Dos Chefes

Setembro 1, 2007

Sim, quem tem chefe é índio. Eu tenho chefe e não sou índia (pelo menos não aparentemente).

Chefes são pessoas estranhas. Ouso até a dizer que chefes não se parecem muito com pessoas em determinadas situações, mas eu ainda acredito que eles sejam pessoas, ou no mínimo indivíduos. Pelo menos até eu encontrar uma nova categoria para eles.

Em menos de quatro anos de atividade laborativa, já tive todos os tipos de chefes possíveis. Costumo inclusive compará-los com professores. Se ter vários empregos é bom porque se ganha mais, há também a desvantagem de termos vários chefes. É como o castigo para o poligâmico: ter várias sogras!

Graças a Deus acho que a maioria dos meus chefes gosta de mim até hoje, mas os que me odeiam, me odeiam “di cum força”.

Não por acaso, meus chefes que gostam de mim são homens e os que não gostam são do sexo feminino. Sou mulher e adoro sê-lo, mas devo confessar que não há nada pior do que uma mulher chefiando outra. É sempre um disque-me-disse, uma invejinha chata, uma vontade de se sobressair mais, uma concorrência por bolsas. Aff!

Vamos do princípio. Meu primeiro chefe foi um dos médicos mais bem conceituados em Belém. Eu o conheci ainda no Barros Barreto (não, João de Barros Barreto não é meu parente) quando era interna (estudante do sexto ano de Medicina). Ele levava os alunos pra enfermaria onde eu ficava e eu acabava acompanhando os alunos e passando algumas coisas pra eles. Quando retornei de São Paulo, ele me encontrou no Hospital, perguntou o que eu estava fazendo da vida e me convidou pra trabalhar com ele, acompanhando os pacientes dele e tals. Foi maravilhoso, um super aprendizado. Cada passo da minha vida profissional, eu discutia com ele. Inicialmente, ele passava visita nos pacientes comigo e me dizia o que fazer. Com o tempo, ele foi me soltando até chegar no ponto em que eu avaliava os pacientes dele primeiro, dizia se havia necessidade ou não de internar e só depois que eu tomava todas as condutas, eu avisava pra ele que o paciente tinha sido internado ou não e o que eu tinha feito. Foi a primeira vez que vi alguém realmente confiar em mim como médica, profissional e não mais como estudante. Até hoje ele é meu médico e consultor particular. Se eu tiver piora da minha asma ou tiver algum paciente interessante, pode ter certeza de que vou ligar pra ele.

Minha segunda chefe é um misto de Barbie com Chuck. Ela é bonita, muito bem educada, mas não queira ver aquela mulher com raiva! Ela quase literalmente teve que me engolir… Ela não ia com a minha cara, deixava isso muito bem claro e às vezes eu tinha medo dela. Graças a Deus o tempo foi passando e eu fui descendo goela abaixo com uma certa dificuldade. Não posso dizer que hoje sejamos amigas, mas ela me atura e me respeita como profissional e isso é tudo que eu posso desejar de uma pesoa que antes me odiava, né? Acho até que estou no lucro… Pouco antes de pedir demissão e conversar com ela sobre o meu futuro, ela me disse com todas as letras que estaria de portas abertas pra me receber de volta assim que eu quisesse voltar. Vamos ver se isso é verdade, né?

Meu terceiro chefe foi um dos mais queridos. Na verdade ele foi quase um pai pra mim. Confiava em mim como ninguém, vivia me delegando funções e dando um jeito pra eu não ter que cumprir missões muito estafantes. Chegou a levar a filha dele um dia pra me conhecer. Ele queria que eu contasse pra ela como era o dia-a-dia de uma médica, apesar de ele ser médico também. Acho que ele pensava que seria melhor uma médica mais nova conversar com ela. Achei tudo muito lindo. Conversávamos todos os dias sobre trabalho e sobre minhas aspirações pro futuro. Ele adorava me ver estudando francês dentro da UTI e eu sei que sempre desejou tudo de melhor pra mim. Quando fui fazer um curso no Rio (também chamado de embuste pra ganhar umas férias) e passei super bem, liguei pra ele e percebi que ele ficou feliz como se ele mesmo tivesse feito o curso. Pouco antes de sair de lá, eu também perguntei se poderia voltar mais tarde, depois da residência, se quisesse, e ele disse que estaria esperando por mim. Recentemente liguei pra ele perguntando se poderia voltar e ele me deu todas as coordenadas pra que isso aconteça. Agora só depende de mim…

Minha quarta chefe é vice-coordenadora da minha Residência. Neurologista, solteirona, metódica, sem filhos. A combinação perfeita pra transformar minha vida num eterno inferno astral. Ela gosta de tudo por escrito e acha que o mundo é feito desse jeito. Jeitinho? Acordo?? Nada disso existe no mundinho dela. Logo após a morte do meu primo Fabricio, peguei o primeiro avião rumo a Belém e nem olhei pra trás. Acreditava que qualquer pessoa entenderia como é duro perder um irmão. Ela me ligou depois de alguns dias me escroteando e falou as maiores barbaridades. Eu comecei a gritar com ela e disse categoricamente que se ela quisesse me expulsar da Residência, que ficasse à vontade, mas apenas um pessoa que ama e é amada sabe o que é perder alguém que se ama. Ela se calou, não me ligou mais e eu voltei como se nada tivesse acontecido. Confesso que foi até difícil olhar pra cara dela depois disso. Voltei às minhas atividades normalmente e muitos meses depois, ela teve que mudar seus conceitos a meu respeito: fiz a prova dela de Neurologia e arrasei! Apesar de detestar Neurologia e principalmente detestar ir ao Ambulatório dela! E ela ainda teve que ouvir elogios a meu respeito do outro preceptor de Neurologia e até da Diretora Clínica do Hospital! Tudo num só dia! A vingança é muito açucarada!

Meu quinto chefe é um chefe mais estranho. Se considerarmos que eu trabalho como prestadora de serviços para uma espécie de cooperativa, na verdade eu tenho seis chefes. Mas esse em questão é o, digamos, administrador e manda-chuva da tal cooperativa, então posso considerá-lo como chefe. Ele é brincalhão quando está de bom humor e às vezes só se interessa em bater papinho. Foi muito importante porque me deu emprego num momento imprescindível e já até me convidou pra ser sócia!

Mas o verdadeiro motivo pra eu ter escrito tantas coisas sobre meus chefes e ex-chefes é o meu sexto chefe! Certo dia estava na minha casa em Belém, pensando sobre qual subespecialidade deveria seguir e uma verdadeira lâpada se iluminou. A Oncologia seria a possibilidade de exercitar tudo que aprendi e que ainda espero aprender na Clínica Médica, me proporcionaria um vasto conhecimento, além da convivência próxima com pacientes portadores de histórias fantásticas, em que cada dia de vida é uma bênção. Nunca tinha pensado em fazer Oncologia pelo sofrimento que automaticamente relacionamos com a especialidade, mas achei, naquele momento, que seria uma boa oprtunidade de tentar desenvolver isso.

Meu sexto chefe, Dr. Benjamim, até esse momento, era pra mim apenas o Oncologista do Hospital onde faço Residência. Já havíamos conversado algumas vezes mas nada de mais. Procurei por ele e lhe contei das minhas intenções Oncológicas. Imediatamente ele se abriu num sorriso e disse que eu poderia acompanhá-lo e que eu perceberia que a Oncologia era muito mais do que eu imaginava.

Foi assim que comecei a acompanhá-lo no Ambulatório e foi assim que a minha paixão pela Oncologia se revelou. Poucas semanas depois do início do meu Estágio, ele já falava do meu futuro como Oncologista e já me convidava para trabalhar com ele. Conversou com um das coordenadoras da Residência e falou super bem de mim, me convidou pra trabalhar com ele na Clínica dele e sempre comemora os feitos profissionais e científicos me ligando e contando as novidades.

Ele divide experências comigo e sempre aceita minhas opiniões. Ele foi maravilhoso na morte da minha avó porque eu estava no Ambulatório dele, atendendo e ele não apenas me acalmou, como chamou todas as pessoas envolvidas ou não no caso, ligou pro aeroporto, falou com a minha mãe. Enfim… Foi um verdadeiro amigo.

Hoje mesmo ele se revelou um super-chefe. Telefonei pra ele pedindo que ele intercedesse a mim junto à Super Nanny (chefe número 04) e ele disse: “Por você, eu falaria até com o Papa. Você tem crédito!”

Baci!

2 Respostas to “Dos Chefes”

  1. Tive cada chefe que não merece nenhum comentário. Só sei que o mundo é redondinho, redondinho…

  2. Kiara Guedes said

    Ei!!!! calma gatannnnnnnnnnnnnnn, eu sou chefa! E sou uma mega-ultralegal!!! haahhahahahahahaha. Sério! E porra (aqui eu tinha que soltar essa pq foi realmente demias!), sacanagem a comparação com sogra.
    Poxa, francamente!!!!!!!!!! rsrs

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