Missão

Dezembro 6, 2009

Há tempos não escrevo nada sobre Medicina neste Blog.

Aliás. Correção. Há tempos não escrevo neste Blog.

As desculpas são sempre as mesmas. Falta de tempo e muitas atividades. Nada disso é mentira mas acho que a verdade absoluta está numa falta de paciência para escrever.

Dia desses, me ocorreu uma situação interessante e eu percebi que já tenho algumas do mesmo tipo no currículo e não tinha jamais compartilhado com vocês.

Quando escrevo “vocês”, quero dizer eu mesma de forma clara e documentada, óbvio.  Mas uma certa retórica pode ser boa de vez em quando.

Aconteceu assim: estava na minha semana de Enfermaria, passando visita nos pacientes internados. Uma das pacientes, com diagnóstico de um tipo de câncer de ovário se internou para receber quimioterapia por 5 dias seguidos e era seu primeiro ciclo. Ela é paciente da minha chefe, então a mim não cabe fazer referências sobre muitas coisas, apenas tratar eventuais intercorrências ao longo dos dias e observar se está tudo indo bem.

O fato é que o câncer de ovário havia invadido também o peritônio (membrana que envolve os órgãos abdominais e que reveste a cavidade abdominal, formando um espaço com uma pequena quantidade de líquido para que as vísceras se movimentem sem que haja atrito) e o que é um espaço virtual fisiologicamente, se torna um espaço doente com grande produção de líquido. Muitas vezes, precisamos retirar esse líquido semanalmente ou até mais frequentemente, dependendo de condições clínicas e etc.

A paciente em questão já estava no terceiro dia de quimioterapia e o abdome havia praticamente duplicado de tamanho, devido ao líquido. Após examinar, prescrever e evoluir os demais pacientes, fui até o quarto dela para fazer o procedimento de retirada de líquido, como já devo ter feito mais de 100 vezes na minha vida médica.

O procedimento (Paracentese de alívio) é bastante simples. A gente limpa o abdome, aplica uma quantidade pequena de anestesia, espera um pouquinho e coloca no mesmo lugar que anestesiou, uma agulha mais grossa e conecta a um equipo, que é como se fosse um cano, pra poder retirar a quantidade de líquido que pretendemos.

Pra mim, Paracentese de alívio é mais simples ainda e não costuma demorar mais do que 10  minutos. O resto fica por conta da enfermagem e, como já disse, eu já devo ter feito isso mais de 100 vezes. Quando a gente faz algo de forma repetida, acaba não percebendo a dimensão do que estamos fazendo.

Realizei o procedimento, após explicar à paciente no que consistia e que ela sentiria algum incômodo devido à posição e às agulhas, mas nada muito importante e que o procedimento era bastante simples, o que de fato é.  Após conectar a agulha ao equipo, como já estava exausta, pedi à Enfermeira que observasse a quantidade de líquido que sairia enquanto iria almoçar.

Acredito que não passei mais de 20 minutos almoçando num local no mesmo andar do quarto da paciente. Retornei então para ver se estava tudo sob controle. Quando entrei novamente em seu quarto, encontrei a paciente aos prantos e quase me desesperei.

Achei que algo de muito grave estava se sucedendo, mas ao ver meu espanto, a paciente logo me explicou o ocorrido.

“Doutora, estou chorando de felicidade e alívio porque eu não tinha dor pelo câncer, mas aquela barriga não me deixava mais respirar, sentar ou comer. Muito obrigada, Doutora, por tornar possível que eu tenha uma vida normal de novo. Deus lhe abençoe”

Impossível não ficar comovida com algo assim. Eu costumo dizer que desde que a Oncologia entrou na minha vida, me tornei uma pessoa melhor, mais compreensiva e menos imediatista. Eu sempre digo aos meus amigos e às pessoas que me perguntam ora com um olhar de espanto, ora com um olhar de admiração, do porquê da minha escolha, que hoje eu dou valor a coisas que parecem mínimas, mas que são o essencial pra ser feliz e confortar.

Pra essa paciente, era poder respirar, comer e sentar. Pra outro pode ser passar um dia inteiro sem dor. Pra outro, pode ser comer um pedaço de pudim. Pra outro pode ser apenas estar consciente o suficiente pra se despedir da família.

Milagres acontecem todos os dias. Bastam que saibamos reconhecê-los.

Sou feliz por ser médica e poder ver situações como essas, todos os dias. Sou feliz por ser quase Oncologista e por poder contribuir, do meu jeito, com o meu trabalho, por um mundo melhor.

Mais uma vez, obrigada à minha mãe, por ter me feito Médica.

“Curar, poucos. Tratar, muitos. Confortar, todos”

Baci!

Uma resposta to “Missão”

  1. Anna Lúcia said

    Escreva mais! Anna Lúcia

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