Da Saudade

Agosto 14, 2007

Há exatos 6 meses recebi a segunda pior notícia da minha vida.

Segunda, se for considerar a ordem cronológica, já que aconteceu menos de 3 meses após a pior notícia da minha vida, mas também pode receber a “medalha de ouro” se considerar que a seqüência de fatos me remeteu à frase “atirar em cachorro morto”.

Lembro como se fosse hoje. Estava no ambulatório de Oncologia, atendendo uma paciente em seguimento de câncer de mama, 34 anos, mastectomizada, provavelmente abandonada pelo marido e com a esperança de viver no máximo mais uns 5 anos, a não ser que tenha muita sorte.

Recebi um telefonema que consideraria banal. Há dias em que recebo mais de 5 telefonemas da minha mãe. Atendi como atendi milhões de outros, mas dessa vez não era minha mãe que falava e sim uma de nossas vizinhas, já que nem minha mãe teria coragem de me dar tal notícia.

Minha avó, minha mãe, meu tudo, minha vida, meu exemplo, estava morta.

Simples assim. Foi dormir e não acordou.

Minha mãe bateu na porta de seu quarto e ela não se levantou.

Imediatamente, como num filme, todas as imagens da minha vida passaram na minha mente. E as lágrimas, o desespero e a sensação tão conhecida de impotência eram inevitáveis.

Após o estado de choque, os dias de revolta, as noites sem dormir, consegui me sentir abençoada por ter convivido com minha avó por 26 anos, por ter sido tão amada e não me contive ao pensar em tantos milhares de momentos bons.

Dois dias antes, em 11 de fevereiro, tivemos o almoço de domingo derradeiro. Um, entre tantos que ficarão guardados na minha memória até o fim dos meus dias.

Impossível pensar na minha vida sem pensar na minha avó. As canções de ninar, em especial uma que só ela contava pra me fazer dormir que durante muitos anos acreditei que ela mesma tivesse composto. Uma canção triste que fala sobre a perda do filho amado. Impossível não pensar na morte do meu primo, a pior notícia que recebi até hoje, menos de 3 meses antes da morte da minha avó.

Minha avó era uma mulher simples, que não conheceu o pai porque ele morreu quando ela ainda era bebê de colo, pouco depois da família ter vindo se instalar no Brasil com o boom da borracha, em busca de uma vida melhor. Era uma mulher lindíssima, à frente de seu tempo, tanto que só se casou aos 27 anos, numa época em que as mulheres se casavam aos 15!

Certa vez perguntei a minha avó como ela conheceu meu avô. A resposta foi simples e nada modesta: “Ele almoçava num restaurante perto da minha casa. Viu, gostou… Então nos casamos”

Após o casamento, passaram algum tempo em Manaus até resolverem se instalar em Belém. Tiveram 5 filhas e minha mãe é a terceira.

Até hoje não sei o porquê da preferência. Não sei se vovó me achava frágil demais ou se julgava que o casamento de meus pais não teria futuro, como de fato não teve. “Não é um bom filho então não será bom marido nem bom pai”. O fato é que vovó sempre foi alucinada por mim. Ela se dispunha a sair de sua casa todas as tardes, para cuidar de mim, brincar comigo e fazer todas as minhas vontades.

Após o divórcio dos meus pais, quando eu tinha 03 anos, tornou-se impossível que mamãe e eu não fôssemos morar na casa da vovó, já que mamãe precisava trabalhar e a vovó tinha tanto afeto por mim.

Eu tive a melhor infância do mundo.

Para a vovó, eu era a criança mais linda, mais inteligente e ainda me lembro das brincadeiras, do carinho, dos passeios de bicicleta, dos lanches com mamão e banana, das tardes no balé e na natação.

Vovó dizia que sofria ao pensar que não me veria adulta, formada e Deus sabe o quanto ela ficou feliz quando me viu de beca. Fiz questão que ela me visse e constatasse que eu era, enfim, médica, do jeito como ela sempre sonhou que eu fosse.

Durante a adolescência, ela implicava com meus namorados, temia pela minha castidade e certa vez, quando eu disse que queria ser engenheira civil, ela me disse que seria a maior vergonha da vida dela. Hoje acredito que se eu fosse astronauta, música, bailarina ou domadora de leões, ela se orgulharia de mim da mesma forma.

Sempre que eu viajava, ela me recebia com muitos beijos e um pudim feito só pra mim. Era a forma que ela tinha de me dizer que sentia minha falta.

No último almoço que tivemos juntas, dois dias antes de seu falecimento, após eu forçá-la a comer, ela se sentou na cadeira de balanço e me perguntou quando eu voltaria pra casa.

“No final do ano”, disse eu sem muita convicção;

Ela então, segurando o “terço” em uma das mãos, usou seus dedos com osteoartrose pra contar: “Março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro. Faltam 10 meses pra tu voltares pra casa”

Desde esse dia, senti a necessidade de voltar a Belém o mais rápido possível.

Viajei na madrugada desse mesmo dia e não me despedi dela pra não acordá-la.

Na verdade não me despedi dela porque nunca estaremos separadas. Onde quer que eu esteja, eu a levo comigo. Nas atitudes, nas manias, nos julgamentos, no caráter e até nos preconceitos.

Há seis meses sinto a falta dela, mas hoje tenho certeza de que voltaremos a nos encontrar.

    Para sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.


Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade
.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Uma resposta to “Da Saudade”

  1. Lindo o post, Res… Tenho certeza que sua avó iria se orgulhar ainda mais.🙂

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