Família

Outubro 8, 2010

Minha família é minha maior paixão.

Qualquer pessoa que me conhece ou conhece meus primos sabe que somos muito mais que primos. Somos irmãos. Criados com os mesmos valores e a mesma paixão pela educação, cultura, caráter, honestidade.

Qualquer pessoa que vê a relação entre meus tios, tias e mãe, sente o quanto podemos ser unidos e nos admira pelo amor que transcede qualquer palavra.

Minha família era e é também o maior orgulho do meu primo-irmão, brutalmente arrancado de mim e de nós.

Não é pra menos.

Temos orgulho do que somos. Temos orgulho de tudo que conquistamos através de trabalho duro e sempre com muito estudo e afinco.

Temos orgulho por sermos unidos e amados. Temos orgulho porque nunca fomos ricos mas somos dignos e temos uma vida digna.

Somos felizes, admirados e muito, muito invejados.

Perdão, Senhor, aos teus filhos que ainda não aprenderam que podem construir já que pensam apenas em destruir a felicidade alheia.

Obrigada, Senhor, por ter me feito nascer numa família tão maravilhosa e afasta de nós todos os abutres desse mundo.

Protege, Senhor, minha avó e meu primo Fabricio, duas almas que certamente estão ao teu lado neste momento.

Maior do que qualquer maldade deste mundo, está a Tua Justiça e, Essa, eu sei que jamais falhará.

Como já falei anteriormente, quem quiser nos odiar e invejar, tem um longo trabalho pela frente!

Tô indo bem ali ser feliz e já volto!

Famílias x Médicos

Março 20, 2008

Ainda não havia comentado aqui mas, apesar de já pensar em escrever num blog há alguns anos, o evento que me fez decidir definitivamente por escrevê-lo foi um plantão de UTI.

Na época (ano passado) eu havia passado por uma experiência no mínimo bizarra.

A visita dos familiares na UTI é variável, mas numa das UTIs em que trabalho só acontece durante a tarde e apenas 2 familiares podem entrar e se aproximar do paciente num curto período de 1 hora. Como vocês devem imaginar, apesar de ser um período curto, todas as atividades param nessa uma hora (medicações, banhos, exames, etc.) para que os parentes entrem. É óbvio que muitos barracos são feitos como esposas e amantes brigando pra entrar juntas ou uma primeiro que a outra e outras coisas bizarras…

Eu particularmente tenho o costume de me retirar do salão da UTI, permanecendo no meu repouso para que os familiares visitem de fato os pacientes e não fiquem apenas me perguntando as coisas.

Nesse dia em questão, uma paciente de uns 70 anos “resolveu” aspirar a secreção gástrica e fazer o que chamamos de broncoaspiração, isto é, o conteúdo do estômago foi parar nos pulmões e ela então parou de respirar. Simples assim. O problema maior foi que ela já tinha uma doença cardíaca grave e já tinha tido “derrames” (acidentes vasculares cerebrais). Aí, como desgraça pouca é bobagem, ela evoluiu com uma parada cardíaca bem na frente da filha e de outros acompanhantes dos outros pacientes, a visita foi interrompida abruptamente e as manobras de ressuscitação foram iniciadas.

É necessário explicar que dificilmente uma reanimação cardiopulmonar tem sucesso se o coração já tiver uma doença prévia importante, porque é necessário um esforço tremendo pra que ele volte a funcionar e, se ele já tiver uma doença grave anteriormente, todo o esforço que empregamos acaba se tornando inútil. Foram mais de 30 minutos de reanimação e nada.

Após isso, o pior momento é explicar pra família que os esforços possíveis e necessários foram feitos mas que, infelizmente, o paciente não reagiu e foi a óbito.

Nesse dia, não foi a parada que me chocou, ou o momento e a forma como aconteceu, tampouco o fato da paciente não ter voltado, já que ela já tinha várias doenças prévias (comorbidades), mas as palavras da filha dela quando recebeu a notícia.

A filha da paciente não apenas questionou minhas condutas, como questionou inclusive minha formação médica. Gritou que eu não era médica coisa nenhuma e que queria falar com um determinado médico que também trabalha nessa UTI.

Controlei todos os meus impulsos pelos xingamentos e tentei me colocar no lugar dela, que estava visitando a mãe e a viu broncoaspirar na sua frente e morrer alguns minutos depois. Expliquei mais uma vez o que havia acontecido e me coloquei a sua disposição para quaisquer outros exclarecimentos que se tornassem necessários.

Nesse dia, pensei em muitas coisas, como de praxe.

Meus colegas médicos diriam que é impossível que alguém instruído como ela é, não compreendesse que uma paciente que já tinha tido 02 derrames prévios, um coração doente há anos e uma infecção respiratória grave que a fez ser transferida para a UTI, era uma paciente grave que poderia ir a óbito a qualquer momento e que todos os nossos esforços poderiam ser inúteis frente a isso.

Mas nesse dia e nesse momento, eu percebi que não. As pessoas, instruídas ou não, negam a verdade para si mesmas e ainda há colegas médicos que contribuem com isto ao não explicarem todos os fatos tim-tim por tim-tim.

Ontem, novamente durante um plantão de UTI, fiz mais uma vez todos esses questionamentos.

Um paciente de 83 anos com uma doença cardíaca grave (“coração grande” e arritmia – para os médicos, miocardiopatia dilatada com BAVT) estava internado no Hospital para ser submetido a um implante de marcapasso. Durante a internação, ele apresentou um quadro respiratório infeccioso, com posterior piora da função renal (já que como ele tinha várias doenças prévias e idade avançada, os rins já estavam lesados mas não a ponto de estarem “paralisados” como dizem).

Pelas evoluções dos outros colegas médicos, ele apresentou um evento agudo de desorientação (“não falava coisa com coisa”, “não reconhecia os parentes”) e foi pensado em várias hipóteses, como num “derrame” (AVCI) ou até mesmo num distúrbio metabólico (infecção, insuficiência renal crônica agudizada, hipoglicemia), isto é, algo que estivesse fazendo com que o organismo dele deixasse de funcionar adequadamente, digamos assim.

O fato é que o paciente foi transferido da enfermaria para a UTI e estava apresentando um quadro ainda mais grave, já que tanto os rins, quanto a infecção respiratória haviam piorado e ao invés de ele acordar e voltar a falar e reconhecer as pessoas, ele estava o tempo todo sonolento (rebaixamento do nível de consciência). O implante do marcapasso estava suspenso, para que o estado geral do paciente melhorasse e este pudesse então ser submetido a uma intervenção cirúrgica, ou não.

Após a visita (sempre ela), o médico do plantão da UTI chama os familiares para falar sobre os pacientes e explicar a situação em que se encontram, que tipo de tratamento foi instituído e o que estamos aguardando.

Quando saí da UTI, havia nada mais nada menos do que 20 acompanhantes desse paciente, ávidos por informação e com um desejo quase canibal de comer meu pobre fígado. Eles queriam explicações, queriam respostas, queriam ver rapidamente uma melhora que eu não podia assegurar-lhes que chegaria um dia. Mais do isso, eles queriam entender o que ninguém havia lhes explicado.

Uma das acompanhantes, a mais indagadora de todas, anotava num papel todas as palavras que eu dizia. Eu disse TODAS AS PALAVRAS. E ainda fazia questão de tentar me colocar contra os outros médicos, além de me testar para ver se estávamos todos falando a verdade.

Mais uma vez me perguntei se todas essas pessoas não entendiam que alguém que tem 83 anos, um coração extremamente debilitado, a ponto de necessitar de um marcapasso, umA infecção pulmonar grave e uma insuficiência renal crônica agudizada que está numa Unidade de Terapia Intensiva para tratamento, é alguém com um estado geral muito grave e um prognóstico pra lá de sombrio, ou seja, alguém que até pode melhorar, mas que estatisticamente falando, as chances são muito pequenas, ~pra não dizer ínfimas.

Mais uma vez, tentei ser o mais imparcial possível e explicar novamente pra família todo o quadro do paciente e o que estávamos fazendo por ele.

Não sei se eles me compreenderam e muito menos se aceitaram a verdade dos fatos. Também não sei se eles também acham que não sou médica. O fato é que eu tentei. Isso não é a coisa mais reconfortante do mundo mas talvez um dia eles entendam que não somos perfeitos e, apesar de nos esforçarmos bastante, somos absolutamente impotentes diante da maioria das doenças que infelizmente fogem ao nosso controle e à nossa vontade.

Baci!

Para minha vovó

Fevereiro 16, 2008

Comigo brincaste, riste e choraste. Foste meu porto seguro e meu maior exemplo de coragem e força.

A mim dedicaste amor, provavelmente o maior amor que pode existir, sempre sem medidas apesar de conhecer melhor do que ninguém todos os meus defeitos.

Ao teu lado, eu fui feliz, mimada ao extremo, recebi os beijos mais carinhosos e provavelmente as maiores lições de vida.

A mim contaste tua vida, teus medos, teus sonhos, tuas desilusões e quantas vezes não quis ser igual a ti?

Ao meu lado estiveste em todas as minhas conquistas, em todas as minhas frustrações, em todas as minhas doenças, temendo por mim, querendo me proteger de tudo e de todos e eu, muitas vezes, sem entender o porquê de tanta proteção.

Contigo sempre pude contar, pra me relatar as novidades, pra torcer pelo meu sucesso, pra entender que eu não era exatamente o que desejavas como neta.

Contigo briguei, muitas vezes sem razão e de ti sempre esperei e obtive o perdão, a compreensão, apesar de sempre vir após a raiva momentânea.

A ti devo a lição, o afeto, o zelo, o carinho, a simplicidade de um abraço apertado, de um contar de dias afastadas, de um pudim de aniversário, de uma canção de ninar jamais esquecida, de uma oração na testa, de uma lágrima de preocupação.

A ti, vovó, eu devo o que sou e o que um dia serei. A ti eu devo o significado das palavras força, fé, família e doação.

Não há despedidas, porque o reencontro acontece todos os dias entre nós. Nas palavras, nos gestos, nas atitudes e até nos preconceitos.

Noventa e um anos é tempo demais? Talvez. Eu viveria mais novecentos e dez ao teu lado,ou até mesmo um único dia a mais, só para, mais uma vez, ouvir teus conselhos e, mais uma vez, dizer-te o quanto te amo.

Que um dia eu possa voltar a ser criança nos teus braços e eu possa ouvir, mais uma vez, aquela velha canção de ninar que diz que “muito em breve ó mãe querida lá no céu me encontrarás”…

Kiara

Novembro 24, 2007

” É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não”

Hoje eu poderia falar da ausência do meu primo-irmão, mas resolvi fazer uma espécie de “jogo do contente” e falar d alegrias e não de tristezas.

Por mais que as alegrias não nos façam esquecer das tristezas, há decisões e opções que nos são permitidas e, neste instante, prefiro que as tristezas fiquem caladas.

Hoje é aniversário da Kiara!

Sim, minha única leitora assídua e poeta particular. Provavelmente uma das pouca pessoas que me considera MEIGA (isso mesmo, MEIGA), confidente e companheira para papos intermináveis e churrascos no “Mineiro”.

Ah! Não posso me esquecer também de que ela é quase a única pessoa que achas que este blog vale a pena ser lido. Talvez nem minha mãe achasse isso se o lesse…

Sinto-me privilegiada por conhecer alguém tão livre de preconceitos e ao mesmo tempo, tão capaz de amar e de se entregar às pessoas e às amizades, apesar do risco de “quebrar a cara”. Sou privilegiada mais ainda por poder chamá-la de amiga e por poder cmpatilhar de tantos momentos maravilhosos até mesmo quando leio o seu blog.

Aniversários são bênçãos. Adquirimos mais maturidade e experiência e amor à vida com o decorrer deles.

São verdadeiras Revoluçõs Solares, ou seja, o verdadeiro Ano Novo individual. É quando olhamos pra trás e percebemos o que já fizemos e tentamos olhar pra frente pra buscarmos o que AINDA não atingimos.

Numa viagem recente de avião, minha companheira desconhecida de viagem, em pânico pela decolagem e aterrissagem, ressaltou o quanto somos capazes de tudo que quisermos com vontade. Um avião voar é quase um milagre. Um aniversário a mais é certamente um milagre para nós e para quem nos ama.

Para a Kiara, é uma alegria dupla.

Fazer parte do mundo e ao mesmo tempo deixá-lo mais feliz.

Que este aniversário seja o primeiro de muitos de uma longa amizade, já que “nada é por acaso” e se somos amigas (sim, ela disse que quando for famosa, vou poder dizer que somos amigas e ela não vai desmentir), certamente é porque já nos conhecíamos antes.

Obrigada por existir, por ser inspiração contínua, leitora assídua, poeta talentosa e minha fã 😉

Seja feliz sempre e irradie felicidade!

Beijos e até a Balzaquianice 😉

Poema em Linha Reta

Novembro 16, 2007

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

(Fernando Pessoa como Álvaro de Campos)

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Vou contar uma quase infâmia pra vocês. Aliás, contar não é bem o termo. Vou confessar!

Até hoje tive coragem de fazer essa confissão a pouquíssimas pessoas e a Kiara é uma delas.

Lá vai. Eu não gosto de poesias. Pronto, falei.

Assim. Não é que eu as odeie, mas por exemplo, concretismo é uma coisa que não engulo. Palavras sem nexo menos ainda. Acho que sou objetiva demais para ler um poema. Na maioria das vezes ele não me mostra significado algum.

Mas aí acontecem umas coisas estranhas. A gente lê uma poesia e gostaria de tê-la escrito. Num momento súbito, o que o poeta escreveu faz todo o sentido pra gente e é isso que eu sinto quando leio esse Poema em Linha Reta, do Fernando Pessoa.

Confesso que acho estranho um único poeta escolher três pseudônimos diferentes pra escrever suas poesias. Às vezes me parece que ele não escreveu nada e que os três poetas que ele criou são na verdade espíritos que psicografam as poesias pra ele. Mas então ele me vem com uma poesia dessas, que diz absolutamente tudo que eu queria dizer e eu já não sei se ele escreveu, se psicografou ou se comprou pronto. O importante é que tá aí, é lindo e reflete o que eu sinto.

Essa poesia me faz pensar justamente nessa minha característica de não gostar de poesias de um modo geral, coisa quase inconfessável e na mania que as pessoas têm de tentar mostrar uma coisa que não são. Quantas pessoas vocês conhecem que diriam com todas as letras que não gostam de Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Florbela Espanca e tantos outros? Claro que eu também não sou 100% transparente todo o tempo e que a imagem de perfeição é o que se busca. Eu, na verdade busco não só a imagem mas a perfeição em si, mas tenho que admitir que estou longe disso léguas e léguas e léguas e isso me faz humana e me faz me identificar com o poema do Fernando Pessoa (desculpa, tá?). E eu até gosto de um montão de poesias dos citados, menos da Cecília Meireles que acho deprê demais.

Todas as pessoas são perfeitas, certinhas, cultas, pudicas e muito melhores do que eu, reles mortal que não gosta de poesias.

Acho na verdade que não gosto de todas as poesias. Sou uma chata de plataformas (galochas não estão mais na moda!!!) e só gosto do que me interessa e do que me faz feliz.

Às favas com a perfeição, ou melhor, com a falsa imagem de perfeição. Eu não gosto de poesias mas sou feliz e sou sincera. E se gostar de alguma poesia, eu digo que gostei e pronto!

Quando alcançarmos a perfeição moral, não vamos ter que fingir que somos perfeitos.

Beijos e boa viagem pra mim de novo. Depois eu conto minhas novas aventuras