De como ganho a vida

Agosto 19, 2007

Perdão por destruir as esperanças de algum desavisado que tenha começado a ler este blog por este post, mas não vou contar aventuras e desventuras “Bebelísticas”.

Posso ser considerada uma criatura que ganha a vida à noite, mas trabalho também durante o dia. Aliás, trabalho bastante durante o dia, em vários lugares diferentes, dependendo de onde sou chamada.

Sou uma criatura errante: a médica plantonista!

Médicos plantonistas deveriam ser médicos com bastante experiência em Pronto Atendimento, isto é, médicos com cerca de 10 anos de formados, com Residência Médica e de preferência subespecialização em Medicina de Urgência. Deveriam.

Entretanto, na maioria das vezes, tratam-se médicos jovens, recém-formados e inexperientes que aceitam trabalhar em Pronto Atendimento porque e a primeira proposta que surge, já que ninguém quer passar muito tempo “na vida”. É como a diferença entre ser “do calçadão” e ser “fixe”. Não por acaso muitas vezes eu já disse que nenhuma “profissional do sexo” trabalha tantas horas seguidas por tão pouco.

A rotina de um plantão em um Hospital, quer seja público ou particular não difere muito e se resume a 90% dos pacientes (sim, é este o número aproximado)  que procuram o Pronto Atendimento (vulgo Ponto Socorro) para consultas ambulatoriais (aquelas consultas que podem esperar para serem marcadas).

Outros 8 a 9% são pacientes que deveriam ter procurado o Hospital até antes, mas ficaram protelando, passaram na farmácia e se consultaram com o balconista, melhoraram pouco ou não melhoraram nada aí procuram o médico de preferência depois das 2 horas da manhã e não nos resta muita coisa além de interná-los e/ou mantê-los em observação na Urgência.

Os outros 1 a 2% são o verdadeiro motivo de ter que haver Pronto Atendimento nos Hospitais. Tratam-se das Emergências, ou seja, situações em que temos que intervir imediatamente, ou o paciente morre. Sim, são só 2% dos casos.

Isto significa que cada vez que saio da minha confortável casinha para trabalhar à noite ou de dia, nos finais de semana e feriados, 98% dos casos poderiam ter esperado se não até o primeiro dia útil seguinte, pelo menos até o dia seguinte.

Mas naqueles 2% poderia estar minha mãe, um ente querido seu ou qualquer ser humano que merece cuidado, atenção e conhecimento médico suficiente pra resolver o seu problema.

Infelizmente não é o que acontece na maioria das vezes porque os médicos que estão nos Pronto Atendimentos freqüentemente não sabem identificar situações REALMENTE graves.

Costumo dizer que há no mínimo 4 coisas principais que detesto nos plantões:

1. Pacientes que se diagnosticam e chegam ao Hospital dizendo o que têm e que conduta querem que eu tome, no melhor estilo: “Quero fazer exame pra Dengue”. “Não dá pra fazer uma chapa!”. “A Sra não vai passar nem uma Benzetacil!”

2. Pacientes que não apenas se diagnosticam, como vão ao balcão da Farmácia. O balconista prescreve, diz por quantos dias a pessoa tem que tomar o remédio, até escreve na caixa ou num adesivo especialmente feito pra isso. Aí (adivinhem!), não adianta, o paciente não melhora e resolve então procurar o médico pra ele contornar a situação e tratar como deveria ser tratado. Enquanto isso, antibióticos são usados de forma errada, medicações com contra-indicações importantes são prescritas e não são avaliadas e diagnósticos errados são feitos!

3. Pacientes com doenças graves, crônico-degenerativas ou então subagudas que não procuram atendimento médico e não aceitam seus diagnósticos. Esse tipo de paciente é comum e também é conhecido como Tigrão. Não aceitam as condutas instituídas mas fazem questão de continuar indo aos Pronto Atendimentos, creio que na esperança de conhecerem algum médico insandecido que concorde com eles e de preferência diga que eles têm alguma doença muito grave ou, ao contrário, digam que a Insuficência Cardíaca, a Insuficência Renal, o Diabetes mellitus e etc são apenas delírios de mentes doentias que apenas por acaso, possuem registro no Conselho Regional de Medicina. Incluo aqui pacientes com distúrbios neurovegetativos que acham sempre que estão infartando ou morrendo e na verdade têm apenas transtorno de ansiedade (na maioria das vezes).

4. Detesto atender pacientes mal conduzidos e ser responsável pelos “deslizes” de “colegas” que não examinam os pacientes ou subestimam a história clínica, deixando todos os “pepinos” pra eu descascar. Incluo aqui vários “colegas” que fingem que fazem Medicina, mas já se tornaram charlatães há anos e ainda não sabem disso!

Mas acima de qualquer coisa que eu deteste, há pelo menos uma que vale por mais de um milhão de coisas detestáveis: a certeza do dever cumprido.

É maravilhoso quando diagnosticamos corretamente, conduzimos corretamente e o paciente melhora. A gratidão é variável e sinceramente acho que, apesar de muito bom quando acontece, torna-se secundária quando a gente encosta a cabeça no travesseiro e tem certeza de que fez tudo o que pôde e… Deu certo!

Muitas vezes, fazemos tudo que está ao nosso alcance e mesmo assim não dá certo. Mas isso está relacionado a muitas coisas que estão acima de nós e convém ser citadas em outra ocasião. Mesmo nesses casos, quando refletimos sobre o caso e percebemos que fizemos de tudo e não deu certo, apesar da sensação conhecida de impotência, a sensação de dever cumprido é pelo menos reconfortante.

Claro que os plantões são muito importantes, principalmente nos primeiros anos da carreira, já que precisamos nos sustentar, mas não conheço médico que não sonhe em abandonar essa vida e voltar a dormir todas as noites na sua humilde casinha. Um dia chegarei lá!

Como costumo dizer: “Quando eu for médica….”, isto é, quando eu deixar de ser uma mera médica residente, tiver terminado minha segunda residência e for uma especialista, se Deus quiser, podendo escolher o trabalho e etc, vou dormir todas as noites na minha cama box. Isto se chama ser “fixe”.

De  todos os plantões que até hoje tirei na minha vida de médica, guardo muitas lições de vida e de Medicina e a certeza de que sou muito feliz por ser médica. E isso importa muito mais do que milhões de noites mal dormidas!

Baci!

Uma resposta to “De como ganho a vida”

  1. É isso aí, ser feliz é o que interessa!😛

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