só vou passar a ser “fixe” quando terminar meus 03 anos de Oncologia Clínica mas cada vitória deve ser intensamente comemorada (aprendi isso com minha prima-irmã Vanessa) e apesar de saber que ter terminado esse ciclo não vai fazer tanta diferença assim no final das contas, ou pelo menos durante este ano, estou me sentindo de alma lavada e pronta para os novos ciclos que se iniciarão.

Neste ano, vou fazer muitas coisas e espero continuar vivendo, ou seja, continuar abrindo e fechando ciclos.

Baci!

Uma década

Janeiro 29, 2008

Direto do túnel do tempo, gostaria de informar-lhes que há exatos 10 anos eu passei no vestibular da Universidade Federal do Pará, no curso de Medicina.

Como já falei anteriormente, na época do vestibular acredito que tenha curtido mais o prêmio do que a conquista em si, mas é impossível não perceber como aquele dia fez minha vida seguir um rumo totalmente único e que definiu os 10 anos seguintes e, muito provavelmente, todos os outros que ainda me for possível viver.

Há 10 anos, eu pensava em ser cirurgiã, achava que médicos usavam branco e faziam garranchos. Eu achava que me casaria com meu namorado da época, que teria uma penca de filhos e que teria uma família de comercial de margarina.

Nesses 10 anos, já fiz de tudo um pouco e fui decidindo meus caminhos com o tempo. A única coisa constante é a tal da Medicina.

Parabéns pra mim!

Baci!

Sacerdócio

Janeiro 8, 2008

Há exatos 04 anos me casei.

Não um casamento normal e tradicional, embora tenha envolvido uma igreja também.

Há 04 anos me casei com a minha profissão.

No momento em que nós, médicos, recebemos o grau, passamos a usar o anel no anelar esquerdo, símbolo do único casamento indissolúvel que eu conheço!

Existem ex-professores, ex-advogados, ex-mulher, ex-marido mas há algumas coisas que não existem!

Ex-corno, ex-gay, ex-sogra e ex-médico.

Já sofri bastante com e pela minha profissão. Já desejei largar tudo e ter uma vida “normal”. Já disse que isso não era pra mim.

Mas também já tive dias de tanta felicidade que fiz questão de ligar pra minha mãe e agradecer a ela por ter me tornado  médica.

Sim. Se hoje sou médica devo em mais de 90% a minha mãe, que sonhou isso pra mim e viu em mim potencial para sê-lo.

Acredito que minha profissão, casamento, sacerdócio seja uma das coisas mais importantes da minha vida e hoje eu completo mais um ciclo da minha vida.

Há 04 anos eu era apenas uma recém-formada besta. Hoje eu sou uma médica formada há 04 besta ! 😉

Parabéns pra mim e que muito mais conquistas venham!

Parabéns pelo meu casamento feliz!

Baci!

Do Dia do Médico

Outubro 20, 2007

Dia 18 de outubro, como todos devem saber, é o dia do Médico.

Confesso que muitas vezes me perguntei porque não poderia ser como os professores e ser agraciada com um quase feriado no meu dia profissional.

Acredito até que quase feriados são muito mais legais do que os feriados verdadeiros, já que não fica a cidade toda com aquela cara de marasmo e você se sente realmente privilegiado já que todos os outros seres trabalhadores estão na labuta, menos você e alguns de seus amigos.

Tudo isso significa que os quase feriados são melhores porque o shopping está aberto. Pronto, falei.

“Pessoas não escolhem quando vão ficar doentes”, você vai dizer e aí reside uma grande verdade, tanto que já me pronunciei anteriormente por aqui sobre o verdadeiro motivo de existirem Pronto Atendimentos em todas as cidades.

Porém, acho impossível acordar no Dia do Médico e não fazer várias elocubrações sobre a minha profissão. Acho que todos os profissionais já fizeram isso pelo menos uma vez na vida e o dia de determinado profissional, sendo comemorado ou não, é praticamente um convite a uma reflexão mais aprofundada.

A primeira reflexão diz respeito a escolhas.

Gosto de implicar com minha mãe dizendo que ela me forçou a ser médica só porque aos 14 anos, ela me chamou num canto e disse da forma mais séria que poderia conseguir, que me apoiaria em qualquer profissão que eu decidisse seguir, MAS, que ser médico era tão bonito, que meu avô morria de vontade de ter uma filha médica e, como não teve, certamente se orgulharia imensamente por ter uma neta médica.

Claro que se eu REALMENTE tivesse alguma outra profissão em mente, não teria nem dado ouvidos para o discurso ensaiado da minha mãe, mas desde aquele dia, passei a achar que a Medicina seria mesmo um vasto campo de conhecimento e que eu poderia até pensar em ser feliz sendo médica, andando de branco e fazendo garranchos.

Claro que a idéia de uma adolescente sobre o que é uma profissão é extremamente fantasiosa, mas lembro-me de que naquele momento era óbvio que a minha “vocação” estava descoberta.

Escrevo “vocação” entre aspas porque apesar de ter estudado grande parte da minha vida em colégio católico, nunca acreditei muito nesse papo de vocação. Na minha humilde opinião, qualquer coisa que você faça com esmero e dedicação será bem feita e te fará feliz nem que seja pelo simples fato de ter consciência de um trabalho bem realizado.

Desde o tão falado dia em que “descobri por livre e espontânea pressão a minha vocação”, dediquei-me a estudar para passar no vestibular e me recordo bem de que em determinado momento, o curso que eu faria era apenas um detalhe. O importante era apenas e tão somente passar no cretino do Vestibular.

Passei na primeira tentativa e gostaria de frisar que mais uma vez não fiz escolha alguma. Deixei apenas o barco correr.

Apenas no decorrer do meu curso pude começar a fazer escolhas. Clínica ou Cirurgia? Cardiologia ou Endoscopia? Geriatria ou Pneumologia?

Com o ampliar constate de conhecimento e o acompanhamento do dia-a-dia da minah até então futura profissão, pude finalmente fazer escolhas.

Ainda no terceiro ou no quarto ano, já havia me decidido a fazer Clínica Médica como residência e depois pensar no resto. Durante o curso, convivi com os mais variados tipos de pessoas, fiz os mais diversos amigos, participei dos mais diversos estágios e aprendi muito mais do que Ciência Biológica e Médica. Aprendi muito sobre relacionamentos, Ciências Humanas, Ciências Políticas e também fui largando meu mundinho de adolescente a cada novo semestre.

Após o término da faculdade e com novas escolhas pela frente, que eu também já comentei anteriormente, pude achar a subespecialidade que REALMENTE quero seguir e que eu tenho certeza de que vai me fazer feliz pelos próximos 30 anos, no mínimo.

Se vocês me perguntarem se eu escolhi ser médica, direi com toda a honestidade do mundo que não sei. Não sei se escolhi ou se escolheram por mim. Não sei se me deixei guiar por idéias fantasiosas de adolescente e curti mais o desafio do que o prêmio.

Mas uma coisa eu tenho certeza plena e absoluta de que escolhi: ser a melhor médica possível e aprender cada vez mais, cada dia mais.

Escolhi ser oncologista. Escolhi ser humana, ou pelo menos o mais humana possível.

No Dia do Médico e em todos os dias, peço a Deus que me ilumine pra que eu faça o bem e tão somente o bem a todos que precisarem da minha ajuda e do meu atendimento.

Feliz Dia do Médico e que São Lucas nos proteja!

 

 O dia 18 de outubro foi escolhido como “dia dos médicos” por ser o dia consagrado pela Igreja a São Lucas. Como se sabe, Lucas foi um dos quatro evangelistas do Novo Testamento. Seu evangelho é o terceiro em ordem cronológica; os dois que o precederam foram escritos pelos apóstolos Mateus e Marcos.

        Lucas não conviveu pessoalmente com Jesus e por isso a sua narrativa é baseada em depoimentos de pessoas que testemunharam a vida e a morte de Jesus. Além do evangelho, é autor do “Ato dos Apóstolos”, que complementa o evangelho.

        Segundo a tradição, São. Lucas era médico, além de pintor, músico e historiador, e teria estudado medicina em Antióquia. Possuindo maior cultura que os outros evangelistas, seu evangelho utiliza uma linguagem mais aprimorada que a dos outros evangelistas, o que revela seu perfeito domínio do idioma grego.

São Lucas não era hebreu e sim gentio, como era chamado todo aquele que não professava a religião judaica. Não há dados precisos sobre a vida de São Lucas. Segundo a tradição era natural de Antióquia, cidade situada em território hoje pertencente à Síria e que, na época, era um dos mais importantes centros da civilização helênica na Ásia Menor. Viveu no século I d.C., desconhecendo-se a data do seu nascimento, assim como de sua morte.

        Há incerteza, igualmente, sobre as circunstâncias de sua morte; segundo alguns teria sido martirizado, vítima da perseguição dos romanos ao cristianismo; segundo outros morreu de morte natural em idade avançada. Tampouco se sabe ao certo onde foi sepultado e onde repousam seus restos mortais. Na versão mais provável e aceita pela Igreja Católica, seus despojos encontram-se em Pádua, na Itália, onde há um jazigo com o seu nome, que é visitado pelos peregrinos.
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        Não há provas documentais, porém há provas indiretas de sua condição de médico. A principal delas nos foi legada por São Paulo, na epístola aos colossenses, quando se refere a “Lucas, o amado médico”. Foi grande amigo de São Paulo e, juntos, difundiram os ensinamentos de Jesus entre os gentios.

        Outra prova indireta da sua condição de médico consiste na terminologia empregada por Lucas em seus escritos. Em certas passagens, utiliza palavras que indicam sua familiaridade com a linguagem médica de seu tempo. Este fato tem sido objeto de estudos críticos comparativos entre os textos evangélicos de Mateus, Marcos e Lucas, e é apontado como relevante na comprovação de que Lucas era realmente médico. Dentre estes estudos, gostaríamos de citar o de Dircks, que contém um glossário das palavras de interesse médico encontradas no Novo Testamento.

        A vida de São. Lucas, como evangelista e como médico,  foi tema de um romance histórico muito difundido, intitulado “Médico de homens e de almas”, de autoria da escritora Taylor Caldwell. Embora se trate de uma obra de ficção, a mesma muito tem contribuído para a consagração da personalidade e da obra de Sao Lucas.

        A escolha de São Lucas como patrono dos médicos nos países que professam o cristianismo é bem antiga. Eurico Branco Ribeiro, renomado professor de cirurgia e fundador do Sanatório S. Lucas, em São Paulo, é autor de uma obra fundamental sobre São Lucas, em quatro volumes, totalizando 685 páginas, fruto de investigações pessoais e rica fonte de informações sobre o patrono dos médicos. Nesta obra, intitulada “Médico, pintor e santo”, o autor refere que, já em 1463, a Universidade de Pádua iniciava o ano letivo em 18 de outubro, em homenagem a São Lucas, proclamado patrono do “Colégio dos filósofos e dos médicos”.

        A escolha de São. Lucas como patrono dos médicos e do dia 18 de outubro como “dia dos médicos”, é comum a muitos países, dentre os quais Portugal, França, Espanha, Itália, Bélgica, Polônia, Inglaterra, Argentina, Canadá e Estados Unidos. No Brasil acha-se definitivamente consagrado o dia 18 de outubro como “Dia dos Médicos”.

Dos Chefes

Setembro 1, 2007

Sim, quem tem chefe é índio. Eu tenho chefe e não sou índia (pelo menos não aparentemente).

Chefes são pessoas estranhas. Ouso até a dizer que chefes não se parecem muito com pessoas em determinadas situações, mas eu ainda acredito que eles sejam pessoas, ou no mínimo indivíduos. Pelo menos até eu encontrar uma nova categoria para eles.

Em menos de quatro anos de atividade laborativa, já tive todos os tipos de chefes possíveis. Costumo inclusive compará-los com professores. Se ter vários empregos é bom porque se ganha mais, há também a desvantagem de termos vários chefes. É como o castigo para o poligâmico: ter várias sogras!

Graças a Deus acho que a maioria dos meus chefes gosta de mim até hoje, mas os que me odeiam, me odeiam “di cum força”.

Não por acaso, meus chefes que gostam de mim são homens e os que não gostam são do sexo feminino. Sou mulher e adoro sê-lo, mas devo confessar que não há nada pior do que uma mulher chefiando outra. É sempre um disque-me-disse, uma invejinha chata, uma vontade de se sobressair mais, uma concorrência por bolsas. Aff!

Vamos do princípio. Meu primeiro chefe foi um dos médicos mais bem conceituados em Belém. Eu o conheci ainda no Barros Barreto (não, João de Barros Barreto não é meu parente) quando era interna (estudante do sexto ano de Medicina). Ele levava os alunos pra enfermaria onde eu ficava e eu acabava acompanhando os alunos e passando algumas coisas pra eles. Quando retornei de São Paulo, ele me encontrou no Hospital, perguntou o que eu estava fazendo da vida e me convidou pra trabalhar com ele, acompanhando os pacientes dele e tals. Foi maravilhoso, um super aprendizado. Cada passo da minha vida profissional, eu discutia com ele. Inicialmente, ele passava visita nos pacientes comigo e me dizia o que fazer. Com o tempo, ele foi me soltando até chegar no ponto em que eu avaliava os pacientes dele primeiro, dizia se havia necessidade ou não de internar e só depois que eu tomava todas as condutas, eu avisava pra ele que o paciente tinha sido internado ou não e o que eu tinha feito. Foi a primeira vez que vi alguém realmente confiar em mim como médica, profissional e não mais como estudante. Até hoje ele é meu médico e consultor particular. Se eu tiver piora da minha asma ou tiver algum paciente interessante, pode ter certeza de que vou ligar pra ele.

Minha segunda chefe é um misto de Barbie com Chuck. Ela é bonita, muito bem educada, mas não queira ver aquela mulher com raiva! Ela quase literalmente teve que me engolir… Ela não ia com a minha cara, deixava isso muito bem claro e às vezes eu tinha medo dela. Graças a Deus o tempo foi passando e eu fui descendo goela abaixo com uma certa dificuldade. Não posso dizer que hoje sejamos amigas, mas ela me atura e me respeita como profissional e isso é tudo que eu posso desejar de uma pesoa que antes me odiava, né? Acho até que estou no lucro… Pouco antes de pedir demissão e conversar com ela sobre o meu futuro, ela me disse com todas as letras que estaria de portas abertas pra me receber de volta assim que eu quisesse voltar. Vamos ver se isso é verdade, né?

Meu terceiro chefe foi um dos mais queridos. Na verdade ele foi quase um pai pra mim. Confiava em mim como ninguém, vivia me delegando funções e dando um jeito pra eu não ter que cumprir missões muito estafantes. Chegou a levar a filha dele um dia pra me conhecer. Ele queria que eu contasse pra ela como era o dia-a-dia de uma médica, apesar de ele ser médico também. Acho que ele pensava que seria melhor uma médica mais nova conversar com ela. Achei tudo muito lindo. Conversávamos todos os dias sobre trabalho e sobre minhas aspirações pro futuro. Ele adorava me ver estudando francês dentro da UTI e eu sei que sempre desejou tudo de melhor pra mim. Quando fui fazer um curso no Rio (também chamado de embuste pra ganhar umas férias) e passei super bem, liguei pra ele e percebi que ele ficou feliz como se ele mesmo tivesse feito o curso. Pouco antes de sair de lá, eu também perguntei se poderia voltar mais tarde, depois da residência, se quisesse, e ele disse que estaria esperando por mim. Recentemente liguei pra ele perguntando se poderia voltar e ele me deu todas as coordenadas pra que isso aconteça. Agora só depende de mim…

Minha quarta chefe é vice-coordenadora da minha Residência. Neurologista, solteirona, metódica, sem filhos. A combinação perfeita pra transformar minha vida num eterno inferno astral. Ela gosta de tudo por escrito e acha que o mundo é feito desse jeito. Jeitinho? Acordo?? Nada disso existe no mundinho dela. Logo após a morte do meu primo Fabricio, peguei o primeiro avião rumo a Belém e nem olhei pra trás. Acreditava que qualquer pessoa entenderia como é duro perder um irmão. Ela me ligou depois de alguns dias me escroteando e falou as maiores barbaridades. Eu comecei a gritar com ela e disse categoricamente que se ela quisesse me expulsar da Residência, que ficasse à vontade, mas apenas um pessoa que ama e é amada sabe o que é perder alguém que se ama. Ela se calou, não me ligou mais e eu voltei como se nada tivesse acontecido. Confesso que foi até difícil olhar pra cara dela depois disso. Voltei às minhas atividades normalmente e muitos meses depois, ela teve que mudar seus conceitos a meu respeito: fiz a prova dela de Neurologia e arrasei! Apesar de detestar Neurologia e principalmente detestar ir ao Ambulatório dela! E ela ainda teve que ouvir elogios a meu respeito do outro preceptor de Neurologia e até da Diretora Clínica do Hospital! Tudo num só dia! A vingança é muito açucarada!

Meu quinto chefe é um chefe mais estranho. Se considerarmos que eu trabalho como prestadora de serviços para uma espécie de cooperativa, na verdade eu tenho seis chefes. Mas esse em questão é o, digamos, administrador e manda-chuva da tal cooperativa, então posso considerá-lo como chefe. Ele é brincalhão quando está de bom humor e às vezes só se interessa em bater papinho. Foi muito importante porque me deu emprego num momento imprescindível e já até me convidou pra ser sócia!

Mas o verdadeiro motivo pra eu ter escrito tantas coisas sobre meus chefes e ex-chefes é o meu sexto chefe! Certo dia estava na minha casa em Belém, pensando sobre qual subespecialidade deveria seguir e uma verdadeira lâpada se iluminou. A Oncologia seria a possibilidade de exercitar tudo que aprendi e que ainda espero aprender na Clínica Médica, me proporcionaria um vasto conhecimento, além da convivência próxima com pacientes portadores de histórias fantásticas, em que cada dia de vida é uma bênção. Nunca tinha pensado em fazer Oncologia pelo sofrimento que automaticamente relacionamos com a especialidade, mas achei, naquele momento, que seria uma boa oprtunidade de tentar desenvolver isso.

Meu sexto chefe, Dr. Benjamim, até esse momento, era pra mim apenas o Oncologista do Hospital onde faço Residência. Já havíamos conversado algumas vezes mas nada de mais. Procurei por ele e lhe contei das minhas intenções Oncológicas. Imediatamente ele se abriu num sorriso e disse que eu poderia acompanhá-lo e que eu perceberia que a Oncologia era muito mais do que eu imaginava.

Foi assim que comecei a acompanhá-lo no Ambulatório e foi assim que a minha paixão pela Oncologia se revelou. Poucas semanas depois do início do meu Estágio, ele já falava do meu futuro como Oncologista e já me convidava para trabalhar com ele. Conversou com um das coordenadoras da Residência e falou super bem de mim, me convidou pra trabalhar com ele na Clínica dele e sempre comemora os feitos profissionais e científicos me ligando e contando as novidades.

Ele divide experências comigo e sempre aceita minhas opiniões. Ele foi maravilhoso na morte da minha avó porque eu estava no Ambulatório dele, atendendo e ele não apenas me acalmou, como chamou todas as pessoas envolvidas ou não no caso, ligou pro aeroporto, falou com a minha mãe. Enfim… Foi um verdadeiro amigo.

Hoje mesmo ele se revelou um super-chefe. Telefonei pra ele pedindo que ele intercedesse a mim junto à Super Nanny (chefe número 04) e ele disse: “Por você, eu falaria até com o Papa. Você tem crédito!”

Baci!