Da Inspiração

Agosto 15, 2007

Como disse anteriormente, a primeira vez em que a loucura de criar um blog me surgiu foi nos idos de 2004.

Era uma recém-formada muito besta. Como nunca havia saído da barra da saia da mamãe, da vovó e da titia (isso é o que eu chamo de muitas barras de saia!), não entendia nada da vida mas achava que sabia de tudo.

Como tudo na minha vida tinha sido muito fácil até então, tive que me defrontar com uma realidade nada fácil. Eu havia sonhado e planejado fazer residência de Clínica Médica em São Paulo, como qualquer recém-formado sonha. Algo como sair do interior e vencer na cidade grande. O único detalhe foi que eu só fiz 02 provas e não por acaso, as provas mais difíceis do Brasil, acreditando que se eu não passasse logo de primeira, poderia estudar mais um ano em São Paulo e fazer novas provas no ano seguinte.

Para tanto, recusei propostas de emprego, deixei de fazer concurso para médica do Ministério Público e recusei assim, bem esnobemente, as Residências em Belém. Meu plano era simples: sair de Belém, cidade atrasada e sem futuro para mim até então e ser extremamente feliz com meus brinquedos novos em São Paulo.

Eu imaginava uma vida fantástica. Trabalharia muito, aprenderia muuuuitas coisas novas, ganharia muito dinheiro e ainda poderia passear à beça pelas redondezas. Tudo perfeito se não fosse a nada simples realidade de que eu era, no fundo, uma ilustre desempregada.

Cheguei a São Paulo para ficar umas duas semanas na casa de uma amiga que dividia o apartamento com outras duas que também tinham amigas hospedadas. Entre o início do meu curso para as provas de residência e a saudade da minha casa e dos meus amigos, acredito que fiquei em depressão.

Fui obrigada a tomar muitas doses de um remédio nada prazeroso que se chama realidade. Eu tinha compromissos e não poderia fugir deles. Assim, meus cabelos começaram a cair desesperadamente e eu não parava de comer.

Comia de tudo: Giraffa’s, Habib’s, McDonald’s, Bob’s, lanchinho da esquina, sorvete no maior frio do mundo e tudo mais. Meus únicos momentos alegres eram na frente do computador, de preferência comendo alguma coisa.

Conversando com minha amiga Thais que até esse momento era minha maior referência em Belém já que nem minha mãe queria que eu tivesse ido morar em São Paulo, ela me sugeriu que eu escrevesse um blog, pra que pudéssemos matar a saudade e eu pudesse também contar minhas “aventuras” em terras alheias.

Foi então que eu conheci o “Blog mais legal da Amazônia Legal”. Tenho que admitir que o Pedrox foi minha companhia constante na “Terra da Garoa”. The NowhereLand era divertido e me fazia sair da realidade que eu estava enfrentando.

Cheguei a conversar com o Pedrox algumas vezes e até pedi alguns conselhos quanto a iniciar o blog com aquelas dúvidas eternas: do que falar? com que freqüência? quem vai ler? pra quê? e se eu escrever só uma vez e nunca mais?

O grande problema, acho eu hoje, é que eu não queria mais ouvir críticas, já que eu ouvia de todas as pessoas do mundo naquela época. Até do mendigo na estação de metrô.

Mas antes que eu pudesse transformar minha idéia em realidade, o colo da mamãe falou mais alto e resolvi voltar a Belém, uns 3 meses depois.

Já em Belém, minha vida começou a voltar aos eixos e pude aprender meio na marra o que deveria fazer e que caminho deveria seguir.

Falando assim, acho que qualquer pessoa vai me achar uma “loser”. De fato, eu mesma me senti loser por muito tempo, até amadurecer mais um pouco pra entender que se mudamos o rumo inicial não é porque somos fracos e sim muito mais fortes do que imaginávamos.

Durante uma viagem ao Rio de Janeiro, vi uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil sobre a América Pré-Colombiana. Lá, uma das coisas que mais me chamou a atenção é que os povos nômades eram considerados até pouco tempo atrás como mais atrasados porque não se fixavam em nenhum lugar. Porém, os historiadores achavam, na verdade, que eles eram mais evoluídos do que os demais justamente porque conseguiam adaptar-se a diferentes locais em pequenos intervalos de tempo.

Ou seja, o que para uma pessoa pode parecer atraso, pode se mostrar na verdade um avanço muito grande.

Hoje eu acho que minha estadia em São Paulo foi algo como “um passo pra trás para muito a frente”. Claro que hoje, com três anos e meio de formada, eu já poderia estar terminando o R4 de alguma coisa, provavelmente Geriatria, que era meu desejo inicial.

Atualmente, na verdade, estou terminando o R2 de Clínica Médica e tentando me preparar para fazer Oncologia, subespecialização que jamais teria sonhado fazer, mas que se mostrou apaixonante pra mim.

Nos dois anos em que trabalhei ao invés de fazer Residência, pude conhecer muitas pessoas, trabalhar com pessoas maravilhosas que me ensinaram muito, aprender a pagar minhas contas e decidir o rumo verdadeiro que quero dar à minha vida. Esses 2 anos também me serviram para uma adaptação melhor à Residência quando a comecei, além de terem me ajudado a me sustentar durante a Residência, já que como eu sou uma perdulária, não guardei quase nada de dinheiro, mas tive e ainda tenho (Graças a Deus!) muitas propostas de emprego justamente porque tenho experiência em grandes hospitais e não sou mais uma recém-formada tão besta.

Sei que não sou a melhor médica do mundo, mas me esforço para ser a melhor possível.

Desta forma, gostaria de agradecer ao Pedro, pela inspiração e pelo incentivo.

O “Blog mais legal da Amazônia Legal” não existe mais. Em seu lugar existe o “Blog do Pedrox“, mas a idéia permanece e eu acho que continua a ser o blog mais legal.

Baci!

4 Respostas to “Da Inspiração”

  1. Ãn… Foi o Pedro quem sugeriu a criação de um blog também? Hein? Hein?

  2. nossa, a thais quer crédito de tudo, heim? d-: ela falou de vc na linha 29, sua chata.

    mas é isso, rê. tem q saber qnd mudar e pq mudar. tirar um aprendizado de tudo e sempre erguer a cabeça. errar e acertar nos acompanham até o fim mesmo.

  3. Pedrox said

    Eu sou o convencido mais encabulado do mundo. Estou orgulhoso da minha “pupila”, que depois de anos resolveu fazer o tão esperado blog.

    Daria algumas dicas para incrementar… tipo, mudar para cor de rosa, colocar musiquinhas e gifs fofos e animados e se denominar como mariposinha furta-cor… Mas do jeito que tá é bem melhor.

    Beijo, nega que conseguiu me deixar ruborizado.

  4. leonardoaquino said

    Ei, Pedrox! Mariposinha furta-cor? Olha o veneno, rapá!

    E antes tarde do que nunca: seja bem vinda à blogosfera, Renata! Tenho certeza que com os pacientes bizarros dos teus mega-plantões, nunca vai faltar assunto pra escrever aqui… heheheh… Bjs!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: