Famílias x Médicos

Março 20, 2008

Ainda não havia comentado aqui mas, apesar de já pensar em escrever num blog há alguns anos, o evento que me fez decidir definitivamente por escrevê-lo foi um plantão de UTI.

Na época (ano passado) eu havia passado por uma experiência no mínimo bizarra.

A visita dos familiares na UTI é variável, mas numa das UTIs em que trabalho só acontece durante a tarde e apenas 2 familiares podem entrar e se aproximar do paciente num curto período de 1 hora. Como vocês devem imaginar, apesar de ser um período curto, todas as atividades param nessa uma hora (medicações, banhos, exames, etc.) para que os parentes entrem. É óbvio que muitos barracos são feitos como esposas e amantes brigando pra entrar juntas ou uma primeiro que a outra e outras coisas bizarras…

Eu particularmente tenho o costume de me retirar do salão da UTI, permanecendo no meu repouso para que os familiares visitem de fato os pacientes e não fiquem apenas me perguntando as coisas.

Nesse dia em questão, uma paciente de uns 70 anos “resolveu” aspirar a secreção gástrica e fazer o que chamamos de broncoaspiração, isto é, o conteúdo do estômago foi parar nos pulmões e ela então parou de respirar. Simples assim. O problema maior foi que ela já tinha uma doença cardíaca grave e já tinha tido “derrames” (acidentes vasculares cerebrais). Aí, como desgraça pouca é bobagem, ela evoluiu com uma parada cardíaca bem na frente da filha e de outros acompanhantes dos outros pacientes, a visita foi interrompida abruptamente e as manobras de ressuscitação foram iniciadas.

É necessário explicar que dificilmente uma reanimação cardiopulmonar tem sucesso se o coração já tiver uma doença prévia importante, porque é necessário um esforço tremendo pra que ele volte a funcionar e, se ele já tiver uma doença grave anteriormente, todo o esforço que empregamos acaba se tornando inútil. Foram mais de 30 minutos de reanimação e nada.

Após isso, o pior momento é explicar pra família que os esforços possíveis e necessários foram feitos mas que, infelizmente, o paciente não reagiu e foi a óbito.

Nesse dia, não foi a parada que me chocou, ou o momento e a forma como aconteceu, tampouco o fato da paciente não ter voltado, já que ela já tinha várias doenças prévias (comorbidades), mas as palavras da filha dela quando recebeu a notícia.

A filha da paciente não apenas questionou minhas condutas, como questionou inclusive minha formação médica. Gritou que eu não era médica coisa nenhuma e que queria falar com um determinado médico que também trabalha nessa UTI.

Controlei todos os meus impulsos pelos xingamentos e tentei me colocar no lugar dela, que estava visitando a mãe e a viu broncoaspirar na sua frente e morrer alguns minutos depois. Expliquei mais uma vez o que havia acontecido e me coloquei a sua disposição para quaisquer outros exclarecimentos que se tornassem necessários.

Nesse dia, pensei em muitas coisas, como de praxe.

Meus colegas médicos diriam que é impossível que alguém instruído como ela é, não compreendesse que uma paciente que já tinha tido 02 derrames prévios, um coração doente há anos e uma infecção respiratória grave que a fez ser transferida para a UTI, era uma paciente grave que poderia ir a óbito a qualquer momento e que todos os nossos esforços poderiam ser inúteis frente a isso.

Mas nesse dia e nesse momento, eu percebi que não. As pessoas, instruídas ou não, negam a verdade para si mesmas e ainda há colegas médicos que contribuem com isto ao não explicarem todos os fatos tim-tim por tim-tim.

Ontem, novamente durante um plantão de UTI, fiz mais uma vez todos esses questionamentos.

Um paciente de 83 anos com uma doença cardíaca grave (“coração grande” e arritmia – para os médicos, miocardiopatia dilatada com BAVT) estava internado no Hospital para ser submetido a um implante de marcapasso. Durante a internação, ele apresentou um quadro respiratório infeccioso, com posterior piora da função renal (já que como ele tinha várias doenças prévias e idade avançada, os rins já estavam lesados mas não a ponto de estarem “paralisados” como dizem).

Pelas evoluções dos outros colegas médicos, ele apresentou um evento agudo de desorientação (“não falava coisa com coisa”, “não reconhecia os parentes”) e foi pensado em várias hipóteses, como num “derrame” (AVCI) ou até mesmo num distúrbio metabólico (infecção, insuficiência renal crônica agudizada, hipoglicemia), isto é, algo que estivesse fazendo com que o organismo dele deixasse de funcionar adequadamente, digamos assim.

O fato é que o paciente foi transferido da enfermaria para a UTI e estava apresentando um quadro ainda mais grave, já que tanto os rins, quanto a infecção respiratória haviam piorado e ao invés de ele acordar e voltar a falar e reconhecer as pessoas, ele estava o tempo todo sonolento (rebaixamento do nível de consciência). O implante do marcapasso estava suspenso, para que o estado geral do paciente melhorasse e este pudesse então ser submetido a uma intervenção cirúrgica, ou não.

Após a visita (sempre ela), o médico do plantão da UTI chama os familiares para falar sobre os pacientes e explicar a situação em que se encontram, que tipo de tratamento foi instituído e o que estamos aguardando.

Quando saí da UTI, havia nada mais nada menos do que 20 acompanhantes desse paciente, ávidos por informação e com um desejo quase canibal de comer meu pobre fígado. Eles queriam explicações, queriam respostas, queriam ver rapidamente uma melhora que eu não podia assegurar-lhes que chegaria um dia. Mais do isso, eles queriam entender o que ninguém havia lhes explicado.

Uma das acompanhantes, a mais indagadora de todas, anotava num papel todas as palavras que eu dizia. Eu disse TODAS AS PALAVRAS. E ainda fazia questão de tentar me colocar contra os outros médicos, além de me testar para ver se estávamos todos falando a verdade.

Mais uma vez me perguntei se todas essas pessoas não entendiam que alguém que tem 83 anos, um coração extremamente debilitado, a ponto de necessitar de um marcapasso, umA infecção pulmonar grave e uma insuficiência renal crônica agudizada que está numa Unidade de Terapia Intensiva para tratamento, é alguém com um estado geral muito grave e um prognóstico pra lá de sombrio, ou seja, alguém que até pode melhorar, mas que estatisticamente falando, as chances são muito pequenas, ~pra não dizer ínfimas.

Mais uma vez, tentei ser o mais imparcial possível e explicar novamente pra família todo o quadro do paciente e o que estávamos fazendo por ele.

Não sei se eles me compreenderam e muito menos se aceitaram a verdade dos fatos. Também não sei se eles também acham que não sou médica. O fato é que eu tentei. Isso não é a coisa mais reconfortante do mundo mas talvez um dia eles entendam que não somos perfeitos e, apesar de nos esforçarmos bastante, somos absolutamente impotentes diante da maioria das doenças que infelizmente fogem ao nosso controle e à nossa vontade.

Baci!

Para minha vovó

Fevereiro 16, 2008

Comigo brincaste, riste e choraste. Foste meu porto seguro e meu maior exemplo de coragem e força.

A mim dedicaste amor, provavelmente o maior amor que pode existir, sempre sem medidas apesar de conhecer melhor do que ninguém todos os meus defeitos.

Ao teu lado, eu fui feliz, mimada ao extremo, recebi os beijos mais carinhosos e provavelmente as maiores lições de vida.

A mim contaste tua vida, teus medos, teus sonhos, tuas desilusões e quantas vezes não quis ser igual a ti?

Ao meu lado estiveste em todas as minhas conquistas, em todas as minhas frustrações, em todas as minhas doenças, temendo por mim, querendo me proteger de tudo e de todos e eu, muitas vezes, sem entender o porquê de tanta proteção.

Contigo sempre pude contar, pra me relatar as novidades, pra torcer pelo meu sucesso, pra entender que eu não era exatamente o que desejavas como neta.

Contigo briguei, muitas vezes sem razão e de ti sempre esperei e obtive o perdão, a compreensão, apesar de sempre vir após a raiva momentânea.

A ti devo a lição, o afeto, o zelo, o carinho, a simplicidade de um abraço apertado, de um contar de dias afastadas, de um pudim de aniversário, de uma canção de ninar jamais esquecida, de uma oração na testa, de uma lágrima de preocupação.

A ti, vovó, eu devo o que sou e o que um dia serei. A ti eu devo o significado das palavras força, fé, família e doação.

Não há despedidas, porque o reencontro acontece todos os dias entre nós. Nas palavras, nos gestos, nas atitudes e até nos preconceitos.

Noventa e um anos é tempo demais? Talvez. Eu viveria mais novecentos e dez ao teu lado,ou até mesmo um único dia a mais, só para, mais uma vez, ouvir teus conselhos e, mais uma vez, dizer-te o quanto te amo.

Que um dia eu possa voltar a ser criança nos teus braços e eu possa ouvir, mais uma vez, aquela velha canção de ninar que diz que “muito em breve ó mãe querida lá no céu me encontrarás”…

Aniversário

Fevereiro 10, 2008

Hoje é aniversário do meu primo Fabricio.

É muito estranho “comemorar” o aniversário de alguém que não está mais estre nós, no mundo físico, mas não deixa de ser uma data extremamente especial por lembrarmos o dia em que AQUELA PESSOA ESPECIAL nasceu.

Apesar de ter certeza de que já falei nesse assunto em demasia e correr o risco de me tornar uma chata (sempre de plataformas, por favor), o assassinato do meu primo-irmão foi e ainda é, pra mim e pra toda a minha família, um verdadeiro divisor de águas.

Pra ser bem sucinta, aconteceu assim: Meu primo era promotor de Marapanim, uma cidade no interior do Pará, há cerca de 10 anos. A cidade é super pacata, tem um caranguejo maravilhoso, marujada (dança típica), o Círio de Nossa Senhora da Conceição e outras coisas legais. Lá, Fabricio era autoridade. Muito querido e super bem tratado.

Ele pediu que um tal advogado devolvesse um processo que ele mesmo (o advogado) estava envolvido por tentativa de homicídio e lesão corporal gravíssima, mas o tal advogado não queria devolver o processo ao fórum, como forma de tentar atrasar o julgamento. Fabricio solicitou providências à juíza que expediu um ofício (ou seja lá como se chama o documento que foi mandado) ao tal advogado numa quarta-feira.

Na sexta-feira, por volta de 8 e 9 da manhã, o tal advogado entrou na sala do meu primo, dentro do fórum de Marapanim e atirou 6 vezes nele. Fabricio não teve chance de defesa e morreu cerca de 2 a 3 minutos após, sendo que um dos tiros foi na nuca, quando ele já estava morto e caído no chão, como forma do assassino ter certeza de que ele não sobreviveria.

Falar do Fabricio é muito difícil pra mim. Ele sempre foi meu irmão em todos os sentidos e todos os dias. Ele puxava minhas orelhas por todos os motivos do mundo, desde coisas banais como eu ter esquecido de tampar a garrafa de água, até coisas graves como moral, amizades, romances e etc.

Ele me apoiou durante toda a faculdade, teve milhões de medos por mim e tentava me proteger de absolutamente tudo. A coisa mais comum do mundo era ele chegar na sua casa, num dos finais de semana em que eu ficava por lá e gritar “Cadê minhas meninas???” ou fazer comentário do tipo “Cabelo de mulher não tem cor, com exceção dos cabelos da minha irmã e da minha prima”.

Certa vez, uma namorada dele o acusou de tê-la traído e ele falou: “Meu bem, na minha vida só existem 03 mulheres – a minha mãe, a minha irmã e a minha prima”.

Ele tinha momentos de grosseria extrema comigo, formas exdrúxulas de me repreender, mas tinha a palavra de conforto, o ombro em que eu sempre soube que poderia me apoiar.

Falar do Fabricio no dia do se aniversário é lembrar de festa, muitas festas sempre.

Meu primo sempre foi festeiro, sempre teve muitos amigos, sempre gostou de reunir todos que ele amava (e ama) ao seu redor.

Acho que a lembrança mais antiga que tenho dele é do aniversário dele de 15 anos, numa pizzaria. Eu tinha 04. Claro que são poucas lembranças de fato. O que eu acho que é lembrança, pode ser só fruto da minha imaginação pelas fotos que vi mais tarde, mas eu acho que me lembro da pizzaria e de todas aquelas crianças e adolescentes reunidos comendo horrores de pizza 🙂

Houve aniversários do Fabricio em que ele fez churrascadas memoráveis, com direito a mais de 10 horas de festa. Houve aniversários em que comemoramos na casa dos meus tios com muita comida e bebida e que no dia seguinte nos matávamos de comer os RO (restos de ontem) e abríamos os presentes, comentávamos as situações e os convidados.

Houve também aniversários em que éramos só nós, só a família, só um bolo e todo o amor do mundo. Tio Reynaldo, tia Aurea, Vanessa, Fabricio, Vovó e eu. O resto da família chegava e depois víamos televisão ou jogávamos bridge, autorama, xadrez, dama.

Saudade dói e muito mas o amor que existe entre nós, jamais terá fim. Hoje eu tenho plena certeza disso.

Abaixo segue o texto que escrevi pro meu primo e li na missa de 01 ano de seu falecimento. Minha tia fez questão de publicá-lo no jornal hoje, dia do seu aniversário de 39 anos.

“Após um ano da nossa brusca e prematura separação, os ânimos vão se acalmando, a revolta vai nos deixando e a mágoa dói mais fundo. A tua ausência se manifesta diariamente nas coisas e situações mais ínfimas às mais importantes.

Impossível não pensar em tudo que poderia ter sido e não é. Em tudo que poderíamos ter dito e não dissemos. Em tudo, absolutamente tudo, que poderíamos ter vivido e não nos foi permitido.

Nas atividades cotidianas, quando displicentemente tentamos levar uma vida o mais próximo possível do normal, subitamente nos damos conta da grandiosidade da tragédia que se abateu sobre nós e te levou.

Quantas vezes me ligarias pra tirar alguma dúvida médica, perguntar sobre um remédio ou sobre um especialista?

Quantas vezes almoçaríamos juntos na casa de teus pais e tu contarias as fofocas, as novidades, o carro novo, a viagem de férias, os preparativos para o casamento?

Qual o sabor da pizza que pediríamos pra que tu comesses ao retornar do futebol de sábado e nos culpar por termos comido até o último pedaço, quando na verdade tinha comido tudo menos o último pedaço?

De quantas festas participaríamos na tua casa com tantos amigos e pessoas queridas?Quantas pessoas encontraríamos na rua e comentaríamos depois? Quantas pessoas conhecidas tuas encontrei nesse ano e simplesmente não achei qualquer palavra pra dizer diante da tua falta?

Quantas vezes perguntarias sobre a grafia de alguma palavra ou me contarias sobre o restaurante novo, a boate da moda?

Que vestido eu usaria no teu casamento?

Ficarias feliz com o término da minha residência? E os novos rumos na  minha carreira, aprovarias?

Quantas vezes me criticarias como forma de mostrar como te importavas comigo?

Que presente eu te daria no Natal?

Viajaríamos juntos mais alguma vez?

Quantas vezes mais brigaríamos e nos xingaríamos pra depois passar qualquer raiva como se nada tivesse acontecido?

Quantas gargalhadas daríamos e quantas lágrimas eu poderia enxugar no teu ombro?

Nossos filhos seriam amigos?

Quantas vezes eu tive a oportunidade de te dizer o quanto te amo e não aproveitei? Será que tu tens a devida noção do quanto és amado até hoje?

Quantas vezes não acordei querendo crer que tudo não passava de um pesadelo e que aparecerias na porta da tua casa subitamente?

O que falar pra quem não te conheceu? Como explicar tua importância?

Como explicar que quem atirou em ti, matou também um pedaço de cada um de nós?

Como explicar que não és apenas um nome, uma foto, uma lembrança, uma história triste, uma premiação, um auditorio ou um centro de estudos?

Primo, hoje, após um ano sem ti, só posso dizer que a dor não cessa nem diminui. A revolta se torna inútil porque não faz com que os nossos corações se acalmem e até a raiva pela tua partida e pelo teu algoz não se aproxima da imensidão da tua falta.

Como conviver com a falta da tua voz, da tua eloqüência, da tua luz, da tua vida?

O que esperar e desejar e tentar acreditar além de justiça e reencontro?

Nesses 365 dias, só a esperança do nosso reencontro tem nos feito prosseguir, mas não há dúvidas que sem você meu primo, meu irmão, o mundo se tornou mais cinza, menos alegre e com muito menos sentido.

Fique em paz nos braços da vovó Pascoa, do vovô Eduardo e dos teus avós Consuelo e Alexandre e não se esqueça de preparar a festa mais bonita que puderes para o nosso reencontro, pois imploramos a Deus que ele permita que isso aconteça.

Qualquer dia, primo, a gente vai se encontrar.

Até breve ou até sempre, porque hoje te vejo como parte de mim e da minha consciência e sei que de onde estiveres, estarás sempre zelando por nós.” 

Consoada

Outubro 25, 2007

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

(Manuel Bandeira)

Recebi um texto que citava esse poema hoje. O texto falava sobre a preparação para a morte, a única certeza dessa vida.

Apesar da beleza do texto e do poema, impossível para mim concordar com ambos.

Ninguém se prepara para a morte. Ninguém se prepara para ficar longe de quem ama.

Nada está ou ficará no seu lugar.

Hoje fez 11 meses que minha vida deu uma guinada após a morte do meu primo.

E posso garantir que até hoje a mesa não está posta, a casa não está limpa e até hoje o campo não foi lavrado.

Saudades!