Do Círio

Outubro 14, 2007

Minha primeira lembrança do Círio é familiar. Almoço no domingo do Círio na casa da Vovó. Acho que eu tinha uns 3 anos e meus pais ainda eram casados. Fui festivamente apresentada ao Pato no Tucupi e desde então celebramos uma feliz amizade todos os anos.

Minha segunda lembrança do Círio é escolar. Em meio a letras mal escritas e garranchos, minha “tia” da escola falou que o Círio era o “Natal dos Paraenses” e eu achei aquilo uma balela muito grande. No Círio a gente nem ganha presente, pensei.

Minha terceira lembrança do Círio é novamente familiar. Meus primos e eu fazíamos parte de uma mesa anexa, já que a mesa da casa da Vovó não comportava todos nós. Era a “mesa das crianças” que durou muitos anos até mesmo quando nenhum de nós era mais criança.

Minha quarta lembrança do Círio é novamente escolar. Como estudava em um colégio católico, resolvi que participaria do Círio com o uniforme do Colégio, ajudando no carro dos milagres. Eu estava na oitava série e tinha uns 14 anos. Claro que minha última intenção era homenagear Nossa Senhora de Nazaré. A primeira, era ficar bem pertinho do garoto mais bonito do colégio que eu havia conhecido recentemente. O que era pra ter sido “farra”, acabou se tornando um momento intenso de reflexão. Tanto que passei a acompanhar o Círio todos os anos após isso, fosse para pedir ou, na maioria das vezes, para refletir e agradecer.

Minha quinta lembrança do Círio, por incrível que pareça, é de farra. Na véspera do Círio de 1999, inventei de ir a uma Rave na estrada, também conhecida como “Chácara do Kaveira”, em Benevides. O caminho até lá foi tranqüilo. O “detalhe” ficou por conta dos bons quilômetros que andei com meus pés e pernas enfiados na lama até chegar ao local onde a música estava. Não posso me esquecer também de que no trajeto, totalmente escuro, iluminado por pessoas vestidas de Druidas e com algumas tochas nas mãos, o grupo todo foi surpreendido por mulheres sujas de lama que gritavam desesperadamente e malucos com moto-serras na mão, ligadas. Eu, como toda a minha “experiência”, temia que um deles escorregasse na lama e deixasse a moto-serra “machucar” alguém, pra não dizer arrancar o braço de alguém. Na volta, quase de manhã e com o detalhe que nenhum Druida nos acompanhava com tocha alguma e o caminho estava, então, muito mais escuro do que na ida, após entrarmos no carro todos sujos de lama e com caras de malacos, um barulho estranho após passarmos por cima de um pedaço de pau (?)… Parada estratégica na Polícia Rodoviária para descobrirmos que a Lei de Murphy existe: o pneu traseiro havia simplesmente sido descapado. Espera cansativa pelo guincho para devolver o carro para Belém e em resumo, cheguei em casa toda suja de lama por volta das nove horas da manhã. Nesse dia tão hilário, quase não fiz nada além de dormir e comer o pouco Pato no Tucupi que caberia a mim, já que minha mãe estava firme no intuito de me dar um corretivo pelo susto que dei nela. Ela simplemsnte saiu para a procissão do Círio e sua filhinha ainda nem tinha chegado. Mas por incrível que pareça, o pior ainda estava por vir. À noite nesse mesmo dia, inventei de ir ao cinema com amigos e minha mãe não queria me deixar sair porque achava que eu estava usando drogas (ahuhuahuaahuauhhuahuahua). Enquanto eu esperava pela minha carona no pátio de casa, ouvi cochichos com minha avó sobre revistar as minhas coisas para ver se achavam algum indício de drogas. Quando entrei em casa gargalhando das intenções, acreditando que estavam brincando, as duas ficaram lívidas e foi assim que descobri que elas de fato achavam que eu estava consumindo dorgas ilícitas só porque tinha ido a uma festa na Floresta Encantada e voltado cheia de lama às nove horas da manhã. Ora, faça-me o favor!

Minha sexta lembrança do Círio é de amizade. Há quase nove anos, tenho a minha “melhor amiga” Thais e há pelo menos uns seis anos, assitimos o Círio do alto do Banco do Brasil da Presidente Vargas. Nesse ritual, incluímos muitas peripécias como madrugar, ir andando até o Ver-o-peso, participar da muvuca perto do Banco do Brasil, detonar o café da manhã dentro do Banco, milhões de fotos fantásticas, caminhadas após a passagem da Santa, além de almoço do Círio na casa da avó dela (Dona Odilla) com direito à melhor maniçoba do mundo e  uma mesa mais farta do que pra qualquer rei ou rainha. Não posso me esquecer também das longas horas de sono após o almoço, porque paraense que se preza, dorme horrores após o almoço do Círio, pro Pato e pra maniçoba fazerem a festa no estômago.

Minha sétima lembrança do Círio, talvez pelo sete ser um número cabalístico, é novamente familiar e extremamente querida. No Círio do ano passado, 2006, toda a minha família paraense se reuniu no Mangal das Garças após eu ter acompanhado o Círio do Banco do Brasil com a Thais e a Tia Susana. Naquela ocasião, meus primos e eu nos reunimos num dos cantos da longa mesa e recordamos a “mesa das crianças”, conversamos longamente e minha avó estava extremamente feliz por nos ver todos juntos novamente. Nesse dia, tirei a última foto do meu primo, fui convidada para ser madrinha do seu casamento e tive o último diálogo com ele. Quando a sua noiva pediu que eu os fotografasse naquele lugar, ele riu e brincou com ela, dizendo que não haveria porque tirar aquela foto naquele dia, já que ela morava em Belém e poderia ir até lá milhões de vezes. Ela disse que sim, mas que eu não estaria lá. Ele então falou “Olha, prima, ela tá te chamando de fotógrafa”. Mal sabíamos que eu estive no Mangal das Garças várias vezes depois disso, assim como a Thais, noiva dele. Só meu primo que não está presente.

Neste ano, não quis participar do Círio e inclusive resolvi voltar a Macapá na véspera, sem sequer assistir ao auto do Círio ou participar do Arrastão do Pavulagem ou da Chiquita. A Maniçoba e o Pato no Tucupi ficarão para uma outra oportunidade.

O Círio de Nazaré, porém, resume muito as coisas que eu mais amo na vida e que são de fato, as mais importantes: amor, família, fé, amizade, esperança, renovação, reflexão, paz.

Eu tenho muito orgulho de ser paraense e de fazer parte de uma festa tão linda, tão única como esta.

Desejo a todos os paraenses, um Feliz Círio, que hoje eu sei, é até mais importante para nós do que desejar um Feliz Natal.

Que as bênçãos de Nossa Senhora de Nazaré se perpetuem em nossas vidas e em nossos corações e que tenhamos nossas famílias abençoadas com paz, saúde e cada vez mais amor. Viva Nossa Senhora de Nazaré!

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