Poema em Linha Reta

Novembro 16, 2007

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

(Fernando Pessoa como Álvaro de Campos)

.

Vou contar uma quase infâmia pra vocês. Aliás, contar não é bem o termo. Vou confessar!

Até hoje tive coragem de fazer essa confissão a pouquíssimas pessoas e a Kiara é uma delas.

Lá vai. Eu não gosto de poesias. Pronto, falei.

Assim. Não é que eu as odeie, mas por exemplo, concretismo é uma coisa que não engulo. Palavras sem nexo menos ainda. Acho que sou objetiva demais para ler um poema. Na maioria das vezes ele não me mostra significado algum.

Mas aí acontecem umas coisas estranhas. A gente lê uma poesia e gostaria de tê-la escrito. Num momento súbito, o que o poeta escreveu faz todo o sentido pra gente e é isso que eu sinto quando leio esse Poema em Linha Reta, do Fernando Pessoa.

Confesso que acho estranho um único poeta escolher três pseudônimos diferentes pra escrever suas poesias. Às vezes me parece que ele não escreveu nada e que os três poetas que ele criou são na verdade espíritos que psicografam as poesias pra ele. Mas então ele me vem com uma poesia dessas, que diz absolutamente tudo que eu queria dizer e eu já não sei se ele escreveu, se psicografou ou se comprou pronto. O importante é que tá aí, é lindo e reflete o que eu sinto.

Essa poesia me faz pensar justamente nessa minha característica de não gostar de poesias de um modo geral, coisa quase inconfessável e na mania que as pessoas têm de tentar mostrar uma coisa que não são. Quantas pessoas vocês conhecem que diriam com todas as letras que não gostam de Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Florbela Espanca e tantos outros? Claro que eu também não sou 100% transparente todo o tempo e que a imagem de perfeição é o que se busca. Eu, na verdade busco não só a imagem mas a perfeição em si, mas tenho que admitir que estou longe disso léguas e léguas e léguas e isso me faz humana e me faz me identificar com o poema do Fernando Pessoa (desculpa, tá?). E eu até gosto de um montão de poesias dos citados, menos da Cecília Meireles que acho deprê demais.

Todas as pessoas são perfeitas, certinhas, cultas, pudicas e muito melhores do que eu, reles mortal que não gosta de poesias.

Acho na verdade que não gosto de todas as poesias. Sou uma chata de plataformas (galochas não estão mais na moda!!!) e só gosto do que me interessa e do que me faz feliz.

Às favas com a perfeição, ou melhor, com a falsa imagem de perfeição. Eu não gosto de poesias mas sou feliz e sou sincera. E se gostar de alguma poesia, eu digo que gostei e pronto!

Quando alcançarmos a perfeição moral, não vamos ter que fingir que somos perfeitos.

Beijos e boa viagem pra mim de novo. Depois eu conto minhas novas aventuras

2 Respostas to “Poema em Linha Reta”

  1. Minha querida amiga “vil”, nem todos gostam de morangos, mas não há problema algum com eles, nem com quem gosta e não gosta deles, são apenas gostos…
    O mais engraçado dessa coisa toda, é que as pessoas, com a “moda” do politicamente correto (e permitam-me dizer que eu acredito em quem seja verdadeiramente), dizer do que não gosta ainda vá lá. Agora o outro lado da hipocrisia tbm existe, dizer do que gosta é pesado também.
    Vá, diga que gosta de novela, de vinho doce, galeto com farofa e outros etcétras tbm… Todo mundo cai em cima.
    E não pára por ai: e se eu mudar de gosto (aqui só não vale pra quem é torcedor do flamengo, nem viado…), eu que não gostava de “house” passar a gostar de “sertanejo”, e disser issso. aí meu filho vc tá fodido! Tem que se esconder, e isso me lembra metálica na minha adolescencia como um mantra: “…sad but true…”!

  2. flavia said

    queria ver em algum lugar alguem que tenha pulblicado a paráfase Poema em Linha Reta-Alvaro de Campo.obrigado!

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