Aniversário

Fevereiro 10, 2008

Hoje é aniversário do meu primo Fabricio.

É muito estranho “comemorar” o aniversário de alguém que não está mais estre nós, no mundo físico, mas não deixa de ser uma data extremamente especial por lembrarmos o dia em que AQUELA PESSOA ESPECIAL nasceu.

Apesar de ter certeza de que já falei nesse assunto em demasia e correr o risco de me tornar uma chata (sempre de plataformas, por favor), o assassinato do meu primo-irmão foi e ainda é, pra mim e pra toda a minha família, um verdadeiro divisor de águas.

Pra ser bem sucinta, aconteceu assim: Meu primo era promotor de Marapanim, uma cidade no interior do Pará, há cerca de 10 anos. A cidade é super pacata, tem um caranguejo maravilhoso, marujada (dança típica), o Círio de Nossa Senhora da Conceição e outras coisas legais. Lá, Fabricio era autoridade. Muito querido e super bem tratado.

Ele pediu que um tal advogado devolvesse um processo que ele mesmo (o advogado) estava envolvido por tentativa de homicídio e lesão corporal gravíssima, mas o tal advogado não queria devolver o processo ao fórum, como forma de tentar atrasar o julgamento. Fabricio solicitou providências à juíza que expediu um ofício (ou seja lá como se chama o documento que foi mandado) ao tal advogado numa quarta-feira.

Na sexta-feira, por volta de 8 e 9 da manhã, o tal advogado entrou na sala do meu primo, dentro do fórum de Marapanim e atirou 6 vezes nele. Fabricio não teve chance de defesa e morreu cerca de 2 a 3 minutos após, sendo que um dos tiros foi na nuca, quando ele já estava morto e caído no chão, como forma do assassino ter certeza de que ele não sobreviveria.

Falar do Fabricio é muito difícil pra mim. Ele sempre foi meu irmão em todos os sentidos e todos os dias. Ele puxava minhas orelhas por todos os motivos do mundo, desde coisas banais como eu ter esquecido de tampar a garrafa de água, até coisas graves como moral, amizades, romances e etc.

Ele me apoiou durante toda a faculdade, teve milhões de medos por mim e tentava me proteger de absolutamente tudo. A coisa mais comum do mundo era ele chegar na sua casa, num dos finais de semana em que eu ficava por lá e gritar “Cadê minhas meninas???” ou fazer comentário do tipo “Cabelo de mulher não tem cor, com exceção dos cabelos da minha irmã e da minha prima”.

Certa vez, uma namorada dele o acusou de tê-la traído e ele falou: “Meu bem, na minha vida só existem 03 mulheres – a minha mãe, a minha irmã e a minha prima”.

Ele tinha momentos de grosseria extrema comigo, formas exdrúxulas de me repreender, mas tinha a palavra de conforto, o ombro em que eu sempre soube que poderia me apoiar.

Falar do Fabricio no dia do se aniversário é lembrar de festa, muitas festas sempre.

Meu primo sempre foi festeiro, sempre teve muitos amigos, sempre gostou de reunir todos que ele amava (e ama) ao seu redor.

Acho que a lembrança mais antiga que tenho dele é do aniversário dele de 15 anos, numa pizzaria. Eu tinha 04. Claro que são poucas lembranças de fato. O que eu acho que é lembrança, pode ser só fruto da minha imaginação pelas fotos que vi mais tarde, mas eu acho que me lembro da pizzaria e de todas aquelas crianças e adolescentes reunidos comendo horrores de pizza🙂

Houve aniversários do Fabricio em que ele fez churrascadas memoráveis, com direito a mais de 10 horas de festa. Houve aniversários em que comemoramos na casa dos meus tios com muita comida e bebida e que no dia seguinte nos matávamos de comer os RO (restos de ontem) e abríamos os presentes, comentávamos as situações e os convidados.

Houve também aniversários em que éramos só nós, só a família, só um bolo e todo o amor do mundo. Tio Reynaldo, tia Aurea, Vanessa, Fabricio, Vovó e eu. O resto da família chegava e depois víamos televisão ou jogávamos bridge, autorama, xadrez, dama.

Saudade dói e muito mas o amor que existe entre nós, jamais terá fim. Hoje eu tenho plena certeza disso.

Abaixo segue o texto que escrevi pro meu primo e li na missa de 01 ano de seu falecimento. Minha tia fez questão de publicá-lo no jornal hoje, dia do seu aniversário de 39 anos.

“Após um ano da nossa brusca e prematura separação, os ânimos vão se acalmando, a revolta vai nos deixando e a mágoa dói mais fundo. A tua ausência se manifesta diariamente nas coisas e situações mais ínfimas às mais importantes.

Impossível não pensar em tudo que poderia ter sido e não é. Em tudo que poderíamos ter dito e não dissemos. Em tudo, absolutamente tudo, que poderíamos ter vivido e não nos foi permitido.

Nas atividades cotidianas, quando displicentemente tentamos levar uma vida o mais próximo possível do normal, subitamente nos damos conta da grandiosidade da tragédia que se abateu sobre nós e te levou.

Quantas vezes me ligarias pra tirar alguma dúvida médica, perguntar sobre um remédio ou sobre um especialista?

Quantas vezes almoçaríamos juntos na casa de teus pais e tu contarias as fofocas, as novidades, o carro novo, a viagem de férias, os preparativos para o casamento?

Qual o sabor da pizza que pediríamos pra que tu comesses ao retornar do futebol de sábado e nos culpar por termos comido até o último pedaço, quando na verdade tinha comido tudo menos o último pedaço?

De quantas festas participaríamos na tua casa com tantos amigos e pessoas queridas?Quantas pessoas encontraríamos na rua e comentaríamos depois? Quantas pessoas conhecidas tuas encontrei nesse ano e simplesmente não achei qualquer palavra pra dizer diante da tua falta?

Quantas vezes perguntarias sobre a grafia de alguma palavra ou me contarias sobre o restaurante novo, a boate da moda?

Que vestido eu usaria no teu casamento?

Ficarias feliz com o término da minha residência? E os novos rumos na  minha carreira, aprovarias?

Quantas vezes me criticarias como forma de mostrar como te importavas comigo?

Que presente eu te daria no Natal?

Viajaríamos juntos mais alguma vez?

Quantas vezes mais brigaríamos e nos xingaríamos pra depois passar qualquer raiva como se nada tivesse acontecido?

Quantas gargalhadas daríamos e quantas lágrimas eu poderia enxugar no teu ombro?

Nossos filhos seriam amigos?

Quantas vezes eu tive a oportunidade de te dizer o quanto te amo e não aproveitei? Será que tu tens a devida noção do quanto és amado até hoje?

Quantas vezes não acordei querendo crer que tudo não passava de um pesadelo e que aparecerias na porta da tua casa subitamente?

O que falar pra quem não te conheceu? Como explicar tua importância?

Como explicar que quem atirou em ti, matou também um pedaço de cada um de nós?

Como explicar que não és apenas um nome, uma foto, uma lembrança, uma história triste, uma premiação, um auditorio ou um centro de estudos?

Primo, hoje, após um ano sem ti, só posso dizer que a dor não cessa nem diminui. A revolta se torna inútil porque não faz com que os nossos corações se acalmem e até a raiva pela tua partida e pelo teu algoz não se aproxima da imensidão da tua falta.

Como conviver com a falta da tua voz, da tua eloqüência, da tua luz, da tua vida?

O que esperar e desejar e tentar acreditar além de justiça e reencontro?

Nesses 365 dias, só a esperança do nosso reencontro tem nos feito prosseguir, mas não há dúvidas que sem você meu primo, meu irmão, o mundo se tornou mais cinza, menos alegre e com muito menos sentido.

Fique em paz nos braços da vovó Pascoa, do vovô Eduardo e dos teus avós Consuelo e Alexandre e não se esqueça de preparar a festa mais bonita que puderes para o nosso reencontro, pois imploramos a Deus que ele permita que isso aconteça.

Qualquer dia, primo, a gente vai se encontrar.

Até breve ou até sempre, porque hoje te vejo como parte de mim e da minha consciência e sei que de onde estiveres, estarás sempre zelando por nós.” 

Uma resposta to “Aniversário”

  1. Lucas said

    O Brasil não é lá um país muito civilizado, mas o caso da região norte é revoltante e isso me motiva mais ainda em “fugir” daqui. Moro no Pará [Belém] e não sei se aí em Macapá é mais ou menos civilizado. [só você pode me dizer :)]
    Beijos!

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