Justiça

Novembro 13, 2009

Acho impossível descrever o alívio pelo dever cumprido. Muitas vezes eu sinto isso em relação à minha profissão. Às vezes, o resultado pode não sair tão a contento assim, mas faz bem pra consciência saber que tudo que podia ter sido feito, foi. Quando o resultado é favorável, a sensação é ainda melhor.

Hoje minha família e eu recebemos a sentença do assassino do meu primo Fabricio.

João Bosco Guimarães foi condenado por homicídio duplamente qualificado, por motivo fútil/ torpe e sem chance de defesa para a vítima além de ter disparado arma de fogo em local público. A pena foi sentenciada em mais de 32 anos de prisão em regime fechado e já sem direito a sela especial já que além da condenação, foi sumariamente expulso da OAB há cerca de uns 2 meses.

Foram 2 dias de intenso sofrimento por parte da minha família que não bastando reviver todo o desespero da morte do meu primo, precisou ouvir calada as maiores injúrias a respeito do meu primo. Coisas do tipo “que faltou inteligência à vítima”, “que o crime foi causado pelo comportamento da vítima”, “que a vítima julgava ser melhor do que os outros”, “que a vítima era arrogante e não cumprimentava nem dava bom dia pra ninguém”, “que a vítima se incomodava porque o réu participava dos amigos-ocultos  do fórum e declarou que enquanto ele fosse promotor, o réu jamais seria prefeito”

Quem conheceu meu primo sabe da ingenuidade extrema, da bondade, da generosidade que ele sempre teve. Qualquer um sabe que ele sempre lutou fervorosamente por suas convicções e sempre acreditou na Justiça.

Uma das coisas que mais me deixa aliviada é não apenas saber que o assassino covarde, cruel e invejoso que fez questão de citar que meu primo tinha “papai procurador, irmã juíza e primo promotor brabo de Salinas”, foi julgado como manda a lei, por júri popular e sem nenhum tipo de covardia ou cambalacho. Exatamente da forma como tenho certeza que meu primo procederia e da forma como sei que ele está aprovando.

Gostaria de dizer ao monstro que matou meu primo e um pedaço de cada um da minha família, que somos, graças a Deus, uma família estruturada, de gente que se ama e que faz de tudo para melhorar o mundo em que vivemos. Se ele quer ter inveja, terá que ter inveja de muito mais gente.

Dia desses encontrei meio sem querer uma música cantada e composta pelo Chico Buarque em homenagem à Zuzu Angel, que lutou por justiça por seu filho, brutalmente torturado na época da Ditadura Militar e gostaria de deixá-la aqui como homenagem à minha tia Aurea e à minha avó que morreu pouco após a morte do meu primo, mas que certamente está mais tranquila por saber que a Justiça foi feita.

 Angélica (Chico Buarque em homenagem à Zuzu Angel)

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez meu filho suspirar

Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar

Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar

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O Julgamento do Monstro

Novembro 11, 2009

Falar de um julgamento não sendo da área e sendo envolvida diretamente no caso pode soar leviano. Entretanto, tenho certeza de que nada que eu escrever aqui vai faltar com a verdade, mas precisava ser dito ou pelo menos me sinto melhor ao saber que está digitado e , de certa forma, documentado.

Meu primo-irmão foi assassinado há quase 3 anos. Fabricio Ramos Couto era Promotor de Justiça da Comarca de Marapanim (Município do interior do Pará). Lindo, inteligente, brilhante, bom filho, alegre, encantador, humano. Foi assassinado covardemente dentro da sua sala, em pleno exercício da profissão, numa manhã de sexta que eu preferiria que jamais tivesse acontecido.

Seu assassino não era um desconhecido, um ladrão que mata pra comer, um ignorante ou sequer um oligofrênico. Ele já conhecia seu assassino há mais de 10 anos e o covarde que não titubeou em atirar 6 vezes no meu primo a queima-roupa num ato premeditado há pelo menos 2 dias era nada mais nada menos que um advogado.

Li na imprensa que esse monstro não deveria ser chamado de advogado e sim de bandido com carteira da OAB, mas posso afirmar que como familiar, a denominação é o que menos importa. Na verdade, ao longo desses anos, eu sequer achei denominação pra ele.

Durante algum tempo, o antigo celular do meu primo ficou nas minhas mãos, pra que eu pudesse atender ligações e não passá-las para meus primos e tios que estavam em situação muito pior do que todos nós. Dentre os inúmeros contatos de familiares, amigos, pessoas queridas, estava também o telefone do monstro que o matou. Ironia, não?

À época, a declaração do monstro em questão foi: “Matei e não me arrependo. Eu escolhi ficar preso e ele morto. Porque de onde ele está, ele não sai mais e eu daqui a pouco estou livre”.

O nome do monstro é João Bosco Guimarães. Confesso que não me interessei por saber muito da vida dele, por auto-defesa, covardia ou por qualquer outra causa que algum psicólogo queira interpretar mas que eu não me interesso em discutir neste momento.

O julgamento foi adiado e protelado várias vezes. O réu, como era esperado, alegou “insanidade mental” e muito tempo foi perdido tentando provar a verdade da sanidade ou não. A autoria do crime não apenas não havia como ser discutida porque ele foi preso em flagrante como foi confessada e alardeada como apenas um cretino mau caráter poderia fazer. Apenas alguém mau em sua essência poderia se orgulhar de um crime tão bárbaro.

A discussão é: Como alguém pode advogar livremente durante anos até o dia 23 de novembro de 2006, circular, pagar contas, frequentar lugares públicos, bares, colégios, faculdades e etc. e ser considerado como normal e aí, no dia 24 de Novembro de 2006 se transformar em “louco”?

Como alguém pode ter uma pena abrandada por ser psicopata se todos os autores, psiquiatras e livros de psiquiatria forense confirmam que não há tratamento para a Psicopatia e o psicopata quando solto, invariavelmente volta a agir, com os mesmos requintes de crueldade de sempre?

Como pode haver defesa no sentido mais amplo da palavra pra alguém que mata, não mostra sentimento de culpa ou arrependimento e mesmo assim planeja circular livremente em liberdade enquanto meu primo está morto, como ele mesmo falou?

Como sequer cogitar doença mental e colocar um indivíduo desses no mesmo patamar de esquizofrênicos, oligofrênicos, alcóolatras? Quantos esquizofrênicos vocês conhecem que já mataram? Ou se mataram, quantos premeditaram o crime?

Amanhã será o dia de enfrentar tudo de novo. Será o dia de ficar frente a frente com o assassino do meu primo-irmão. Alguém com um poder tão destruidor que matou meu primo, e uma parte de cada um de nós e ainda foi o responsável pela morte da minha avó que morreu 2 meses depois por não aceitar que seu neto estivesse morto de forma tão brutal.

Que Deus ilumine os Jurados, os Promotores e o Juiz. Que a Justiça seja feita. Porque se a minha família ele já destruiu, que as outras ele não consiga atingir!