Justiça

Novembro 13, 2009

Acho impossível descrever o alívio pelo dever cumprido. Muitas vezes eu sinto isso em relação à minha profissão. Às vezes, o resultado pode não sair tão a contento assim, mas faz bem pra consciência saber que tudo que podia ter sido feito, foi. Quando o resultado é favorável, a sensação é ainda melhor.

Hoje minha família e eu recebemos a sentença do assassino do meu primo Fabricio.

João Bosco Guimarães foi condenado por homicídio duplamente qualificado, por motivo fútil/ torpe e sem chance de defesa para a vítima além de ter disparado arma de fogo em local público. A pena foi sentenciada em mais de 32 anos de prisão em regime fechado e já sem direito a sela especial já que além da condenação, foi sumariamente expulso da OAB há cerca de uns 2 meses.

Foram 2 dias de intenso sofrimento por parte da minha família que não bastando reviver todo o desespero da morte do meu primo, precisou ouvir calada as maiores injúrias a respeito do meu primo. Coisas do tipo ”que faltou inteligência à vítima”, “que o crime foi causado pelo comportamento da vítima”, “que a vítima julgava ser melhor do que os outros”, “que a vítima era arrogante e não cumprimentava nem dava bom dia pra ninguém”, “que a vítima se incomodava porque o réu participava dos amigos-ocultos  do fórum e declarou que enquanto ele fosse promotor, o réu jamais seria prefeito”

Quem conheceu meu primo sabe da ingenuidade extrema, da bondade, da generosidade que ele sempre teve. Qualquer um sabe que ele sempre lutou fervorosamente por suas convicções e sempre acreditou na Justiça.

Uma das coisas que mais me deixa aliviada é não apenas saber que o assassino covarde, cruel e invejoso que fez questão de citar que meu primo tinha ”papai procurador, irmã juíza e primo promotor brabo de Salinas”, foi julgado como manda a lei, por júri popular e sem nenhum tipo de covardia ou cambalacho. Exatamente da forma como tenho certeza que meu primo procederia e da forma como sei que ele está aprovando.

Gostaria de dizer ao monstro que matou meu primo e um pedaço de cada um da minha família, que somos, graças a Deus, uma família estruturada, de gente que se ama e que faz de tudo para melhorar o mundo em que vivemos. Se ele quer ter inveja, terá que ter inveja de muito mais gente.

Dia desses encontrei meio sem querer uma música cantada e composta pelo Chico Buarque em homenagem à Zuzu Angel, que lutou por justiça por seu filho, brutalmente torturado na época da Ditadura Militar e gostaria de deixá-la aqui como homenagem à minha tia Aurea e à minha avó que morreu pouco após a morte do meu primo, mas que certamente está mais tranquila por saber que a Justiça foi feita.

 Angélica (Chico Buarque em homenagem à Zuzu Angel)

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez meu filho suspirar

Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar

Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar

O Julgamento do Monstro

Novembro 11, 2009

Falar de um julgamento não sendo da área e sendo envolvida diretamente no caso pode soar leviano. Entretanto, tenho certeza de que nada que eu escrever aqui vai faltar com a verdade, mas precisava ser dito ou pelo menos me sinto melhor ao saber que está digitado e , de certa forma, documentado.

Meu primo-irmão foi assassinado há quase 3 anos. Fabricio Ramos Couto era Promotor de Justiça da Comarca de Marapanim (Município do interior do Pará). Lindo, inteligente, brilhante, bom filho, alegre, encantador, humano. Foi assassinado covardemente dentro da sua sala, em pleno exercício da profissão, numa manhã de sexta que eu preferiria que jamais tivesse acontecido.

Seu assassino não era um desconhecido, um ladrão que mata pra comer, um ignorante ou sequer um oligofrênico. Ele já conhecia seu assassino há mais de 10 anos e o covarde que não titubeou em atirar 6 vezes no meu primo a queima-roupa num ato premeditado há pelo menos 2 dias era nada mais nada menos que um advogado.

Li na imprensa que esse monstro não deveria ser chamado de advogado e sim de bandido com carteira da OAB, mas posso afirmar que como familiar, a denominação é o que menos importa. Na verdade, ao longo desses anos, eu sequer achei denominação pra ele.

Durante algum tempo, o antigo celular do meu primo ficou nas minhas mãos, pra que eu pudesse atender ligações e não passá-las para meus primos e tios que estavam em situação muito pior do que todos nós. Dentre os inúmeros contatos de familiares, amigos, pessoas queridas, estava também o telefone do monstro que o matou. Ironia, não?

À época, a declaração do monstro em questão foi: “Matei e não me arrependo. Eu escolhi ficar preso e ele morto. Porque de onde ele está, ele não sai mais e eu daqui a pouco estou livre”.

O nome do monstro é João Bosco Guimarães. Confesso que não me interessei por saber muito da vida dele, por auto-defesa, covardia ou por qualquer outra causa que algum psicólogo queira interpretar mas que eu não me interesso em discutir neste momento.

O julgamento foi adiado e protelado várias vezes. O réu, como era esperado, alegou “insanidade mental” e muito tempo foi perdido tentando provar a verdade da sanidade ou não. A autoria do crime não apenas não havia como ser discutida porque ele foi preso em flagrante como foi confessada e alardeada como apenas um cretino mau caráter poderia fazer. Apenas alguém mau em sua essência poderia se orgulhar de um crime tão bárbaro.

A discussão é: Como alguém pode advogar livremente durante anos até o dia 23 de novembro de 2006, circular, pagar contas, frequentar lugares públicos, bares, colégios, faculdades e etc. e ser considerado como normal e aí, no dia 24 de Novembro de 2006 se transformar em “louco”?

Como alguém pode ter uma pena abrandada por ser psicopata se todos os autores, psiquiatras e livros de psiquiatria forense confirmam que não há tratamento para a Psicopatia e o psicopata quando solto, invariavelmente volta a agir, com os mesmos requintes de crueldade de sempre?

Como pode haver defesa no sentido mais amplo da palavra pra alguém que mata, não mostra sentimento de culpa ou arrependimento e mesmo assim planeja circular livremente em liberdade enquanto meu primo está morto, como ele mesmo falou?

Como sequer cogitar doença mental e colocar um indivíduo desses no mesmo patamar de esquizofrênicos, oligofrênicos, alcóolatras? Quantos esquizofrênicos vocês conhecem que já mataram? Ou se mataram, quantos premeditaram o crime?

Amanhã será o dia de enfrentar tudo de novo. Será o dia de ficar frente a frente com o assassino do meu primo-irmão. Alguém com um poder tão destruidor que matou meu primo, e uma parte de cada um de nós e ainda foi o responsável pela morte da minha avó que morreu 2 meses depois por não aceitar que seu neto estivesse morto de forma tão brutal.

Que Deus ilumine os Jurados, os Promotores e o Juiz. Que a Justiça seja feita. Porque se a minha família ele já destruiu, que as outras ele não consiga atingir!

 

 

Cinco Anos

Janeiro 8, 2009

Uma criança de cinco anos alcança uma nova fase, de uma independência muitas vezes incômoda aos pais. Passa a ver o mundo com outros olhos e de uma nova perspectiva.

Uma relação de cinco anos também atinge um novo patamar. Se antes, tudo era novidade, agora, de uma posição mais confortável, pode-se dizer que já se atingiu uma rotina e que as novidades e descobertas se tornam mais escassas mas os elos se tornam cada vez mais densos.

Uma saudade de cinco anos também não é a mesma saudade de um mês ou de um ano. Apesar de muitas vezes mais doída do que a saudade recente, é uma saudade sufocada, tranqüila e muitas vezes seletiva.

Hoje completo cinco anos de formada. Há cinco anos sou médica. Há cinco anos me casei com a Medicina e uso, sempre que posso, meu anel no anelar esquerdo que, como já disse anteriormente, significa o único casamento indissolúvel que conheço.

Hoje, ainda me sinto uma criança na Medicina. Uma criança de cinco anos, com muita coisa a aprender mas que já tem certa autonomia. Sinto que tenho um casamento extremamente feliz, apesar das turbulências, uma relação que está amadurecendo aos poucos, mas já com algumas rotinas. Sinto também uma saudade velada, dos tempos de faculdade, dos tempos do colégio, quando eu tinha tão menos responsabilidades.

Saudades dos meus colegas de turma, aqui representados pela gravura abaixo.

Parabéns pra mim!

Toda Sala Tem

Atualização

Setembro 17, 2008

Mais de três meses sem postar.
Na verdade, mais de três meses até mesmo sem abrir o link deste Blog.
Revolta? Ocupação? Aniversário? Preguiça?
Um misto de tudo e de nada.
Bora ver se daqui pra frente as coisas mudam…

Dever de Casa

Junho 14, 2008

É impressionante que eu tenha passado quase 3 meses sem escrever por aqui.

Deixei este blog às baratas e, acreditem, nesse período muitas coisas aconteceram por aqui do lado de fora.

Fui praticamente obrigada a voltar por causa do “dever de casa” que a Kiara me impôs 2 vezes. Sim, eu tive a cara-de-pau de não fazer o dever de casa pela primeira vez e ela, simplesmente, mandou o dever de casa de novo, como uma espécie de punição pela mal-criação.

Confesso que a tarefa me assustou a princípio. Como assim, definir as 08 coisas que quero fazer antes de morrer??? São tantas coisas, tantos clichês, tantos projetos e tantas coisas bizarras…

Mas vamos lá. Ao trabalho, então! Porque eu já deveria ter aprendido que adiar tarefas, não faz com que elas deixem de existir, como num passe de mágica!

E os comandos são:
1 – A pessoa selecionada, deve fazer uma lista, com oito coisas que gostaria de fazer antes de morrer.

2 – É necessário que se faça uma postagem relacionando estas oito coisas, não importando o que seja, é necessário que a pessoa explique as regras do jogo.

3 – Ao finalizar, devemos convidar oito parceiros de blogs.

4 – E finalmente, deixar se possível um comentário para que nos convidou, e informar o convidado.

Bom… Acho extremamente difícil relacionar isso. Com certeza quero fazer muito mais de 8 coisas antes de morrer, mas vou tentar relacionar as 8 coisas mais importantes, tentando passar por cima de coisas prosaicas, como trocar de carro, comprar apartamento, e demais coisas materiais. Vamos lá!

1) Ser Oncologista Clínica. Espero que este desejo (ou objetivo) seja realizado não apenas antes de eu morrer, mas, se possível dentro de no máximo, uns 5 anos.

2) Conseguir me entregar a sentimentos mais piegas e ser capaz de me envolver num relacionamento estável porém com aventuras e conseguir ser feliz dividindo uma mesma área física, também conhecida como casa/ apartamento/ quarto, além de dividir sonhos, frustrações, doenças, alegrias e tristezas. Em resumo: sim, eu falei sobre ser feliz numa união estável, também conhecida como casamento.

3) Ter um filho. Até hoje nunca me vi como uma mãe em potencial, mas tenho certeza de que isso se tornará uma constante na minha vida daqui a um tempo. Um amigo muito querido me disse dias atrás que gostaria muito de ter um filho, devido ao brilho no olhar que os pais têm.

4) Conhecer a Europa mochilando, de preferência com Thais e Vanessa. Tenhgo certeza de que quando estiver lá, serei extremamente feliz porque espero por esta viagem desde os meus 15  (longínquos) anos.

5) Cuidar de muitas pessoas e poder exercer a Medicina em sua plenitude, aprendendo todos os dias, tanto com meus acertos quanto com meus erros. Curar, poucas vezes; tratar, algumas vezes; confortar, sempre.

6) Aprender a ser mais paciente, menos intrasigente, menos ansiosa e a me conhecer melhor pra ser sempre uma pessoa melhor.

7) Emagrecer de verdade e conseguir que minha auto-estima esteja sempre elevada. Não necessariamente nesta ordem. Encarar um mini biquini sem nenhuma gordurinha a mais é, sem dúvida, um objetivo a ser alcançado.

8) Ser feliz mesmo com as adversidades e agradecer todos os dias por isso.

 

Acho q é isso. No próximo post, deixarei os nomes do 8 blogueiros “escolhidos”.

 

Baci!

Pra que despedidas?

Fevereiro 21, 2008

Aconteceu assim: um gaúcho apareceu repentinamente em terras tucujus e conheceu todos os meus amigos e se integrou “ao grupo”. Quando já estávamos adaptados ao seu jeito pimbudo de ser, ele precisou sair das terras tucujus para buscar novos caminhos e novos horizontes.

A convivência foi de poucas semanas mas tudo aconteceu numa intensidade tão impressionante que já o considerávamos como “membro da equipe”. Nessas poucas semanas, um pouco de tudo aconteceu: farras, passeios, doenças, gargalhadas e papos cabeça.

No dia de sua partida, eu estaria de plantão. Então, na véspera, falei com ele pelo MSN e desejei felicidades. Ele me garantiu que não viajaria sem se despedir de mim, mandando uma mensagem que me deixou enternecida (não, eu não sou meiga assim mas a mensagem tava muito bonita mesmo) mas nem sempre as coisas acontecem conforme a nossa vontade, então ele partiu sem se despedir.

Assim, deixei um testimonial no orkut pra ele porque fiquei pensando em despedidas…

Pra que despedidas?
Pra que despedidas se cada pessoa que passa pela nossa vida deixa um pouco de si e leva, mesmo que sem querer, um pouco de nós?
Pra que despedidas se quando nos aproximamos de alguém e deixamos que este alguem faça parte de nosso dia-a-dia (almoços, farras, passeios, doenças, papos cabeça, conselhos, etc.), percebemos subitamente que o Universo se modificou para que aquela pessoa lá entrasse?
Pra que despedidas se quando a amizade é verdadeira, só existe “até logo”?

Pensei, então, em vários tipos de despedidas. Desde os “tchaus” até os “até nunca mais” que, na maioria das vezes, nem imaginamos que irão acontecer. Claro que pensei também no famoso texto do Chaplin que diz que cada pessoa que passa pela nossa vida passa sozinha mas deixa um pouco de si e leva um pouco de nós.

O fato é que despedidas são momentos tristes de um sofrimento muitas vezes desnecessário, já que estamos neste mundo para interagir, mas podem ser também momentos de extremo crescimento pessoal.

Quando me despedi da minha mãe e dos meus amigos para morar em São Paulo, pensei que estava fazendo um negoção. Ledo engano. Estava na verdade cavando uma forma de voltar pra casa, mesmo inconscientemente e isso me fez amadurecer muito.

Quando me despedi de São Paulo para voltar pra Belém, achei que estava sendo a pior das losers. Ledo engano. Estava na verdade reescrevendo a minha história.

Quando disse “até logo” para Belém e vim morar em Macapá, julguei que passaria aqui apenas uma chuva, que não faria amigos, que não amadureceria mais e que voltaria correndo pra Belém, ao final dos 2 anos. Há cerca de 2 semanas, eu disse “olá” pra Macapá e percebi que já aprendi muito aqui, que já me encantei com muitas coisas da terra, que aqui encontrei amigos fantásticos que não encontraria em outro lugar, que apesar de minhas raízes paraoaras, eu posso e sou muito feliz aqui em terras tucujus.

Pra que despedidas?

Guardo com saudades todo mundo que me fez e faz bem. Sempre. Assim como lugares, cheiros, emoções.

Baci!

Da Minha Irmã

Novembro 20, 2007

Sou filha única, de mãe solteira, criada por mãe, avó coruja e tias.

Na verdade, meus pais se separaram quando eu tinha 03 anos e apesar de ser chamada eternamente como “meu xodó” e “my life” pelo meu pai e de receber cartões esporádicos dele escritos “do seu e sempre seu”, sempre foi com minha mãe, minha avó e tias Aurea, Beth e Yeda com quem pude contar.

Já comentei anteriormente que sempre fui extremamente mimada não apenas por todas as supracitadas mas também pelos meus tios, primos, professores, vizinhos, amigos, gato, cachorro, papagaio e periquito. E olha que nem sou tão meiga nem tão sensível assim mas acho que sempre rolou um certo sentimento de pena em relação à “menininha que vê o pai de 7 em 7 anos e nunca tem notícias dele nos intervalos”.

O fato é que passei por todas as fases, desde fantasiar que conversava com meu pai todos os dias até a fase de não tolerar sequer ouvir o nome dele, querer trocar de sobrenome e detestar sempre que me diziam que me pareço com ele. Eu já passei Natais grudada no telefone esperando por um telefonema e já passei aniversários sem querer sair de casa porque achava que ele poderia chegar a qualquer momento, coisa que jamais aconteceu.

Hoje ainda guardo certa mágoa porque acredito que minha vida teria sido melhor com uma figura paterna ao meu lado, mas também entendo que se ELE estivesse ao meu lado, provavelmente não teria sido nem um terço de tudo que eu imaginei que pudesse ser.

Sempre soube que tinha uma irmã. Certa vez, quando a minha avó paterna ainda era viva, fui a sua casa perto do Natal e vi uma pequena árvore com muitos bilhetes no lugar das bolas natalinas com vários nomes. Rapidamente achei o meu e dos meus primos que eu conhecia, mas achei um que me era totalmente desconhecido. Eu devia ter uns 08 anos. “Symone”.

“Quem é Symone, Vovó?”

“Symone é a tua irmã que mora no Rio”.

Minha irmã pra mim era um nome.

Soube mais tarde que antes de se casar com a minha mãe, meu pai achou uma primeira corajosa que se casou com ele, mas como ele já não era bom filho (como dizia minha avó Pascoa), jamais foi nem um bom marido nem um bom pai, a primeira corajosa teve mais coragem ainda e se separou dele pouco depois de ter tido uma filha e se mudou de mala e cuia para o Rio de Janeiro.

Uma das coisas mais bizarras é que minhas lembranças da primeira infância me remetem ao meu pai. Era ele quem brincava comigo, me ensinou a jogar dominó e eu tinha um afeto tão grande por ele que demorei a entender que o problema dele não me procurar nunca, não era comigo. Ora, se tínhamos uma família que eu julgava feliz,  minha mãe me repreendia porque não me amava e meu pai que não apenas não me repreendia, como fazia todas as minhas vontades e ainda brincava comigo era a pessoa que mais me amava no mundo! Como fazer uma criança perceber que quem ama, educa?

Quem ama, está ao lado em todos os momentos bons, mas principalmnete nos ruins. Quem ama, não desampara. Quem ama, protege mas também não sufoca.

Em abril ou maio de 2007, quando eu ainda estava tentando me recuperar dos choques que recebi no fim de 2006 e fevereiro de 2007, fui abordada no Orkut pela Symone. Sim, minha irmã, filha do primeiro casamento do meu pai.

Confesso que inicialmente minha reação foi de desconfiança. Como assim? Depois de tantos anos? Se ela sempre soube que eu existia, por que nunca me procurou mas está me procurando agora?

O fato é que resolvi abrir a guarda e conhecê-la e ela me contou as coisas mais estapafúrdias e desconhecidas por mim, como o fato de só ter visto nosso pai uma única vez quando ela tinha uns 05 anos e de só ter sabido da minha existência uns 04 aos antes.

Começamos a conversar pelo MSN e por e-mail e nos aproximamos cada vez mais até que precisei ir ao Rio para fazer uma prova e nos conhecemos pesoalmente.

Acho que não consigo achar palavras pra definir a emoção de achar alguém que divide 50% da carga genética com você e que era até bem pouco tempo antes, uma desconhecida.

Além das semelhanças físicas, que não temos como evitar, as afinidades e os gostos são absurdamente parecidos e inegáveis, irrevogáveis. É como se estivesse encontrando tardiamente alguém que sempre esteve destinada a ser minha melhor amiga.

Hoje eu continuo me considerando filha única, mas uma filha única com uma irmã maravilhosa que me enche de orgulho e que me faz desejar conhecê-la cada vez mais.

Quanto a meu pai, apenas lamento que ele não faça parte da vida de pessoas felizes, amadas e verdadeiras como nós.

Do Círio

Outubro 14, 2007

Minha primeira lembrança do Círio é familiar. Almoço no domingo do Círio na casa da Vovó. Acho que eu tinha uns 3 anos e meus pais ainda eram casados. Fui festivamente apresentada ao Pato no Tucupi e desde então celebramos uma feliz amizade todos os anos.

Minha segunda lembrança do Círio é escolar. Em meio a letras mal escritas e garranchos, minha “tia” da escola falou que o Círio era o “Natal dos Paraenses” e eu achei aquilo uma balela muito grande. No Círio a gente nem ganha presente, pensei.

Minha terceira lembrança do Círio é novamente familiar. Meus primos e eu fazíamos parte de uma mesa anexa, já que a mesa da casa da Vovó não comportava todos nós. Era a “mesa das crianças” que durou muitos anos até mesmo quando nenhum de nós era mais criança.

Minha quarta lembrança do Círio é novamente escolar. Como estudava em um colégio católico, resolvi que participaria do Círio com o uniforme do Colégio, ajudando no carro dos milagres. Eu estava na oitava série e tinha uns 14 anos. Claro que minha última intenção era homenagear Nossa Senhora de Nazaré. A primeira, era ficar bem pertinho do garoto mais bonito do colégio que eu havia conhecido recentemente. O que era pra ter sido “farra”, acabou se tornando um momento intenso de reflexão. Tanto que passei a acompanhar o Círio todos os anos após isso, fosse para pedir ou, na maioria das vezes, para refletir e agradecer.

Minha quinta lembrança do Círio, por incrível que pareça, é de farra. Na véspera do Círio de 1999, inventei de ir a uma Rave na estrada, também conhecida como “Chácara do Kaveira”, em Benevides. O caminho até lá foi tranqüilo. O “detalhe” ficou por conta dos bons quilômetros que andei com meus pés e pernas enfiados na lama até chegar ao local onde a música estava. Não posso me esquecer também de que no trajeto, totalmente escuro, iluminado por pessoas vestidas de Druidas e com algumas tochas nas mãos, o grupo todo foi surpreendido por mulheres sujas de lama que gritavam desesperadamente e malucos com moto-serras na mão, ligadas. Eu, como toda a minha “experiência”, temia que um deles escorregasse na lama e deixasse a moto-serra “machucar” alguém, pra não dizer arrancar o braço de alguém. Na volta, quase de manhã e com o detalhe que nenhum Druida nos acompanhava com tocha alguma e o caminho estava, então, muito mais escuro do que na ida, após entrarmos no carro todos sujos de lama e com caras de malacos, um barulho estranho após passarmos por cima de um pedaço de pau (?)… Parada estratégica na Polícia Rodoviária para descobrirmos que a Lei de Murphy existe: o pneu traseiro havia simplesmente sido descapado. Espera cansativa pelo guincho para devolver o carro para Belém e em resumo, cheguei em casa toda suja de lama por volta das nove horas da manhã. Nesse dia tão hilário, quase não fiz nada além de dormir e comer o pouco Pato no Tucupi que caberia a mim, já que minha mãe estava firme no intuito de me dar um corretivo pelo susto que dei nela. Ela simplemsnte saiu para a procissão do Círio e sua filhinha ainda nem tinha chegado. Mas por incrível que pareça, o pior ainda estava por vir. À noite nesse mesmo dia, inventei de ir ao cinema com amigos e minha mãe não queria me deixar sair porque achava que eu estava usando drogas (ahuhuahuaahuauhhuahuahua). Enquanto eu esperava pela minha carona no pátio de casa, ouvi cochichos com minha avó sobre revistar as minhas coisas para ver se achavam algum indício de drogas. Quando entrei em casa gargalhando das intenções, acreditando que estavam brincando, as duas ficaram lívidas e foi assim que descobri que elas de fato achavam que eu estava consumindo dorgas ilícitas só porque tinha ido a uma festa na Floresta Encantada e voltado cheia de lama às nove horas da manhã. Ora, faça-me o favor!

Minha sexta lembrança do Círio é de amizade. Há quase nove anos, tenho a minha “melhor amiga” Thais e há pelo menos uns seis anos, assitimos o Círio do alto do Banco do Brasil da Presidente Vargas. Nesse ritual, incluímos muitas peripécias como madrugar, ir andando até o Ver-o-peso, participar da muvuca perto do Banco do Brasil, detonar o café da manhã dentro do Banco, milhões de fotos fantásticas, caminhadas após a passagem da Santa, além de almoço do Círio na casa da avó dela (Dona Odilla) com direito à melhor maniçoba do mundo e  uma mesa mais farta do que pra qualquer rei ou rainha. Não posso me esquecer também das longas horas de sono após o almoço, porque paraense que se preza, dorme horrores após o almoço do Círio, pro Pato e pra maniçoba fazerem a festa no estômago.

Minha sétima lembrança do Círio, talvez pelo sete ser um número cabalístico, é novamente familiar e extremamente querida. No Círio do ano passado, 2006, toda a minha família paraense se reuniu no Mangal das Garças após eu ter acompanhado o Círio do Banco do Brasil com a Thais e a Tia Susana. Naquela ocasião, meus primos e eu nos reunimos num dos cantos da longa mesa e recordamos a “mesa das crianças”, conversamos longamente e minha avó estava extremamente feliz por nos ver todos juntos novamente. Nesse dia, tirei a última foto do meu primo, fui convidada para ser madrinha do seu casamento e tive o último diálogo com ele. Quando a sua noiva pediu que eu os fotografasse naquele lugar, ele riu e brincou com ela, dizendo que não haveria porque tirar aquela foto naquele dia, já que ela morava em Belém e poderia ir até lá milhões de vezes. Ela disse que sim, mas que eu não estaria lá. Ele então falou “Olha, prima, ela tá te chamando de fotógrafa”. Mal sabíamos que eu estive no Mangal das Garças várias vezes depois disso, assim como a Thais, noiva dele. Só meu primo que não está presente.

Neste ano, não quis participar do Círio e inclusive resolvi voltar a Macapá na véspera, sem sequer assistir ao auto do Círio ou participar do Arrastão do Pavulagem ou da Chiquita. A Maniçoba e o Pato no Tucupi ficarão para uma outra oportunidade.

O Círio de Nazaré, porém, resume muito as coisas que eu mais amo na vida e que são de fato, as mais importantes: amor, família, fé, amizade, esperança, renovação, reflexão, paz.

Eu tenho muito orgulho de ser paraense e de fazer parte de uma festa tão linda, tão única como esta.

Desejo a todos os paraenses, um Feliz Círio, que hoje eu sei, é até mais importante para nós do que desejar um Feliz Natal.

Que as bênçãos de Nossa Senhora de Nazaré se perpetuem em nossas vidas e em nossos corações e que tenhamos nossas famílias abençoadas com paz, saúde e cada vez mais amor. Viva Nossa Senhora de Nazaré!

Do MSN

Setembro 27, 2007

Monografia para entregar.

Artigos para publicar.

Pôsteres para enviar ao congresso.

Provas de R3 chegando.

Milhões de artigos para ler.

Residência de Clínica Médica acabando.

Pós-graduação continuando.

Livros e livros para estudar.

Plantões e mais plantões para tirar.

Hora de sono para repor.

Filmes para assistir, DVDs para atualizar, livros para refletir, músicas para dançar.

Baladas para fritar.

Bocas para beijar.

Novo emprego para conquistar….

E tudo que eu consigo fazer é me pendurar no MSN pra saber quem entrou ou deixou de entrar e bater um papinho…

A vida era mais simples antigamente… ;)

De como ganho a vida

Agosto 19, 2007

Perdão por destruir as esperanças de algum desavisado que tenha começado a ler este blog por este post, mas não vou contar aventuras e desventuras “Bebelísticas”.

Posso ser considerada uma criatura que ganha a vida à noite, mas trabalho também durante o dia. Aliás, trabalho bastante durante o dia, em vários lugares diferentes, dependendo de onde sou chamada.

Sou uma criatura errante: a médica plantonista!

Médicos plantonistas deveriam ser médicos com bastante experiência em Pronto Atendimento, isto é, médicos com cerca de 10 anos de formados, com Residência Médica e de preferência subespecialização em Medicina de Urgência. Deveriam.

Entretanto, na maioria das vezes, tratam-se médicos jovens, recém-formados e inexperientes que aceitam trabalhar em Pronto Atendimento porque e a primeira proposta que surge, já que ninguém quer passar muito tempo “na vida”. É como a diferença entre ser “do calçadão” e ser “fixe”. Não por acaso muitas vezes eu já disse que nenhuma “profissional do sexo” trabalha tantas horas seguidas por tão pouco.

A rotina de um plantão em um Hospital, quer seja público ou particular não difere muito e se resume a 90% dos pacientes (sim, é este o número aproximado)  que procuram o Pronto Atendimento (vulgo Ponto Socorro) para consultas ambulatoriais (aquelas consultas que podem esperar para serem marcadas).

Outros 8 a 9% são pacientes que deveriam ter procurado o Hospital até antes, mas ficaram protelando, passaram na farmácia e se consultaram com o balconista, melhoraram pouco ou não melhoraram nada aí procuram o médico de preferência depois das 2 horas da manhã e não nos resta muita coisa além de interná-los e/ou mantê-los em observação na Urgência.

Os outros 1 a 2% são o verdadeiro motivo de ter que haver Pronto Atendimento nos Hospitais. Tratam-se das Emergências, ou seja, situações em que temos que intervir imediatamente, ou o paciente morre. Sim, são só 2% dos casos.

Isto significa que cada vez que saio da minha confortável casinha para trabalhar à noite ou de dia, nos finais de semana e feriados, 98% dos casos poderiam ter esperado se não até o primeiro dia útil seguinte, pelo menos até o dia seguinte.

Mas naqueles 2% poderia estar minha mãe, um ente querido seu ou qualquer ser humano que merece cuidado, atenção e conhecimento médico suficiente pra resolver o seu problema.

Infelizmente não é o que acontece na maioria das vezes porque os médicos que estão nos Pronto Atendimentos freqüentemente não sabem identificar situações REALMENTE graves.

Costumo dizer que há no mínimo 4 coisas principais que detesto nos plantões:

1. Pacientes que se diagnosticam e chegam ao Hospital dizendo o que têm e que conduta querem que eu tome, no melhor estilo: “Quero fazer exame pra Dengue”. “Não dá pra fazer uma chapa!”. “A Sra não vai passar nem uma Benzetacil!”

2. Pacientes que não apenas se diagnosticam, como vão ao balcão da Farmácia. O balconista prescreve, diz por quantos dias a pessoa tem que tomar o remédio, até escreve na caixa ou num adesivo especialmente feito pra isso. Aí (adivinhem!), não adianta, o paciente não melhora e resolve então procurar o médico pra ele contornar a situação e tratar como deveria ser tratado. Enquanto isso, antibióticos são usados de forma errada, medicações com contra-indicações importantes são prescritas e não são avaliadas e diagnósticos errados são feitos!

3. Pacientes com doenças graves, crônico-degenerativas ou então subagudas que não procuram atendimento médico e não aceitam seus diagnósticos. Esse tipo de paciente é comum e também é conhecido como Tigrão. Não aceitam as condutas instituídas mas fazem questão de continuar indo aos Pronto Atendimentos, creio que na esperança de conhecerem algum médico insandecido que concorde com eles e de preferência diga que eles têm alguma doença muito grave ou, ao contrário, digam que a Insuficência Cardíaca, a Insuficência Renal, o Diabetes mellitus e etc são apenas delírios de mentes doentias que apenas por acaso, possuem registro no Conselho Regional de Medicina. Incluo aqui pacientes com distúrbios neurovegetativos que acham sempre que estão infartando ou morrendo e na verdade têm apenas transtorno de ansiedade (na maioria das vezes).

4. Detesto atender pacientes mal conduzidos e ser responsável pelos “deslizes” de “colegas” que não examinam os pacientes ou subestimam a história clínica, deixando todos os “pepinos” pra eu descascar. Incluo aqui vários “colegas” que fingem que fazem Medicina, mas já se tornaram charlatães há anos e ainda não sabem disso!

Mas acima de qualquer coisa que eu deteste, há pelo menos uma que vale por mais de um milhão de coisas detestáveis: a certeza do dever cumprido.

É maravilhoso quando diagnosticamos corretamente, conduzimos corretamente e o paciente melhora. A gratidão é variável e sinceramente acho que, apesar de muito bom quando acontece, torna-se secundária quando a gente encosta a cabeça no travesseiro e tem certeza de que fez tudo o que pôde e… Deu certo!

Muitas vezes, fazemos tudo que está ao nosso alcance e mesmo assim não dá certo. Mas isso está relacionado a muitas coisas que estão acima de nós e convém ser citadas em outra ocasião. Mesmo nesses casos, quando refletimos sobre o caso e percebemos que fizemos de tudo e não deu certo, apesar da sensação conhecida de impotência, a sensação de dever cumprido é pelo menos reconfortante.

Claro que os plantões são muito importantes, principalmente nos primeiros anos da carreira, já que precisamos nos sustentar, mas não conheço médico que não sonhe em abandonar essa vida e voltar a dormir todas as noites na sua humilde casinha. Um dia chegarei lá!

Como costumo dizer: “Quando eu for médica….”, isto é, quando eu deixar de ser uma mera médica residente, tiver terminado minha segunda residência e for uma especialista, se Deus quiser, podendo escolher o trabalho e etc, vou dormir todas as noites na minha cama box. Isto se chama ser “fixe”.

De  todos os plantões que até hoje tirei na minha vida de médica, guardo muitas lições de vida e de Medicina e a certeza de que sou muito feliz por ser médica. E isso importa muito mais do que milhões de noites mal dormidas!

Baci!