Famílias x Médicos

Março 20, 2008

Ainda não havia comentado aqui mas, apesar de já pensar em escrever num blog há alguns anos, o evento que me fez decidir definitivamente por escrevê-lo foi um plantão de UTI.

Na época (ano passado) eu havia passado por uma experiência no mínimo bizarra.

A visita dos familiares na UTI é variável, mas numa das UTIs em que trabalho só acontece durante a tarde e apenas 2 familiares podem entrar e se aproximar do paciente num curto período de 1 hora. Como vocês devem imaginar, apesar de ser um período curto, todas as atividades param nessa uma hora (medicações, banhos, exames, etc.) para que os parentes entrem. É óbvio que muitos barracos são feitos como esposas e amantes brigando pra entrar juntas ou uma primeiro que a outra e outras coisas bizarras…

Eu particularmente tenho o costume de me retirar do salão da UTI, permanecendo no meu repouso para que os familiares visitem de fato os pacientes e não fiquem apenas me perguntando as coisas.

Nesse dia em questão, uma paciente de uns 70 anos “resolveu” aspirar a secreção gástrica e fazer o que chamamos de broncoaspiração, isto é, o conteúdo do estômago foi parar nos pulmões e ela então parou de respirar. Simples assim. O problema maior foi que ela já tinha uma doença cardíaca grave e já tinha tido “derrames” (acidentes vasculares cerebrais). Aí, como desgraça pouca é bobagem, ela evoluiu com uma parada cardíaca bem na frente da filha e de outros acompanhantes dos outros pacientes, a visita foi interrompida abruptamente e as manobras de ressuscitação foram iniciadas.

É necessário explicar que dificilmente uma reanimação cardiopulmonar tem sucesso se o coração já tiver uma doença prévia importante, porque é necessário um esforço tremendo pra que ele volte a funcionar e, se ele já tiver uma doença grave anteriormente, todo o esforço que empregamos acaba se tornando inútil. Foram mais de 30 minutos de reanimação e nada.

Após isso, o pior momento é explicar pra família que os esforços possíveis e necessários foram feitos mas que, infelizmente, o paciente não reagiu e foi a óbito.

Nesse dia, não foi a parada que me chocou, ou o momento e a forma como aconteceu, tampouco o fato da paciente não ter voltado, já que ela já tinha várias doenças prévias (comorbidades), mas as palavras da filha dela quando recebeu a notícia.

A filha da paciente não apenas questionou minhas condutas, como questionou inclusive minha formação médica. Gritou que eu não era médica coisa nenhuma e que queria falar com um determinado médico que também trabalha nessa UTI.

Controlei todos os meus impulsos pelos xingamentos e tentei me colocar no lugar dela, que estava visitando a mãe e a viu broncoaspirar na sua frente e morrer alguns minutos depois. Expliquei mais uma vez o que havia acontecido e me coloquei a sua disposição para quaisquer outros exclarecimentos que se tornassem necessários.

Nesse dia, pensei em muitas coisas, como de praxe.

Meus colegas médicos diriam que é impossível que alguém instruído como ela é, não compreendesse que uma paciente que já tinha tido 02 derrames prévios, um coração doente há anos e uma infecção respiratória grave que a fez ser transferida para a UTI, era uma paciente grave que poderia ir a óbito a qualquer momento e que todos os nossos esforços poderiam ser inúteis frente a isso.

Mas nesse dia e nesse momento, eu percebi que não. As pessoas, instruídas ou não, negam a verdade para si mesmas e ainda há colegas médicos que contribuem com isto ao não explicarem todos os fatos tim-tim por tim-tim.

Ontem, novamente durante um plantão de UTI, fiz mais uma vez todos esses questionamentos.

Um paciente de 83 anos com uma doença cardíaca grave (“coração grande” e arritmia – para os médicos, miocardiopatia dilatada com BAVT) estava internado no Hospital para ser submetido a um implante de marcapasso. Durante a internação, ele apresentou um quadro respiratório infeccioso, com posterior piora da função renal (já que como ele tinha várias doenças prévias e idade avançada, os rins já estavam lesados mas não a ponto de estarem “paralisados” como dizem).

Pelas evoluções dos outros colegas médicos, ele apresentou um evento agudo de desorientação (“não falava coisa com coisa”, “não reconhecia os parentes”) e foi pensado em várias hipóteses, como num “derrame” (AVCI) ou até mesmo num distúrbio metabólico (infecção, insuficiência renal crônica agudizada, hipoglicemia), isto é, algo que estivesse fazendo com que o organismo dele deixasse de funcionar adequadamente, digamos assim.

O fato é que o paciente foi transferido da enfermaria para a UTI e estava apresentando um quadro ainda mais grave, já que tanto os rins, quanto a infecção respiratória haviam piorado e ao invés de ele acordar e voltar a falar e reconhecer as pessoas, ele estava o tempo todo sonolento (rebaixamento do nível de consciência). O implante do marcapasso estava suspenso, para que o estado geral do paciente melhorasse e este pudesse então ser submetido a uma intervenção cirúrgica, ou não.

Após a visita (sempre ela), o médico do plantão da UTI chama os familiares para falar sobre os pacientes e explicar a situação em que se encontram, que tipo de tratamento foi instituído e o que estamos aguardando.

Quando saí da UTI, havia nada mais nada menos do que 20 acompanhantes desse paciente, ávidos por informação e com um desejo quase canibal de comer meu pobre fígado. Eles queriam explicações, queriam respostas, queriam ver rapidamente uma melhora que eu não podia assegurar-lhes que chegaria um dia. Mais do isso, eles queriam entender o que ninguém havia lhes explicado.

Uma das acompanhantes, a mais indagadora de todas, anotava num papel todas as palavras que eu dizia. Eu disse TODAS AS PALAVRAS. E ainda fazia questão de tentar me colocar contra os outros médicos, além de me testar para ver se estávamos todos falando a verdade.

Mais uma vez me perguntei se todas essas pessoas não entendiam que alguém que tem 83 anos, um coração extremamente debilitado, a ponto de necessitar de um marcapasso, umA infecção pulmonar grave e uma insuficiência renal crônica agudizada que está numa Unidade de Terapia Intensiva para tratamento, é alguém com um estado geral muito grave e um prognóstico pra lá de sombrio, ou seja, alguém que até pode melhorar, mas que estatisticamente falando, as chances são muito pequenas, ~pra não dizer ínfimas.

Mais uma vez, tentei ser o mais imparcial possível e explicar novamente pra família todo o quadro do paciente e o que estávamos fazendo por ele.

Não sei se eles me compreenderam e muito menos se aceitaram a verdade dos fatos. Também não sei se eles também acham que não sou médica. O fato é que eu tentei. Isso não é a coisa mais reconfortante do mundo mas talvez um dia eles entendam que não somos perfeitos e, apesar de nos esforçarmos bastante, somos absolutamente impotentes diante da maioria das doenças que infelizmente fogem ao nosso controle e à nossa vontade.

Baci!

Para minha vovó

Fevereiro 16, 2008

Comigo brincaste, riste e choraste. Foste meu porto seguro e meu maior exemplo de coragem e força.

A mim dedicaste amor, provavelmente o maior amor que pode existir, sempre sem medidas apesar de conhecer melhor do que ninguém todos os meus defeitos.

Ao teu lado, eu fui feliz, mimada ao extremo, recebi os beijos mais carinhosos e provavelmente as maiores lições de vida.

A mim contaste tua vida, teus medos, teus sonhos, tuas desilusões e quantas vezes não quis ser igual a ti?

Ao meu lado estiveste em todas as minhas conquistas, em todas as minhas frustrações, em todas as minhas doenças, temendo por mim, querendo me proteger de tudo e de todos e eu, muitas vezes, sem entender o porquê de tanta proteção.

Contigo sempre pude contar, pra me relatar as novidades, pra torcer pelo meu sucesso, pra entender que eu não era exatamente o que desejavas como neta.

Contigo briguei, muitas vezes sem razão e de ti sempre esperei e obtive o perdão, a compreensão, apesar de sempre vir após a raiva momentânea.

A ti devo a lição, o afeto, o zelo, o carinho, a simplicidade de um abraço apertado, de um contar de dias afastadas, de um pudim de aniversário, de uma canção de ninar jamais esquecida, de uma oração na testa, de uma lágrima de preocupação.

A ti, vovó, eu devo o que sou e o que um dia serei. A ti eu devo o significado das palavras força, fé, família e doação.

Não há despedidas, porque o reencontro acontece todos os dias entre nós. Nas palavras, nos gestos, nas atitudes e até nos preconceitos.

Noventa e um anos é tempo demais? Talvez. Eu viveria mais novecentos e dez ao teu lado,ou até mesmo um único dia a mais, só para, mais uma vez, ouvir teus conselhos e, mais uma vez, dizer-te o quanto te amo.

Que um dia eu possa voltar a ser criança nos teus braços e eu possa ouvir, mais uma vez, aquela velha canção de ninar que diz que “muito em breve ó mãe querida lá no céu me encontrarás”…

Acredito que qualquer pessoa que tenha lido as abobrinhas que escrevo neste Blog já percebeu o que nem eu mesma já havia percebido: Sou uma otimista incorrigível!

Isso mesmo. Pronto, falei.

E mesmo que eu não seja otimista do tipo que acha que tudo está bom, eu sempre acho que tudo pode melhorar e que não há coisa ruim que não possa piorar, isto significa que mesmo que algo esteja muito ruim, acredito que poderia estar pior e isso me conforta.

Ah! Eu acredito também em “Laws of attraction”, pensamento positivo e todas as outras coisas que minha mãe, uma verdadeira Poliana, fez o favor de me ensinar ao longo dos anos.

Não comentei aqui mas mudei de apartamento na semana que passou. Fui pra um maior, mais espaçoso, mais organizado, mobiliado, melhor localizado e muito muito mais bonito.

O que era pra ter sido a melhor mudança da minha vida quase se trasforma no pior dos meus pesadelos.

É assim: O apartamento é quase todinho mobiliado, mas eu precisava comprar um ar condicionado (artigo de primeiríssima necessidade pra qualquer Paraoara) e uma cama (artigo de zeríssima necessidade para qualquer pessoa que se preze)

Descobri da pior forma possível que sou a mais entulheira das pessoas. Eu passei exatamente 1 ano morando num apartamento-apertamento e consegui reunir mais bregueços do que muitas famílias juntas. Conclusão??? Minha mudança que deveria ter consumido apenas uns dois dias, tornou-se uma aventura sem precedentes e ainda não acabou!

Como tenho até o dia 31 pra sair do antigo apertamento, decidi me mudar aos poucos, mas quando a cama e o ar condicionado chegaram, achei que seria mais prudente passar a dormir no apartamento novo, por todos os motivos listados acima.

No exato dia em qua a cama chegou, percebi que umas 08 lajotas justamente do meu quarto resolveram brigar entre elas e formar um “espaço morto”, o que fez com que elas se quebrassem sem nenhum motivo aparente. Dormi na minha cama box liiiiiiiiiiiiiiiiiiinda de casal (lindas ambas 🙂 – a cama e eu), mas percebi durante a noite que o ar condicionado digamos que servisse de circulador de ar (????????). Não bastando isso, percebi no dia seguinte, ao demorar horrores para acordar do meu sono de princesa (cof! cof!) que há uma “certa umidade” no chão do meu quarto.

Ok. Vida que segue. Passei o dia todo trabalhando e quando volto ao meu novo doce lar para dormir, o ar condicionado continua “circulando” e, pior, durante uma chuva torrencial, noto ainda que chove dentro do meu quarto. Isso mesmo!!!! CHOVE DENTRO DO MEU QUARTO.

Mas o sono foi maior. O meu sono sempre é maior do que qualquer coisa.

Quando acordei no dia seguinte, ao pisar  no chão já com algumas lajotas a menos, noto UMA POÇA D’ÁGUA. Isso mesmo. Uma poça d’água lindamente conjugada à minha cama box novinha e liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinda. Fui até a outra janela do meu quarto e percebo UMA OUTRA POÇA D’ÁGUA só que desta vez conjugada aos meus sapatos!!!!!!!!!!!!!!!! Isso mesmo!!! Uma outra poça d’água conjugada aos meus sapatos!

Fui até a sala que é conjugada à cozinha e olho para a outra janela e duvido que vocês adivinhem o que achei lá!!! UMA NOVA POÇA D’ÁGUA conjugada às caixas dos meus livros.

Não sei se foi o sono, o otimismo ou uma loucura repentina. Só para explicar o quanto sou apaixonada por livros, vale contar que meu Neurologista certa vez perdeu quase todos os seus livros porque na sua clínica houve um vazamento do cano da Ressonância Magnética que, não por acaso, passava bem em cima do seu consultório e todos os livros, eu disse TODOS OS LIVROS dele que estavam lindamente expostos nas prateleiras, ficaram estragados. Adivinhem o que eu fiz ao saber disso???? Chorei compulsivamente na frente dele. Graças a Deus ele não me mandou direto para o Psiquiatra.

O fato é que ao perceber que as poças conjugadas não tinham feito tanto estrago assim e tanto a minha cama box de casal (liiiiiiiiiiiiiinda) quanto meus sapatos e meus livros estavam intactos, eu não dei escândalo nenhum e só chamei o dono do imóvel pra que resolvesse o problema.

Percebam que o imóvel que era maior, mais espaçoso, mais organizado, mobiliado, melhor localizado e muito muito mais bonito se tornou um imóvel com lajotas futuantes, ar condicionado que só ventila e que chove dentro!!!

Na sexta-feira, entreguei a chave para o dono resolver as broncas todas com uma calma que surpreendeu a mim mesma e fui liiiiiiiiiinda dormir na casa da Lucélia, minha amiga e companheira de almoços animados 🙂

Ao acordar, fui direto para o plantão de 24 horas. Sim, às vezes eu sou uma espécie de Jack Bauer e tenho apenas 24 horas para resolver todas as broncas do mundo!

Quando cheguei ao plantão, compreendi porque depois da tempestade vem a bonança (para os otimistas, é claro).

Meu dia começou com um scrap no Orkut me informando que alguém totalmente desconhecido por mim, chegou a este Blog por meios totalmente desconhecidos por mim, leu o que escrevo e se identificou!! Isso foi algo maravilhoso e sem precedentes.

Depois disso, falei com minha amiga Kiara sobre meus projetos para Abril e descobri que estão todos muito bem encaminhados.

Mais tarde, fui elogiada por um paciente que eu já havia atendido quase 01 ano atrás e ele se mostrou muito feliz por eu tê-lo atendido novamente.

Saí do plantão por cerca de 5 minutos para comprar o meu almoço num restaurante self-service de perto do Hospital (deixando outro médico no meu lugar, que fique bem claro) e fui cumprimentada desde o porteiro do restaurante até o caixa.

Tive a felicidade de confirmar um diagnóstico  difícil.

Kiara me elogiou como escritora (acho que blogueira seria mais adequado).

Recebi a notícia de que meu amigo está completamente apaixonado meeeeeeeeeeeesmo e dei  o maior apoio.

Ouvi de um amigo meu que sou nova demais e bonita demais  (Cof! Cof!) pra deixar de curtir minha vida

Enfim… Tantas coisas boas aconteceram hoje que chego a ficar com medo.

Depois da tempestade, vem a bonança? Ótimo.

Mas e se depois da bonança a tempestade voltar?

O que será que encontrarei no meu apartamento novo amanhã??? Caos novamente ou a ordem de volta ao Santo Lar de Renata?

Aguardem cenas dos próximos capítulos.

No próximo episódio… Renata terá apenas 24 horas para… Dormir e sonhar que nós moramos no melhor dos mundos possíveis (Cândido ou O Otimismo)

Baci!

O Mais é Nada

Janeiro 6, 2008

Navegue, descubra tesouros, mas não os tire do fundo do mar, o lugar deles é lá.
Admire a lua, sonhe com ela,  mas não queira trazê-la para a terra.
Curta o sol, se deixe acariciar por ele, mas lembre-se que o  seu calor é  para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe, elas só podem brilhar  no céu.
Não tente deter o vento, ele precisa correr por toda parte, ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não apare a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos,  não  pode molhar só o seu.
As lágrimas? Não as seque, elas precisam correr na minha, na sua, em todas as faces.
O sorriso! Esse você deve segurar, não deixe-o ir embora, agarre-o!
Quem você ama? Guarde dentro de um porta jóias, tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia que você possui, a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milênio é outro, se a idade aumenta;

conserve a vontade de viver, não se  chega à parte alguma sem ela.
Abra todas as janelas que encontrar e as portas também.
Persiga um sonho, mas não deixe ele viver sozinho.
Alimente sua alma com amor, cure suas feridas com carinho.
Descubra-se todos os dias, deixe-se levar pelas vontades, mas não enlouqueça por elas.

Procure, sempre procure o fim de uma história, seja ela qual  for.
Dê um sorriso para quem esqueceu como se faz isso.
Acelere seus pensamentos, mas não permita que eles te consumam.
Olhe para o lado, alguém precisa de você.
Abasteça seu coração de fé, não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus desejos e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo, só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.
Procure os seus caminhos, mas não magoe ninguém nessa  procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando  julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se  afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!
“Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada”.

(Fernando Pessoa)

 

O texto acima é referenciado como do Fernando Pessoa e eu confesso que o acho otimista demais para o poeta, mas quem sou eu pra discutir autoria de alguma coisa?

O fato é que, plagiando meu amigo Leonardo Aquino, “escrever em Blog é coisa de gente triste” e eu estava muito triste até ontem.

Hoje me muni da fé da minha mãe, aquela mesma que remove montanhas e percebi o quanto a minha vida é bela e gratificante. Se hoje estou triste é porque certamente ficaria mais triste mais tarde!

“Se não deu certo, é porque não é o final”

O mais, é nada!

Baci!

Balanço de Ano Velho

Dezembro 31, 2007

É inevitável, né?

Chega essa época do ano e a gente não se conforma se não fizer uma análise às vezes fantasiosa, às vezes nua e crua da realidade que nos cercou nos últimos doze meses. É imprescindível entrar no Novo Ano com o mínimo de mágoas possível e com o máximo de esperança possível.

Hoje fiquei pensando na vida, assim, como se não tivesse nada pra fazer e cheguei a algumas conclusões.

Meu amigo especial me disse que 2007 foi seu ano de purgatório e eu tenho que concordar. O ano que graças a Deus terminará amanhã foi, para mim, de fato, um ano de purgatório.

Digo isso porque 2006 foi certamente um ano inteiro de inferno astral. Como se não bastasse ter mudado de cidade de um dia pro outro, iniciei a Residência de Clínica Médica e me decepcionei muito com pessoas, serviços, Medicina, estudo, trabalho, etc etc etc. Passei por um período brabo de adaptação, larguei empregos em Belém, parei minhas aulas de francês, e, além de ter parido um apêndice, fiquei doente por quase 2 meses e quando já estava me recuperando em todos os sentidos, recebi a bomba da morte do Fabricio.

Estava prestes a mergulhar num processo depressivo muito intenso e importante e no penúltimo dia de 2006, sonhei com meu primo. Era um sonho tão real que não tenho como avaliar se de fato aconteceu mas foi o que me animou para sair de tudo em que eu estava e entrar 2007 da melhor forma que eu poderia naquele momento.

Em 2007, voltei pra academia mas logo em seguida perdi minha vovó. Entrei em estado de mal asmático seguido de pneumonia atípica e depois uma crise básica de ansiedade mas não posso deixar de comemorar as minhas vitórias.

Se em 2006 decidi qual subespecialidade seguir, em 2007 consolidei o desejo e a vontade. Viajei muito, aprendi mais ainda, dei continuidade à Residência, iniciei uma pós-graduação, mudei de casa, cortei o cabelo, fiz novos amigos e consolidei as velhas amizades.

Em 2007 eu me apaixonei, me decepcionei, mas preferi me iludir e continuar apaixonada porque isso siginifica estar viva.

Em 2007, saí meio que a contra-gosto da minha zona de conforto e estou agora mais frágil, porém mais sensível também.

Conheci minha irmã e tantas pessoas maravilhosas. Descobri que posso ainda mais.

Que 2008 seja o ano do paraíso!

Baci!

Cortar o Tempo

(Carlos Drummond de Andrade)

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.

Antes de explicar a vocês como funciona minha teoria, gostaria de explanar algumas situações.

Acredito de verdade em Deus. Acho de fato que Ele existe e que não é, como muitos dizem, invenção do cérebro humano.

Acredito também que a ciência é a forma mais coerente de buscá-Lo, já que simplesmente não achamos respostas para a maioria dos nossos questionamentos e, invariavelmente temos que nos contentar com nossa magnífica insignificância e admitir que “só sei que nada sei”.

Isso vale para todas as áreas científicas, mas não sei se por lidar com ela todos os dias, a Medicina me comove mais e me faz ter mais certeza da existência de Deus. Muito pela nossa ignorância médica tão propagada e mais ainda pela necessidade de acreditarmos em algo superior a nós que decide porque aquele paciente que tinha tudo pra responder bem ao tratamento não resistiu e porque aquele outro que não tinha quase nada de chance de sobreviver, está tendo mais uma oportunidade.

Não acredito em médicos ateus. Agnósticos, devem existir aos montes, mas ateus, não creio.

Quanto à religião, não costumo me enquadrar em nenhuma. Concordo com alguns ritos e discordo de outros.

Fui criada numa família católica que não come carne na sexta-feira santa mas que raramente vai à missa. Como estudei em colégio de freiras e devo muito da minha educação e de meus valores à educação cristã que lá recebi, costumo dizer que já fui a todas as missas possíveis para esta encarnação e que ainda tenho crédito.

Sim, eu acredito em reencarnação, vidas passadas, outros planetas e tals e o que poderia ter se tornado um problema a mais pra mim, tornou-se solução. Eu acredito em muitas coisas, mas acima de tudo acredito em Deus e na bondade humana.

Sim, eu acredito na bondade humana. Apesar de ter tido meu irmão assassinado covardemente, eu vejo todos os dias, demonstrações de afeto, de compaixão, de amor ao próximo. Estão todas lá. Basta querer enxergá-las.

Acredito em outras coisas também, mas isso fica pra um outro post.

Voltando ao assunto deste post, gostaria de explicar que tenho inúmeros motivos pra acreditar que “Deus protege os endividados”.

Quem me conhece sabe que sou uma perdulária (adoro esta palavra, mas não curto tanto assim sê-lo), isto é, gasto horrores de dinheiro em coisas muitas vezes supérfluas e não gosto de medir esforços pra presentear quem eu amo e muito menos pra me presentear.

O fato é que muitas vezes mesmo depois de formada e de ganhar um salário razoavelmente bom, já estive completamente sem dinheiro e sabe o que aconteceu em absolutamente todas as vezes??? O dinheiro surgiu como se brotado em árvores!

Sim, é um plantão que não esperava, uma dívida que fizeram comigo e que eu nem esperava mais receber, dinheiro atrasado de algum emprego que eu já nem me lembrava, processos judiciais ganhos há anos que caíram milagrosamente na minha conta, notas de dinheiro dentro de bolsos, camisas, jalecos ou até mesmo caídas dentro do meu carro!

Darei 2 exemplos.

Dia desses estava indo almoçar com a Lucélia. O salário que deveria ter sido pago no dia 05 ainda não estava na minha conta e já era dia 18! Não preciso nem dizer que já tinha estourado o pouco dinheiro que me restava pagando todas as contas pra não deixá-las atrasadas e não me sobrava um único tostão.

Lucélia, ao chegarmos à porta do restaurante, me pediu pra pagar seu almoço porque não tinha tirado dinheiro do banco. Momentos de desespero. Informo a ela que não tenho dinheiro algum pra almoço algum meu, que dirá o dela. Digo que passaremos então o dia sem almoçar e ela olha pro chão do meu carro e acha notas caídas que constituem uma soma suficiente para pagar um almoço mais que decente e ainda guardar pro jantar 😉

A segunda situação é mais antiga. Estava viajando e, mais uma vez, o salário estava atrasado. Sem dinheiro pra quase nada e ainda em terras desconhecidas, fui puxar meu saldo bancário, na esperança que o dinheiro que me deviam tivesse surgido repetinamente na minha conta corrente. Eis que vejo uma soma em dinheiro menor do que o meu salário, porém bastante significativa e suficiente pra atender a absolutamente todas as minhas necessidades mais urgentes. Não acreditando no que via e achando mais fácil crer num equívoco, puxei o extrato detalhado pra ver de onde aquilo havia surgido, como e porquê e qual não foi meu espanto ao perceber que aquele dinheiro nada mais era do que uma quantia esquecida por mim de um emprego mais antigo ainda e que apareceu na hora exata sem nem sequer pedir licença?

É por essas e por outras que não tenho medo de pequenas dívidas e muitas vezes sou intempestiva com o dinheiro.

Não que eu seja irresponsável. Pelo contrário. Mas às vezes arrisco um pouco mais do que uma pessoa sensata arriscaria justamente pela fé que me move. (eheheheheh)

Deus protege os endividados e tenho dito!

 Baci!