Famílias x Médicos

Março 20, 2008

Ainda não havia comentado aqui mas, apesar de já pensar em escrever num blog há alguns anos, o evento que me fez decidir definitivamente por escrevê-lo foi um plantão de UTI.

Na época (ano passado) eu havia passado por uma experiência no mínimo bizarra.

A visita dos familiares na UTI é variável, mas numa das UTIs em que trabalho só acontece durante a tarde e apenas 2 familiares podem entrar e se aproximar do paciente num curto período de 1 hora. Como vocês devem imaginar, apesar de ser um período curto, todas as atividades param nessa uma hora (medicações, banhos, exames, etc.) para que os parentes entrem. É óbvio que muitos barracos são feitos como esposas e amantes brigando pra entrar juntas ou uma primeiro que a outra e outras coisas bizarras…

Eu particularmente tenho o costume de me retirar do salão da UTI, permanecendo no meu repouso para que os familiares visitem de fato os pacientes e não fiquem apenas me perguntando as coisas.

Nesse dia em questão, uma paciente de uns 70 anos “resolveu” aspirar a secreção gástrica e fazer o que chamamos de broncoaspiração, isto é, o conteúdo do estômago foi parar nos pulmões e ela então parou de respirar. Simples assim. O problema maior foi que ela já tinha uma doença cardíaca grave e já tinha tido “derrames” (acidentes vasculares cerebrais). Aí, como desgraça pouca é bobagem, ela evoluiu com uma parada cardíaca bem na frente da filha e de outros acompanhantes dos outros pacientes, a visita foi interrompida abruptamente e as manobras de ressuscitação foram iniciadas.

É necessário explicar que dificilmente uma reanimação cardiopulmonar tem sucesso se o coração já tiver uma doença prévia importante, porque é necessário um esforço tremendo pra que ele volte a funcionar e, se ele já tiver uma doença grave anteriormente, todo o esforço que empregamos acaba se tornando inútil. Foram mais de 30 minutos de reanimação e nada.

Após isso, o pior momento é explicar pra família que os esforços possíveis e necessários foram feitos mas que, infelizmente, o paciente não reagiu e foi a óbito.

Nesse dia, não foi a parada que me chocou, ou o momento e a forma como aconteceu, tampouco o fato da paciente não ter voltado, já que ela já tinha várias doenças prévias (comorbidades), mas as palavras da filha dela quando recebeu a notícia.

A filha da paciente não apenas questionou minhas condutas, como questionou inclusive minha formação médica. Gritou que eu não era médica coisa nenhuma e que queria falar com um determinado médico que também trabalha nessa UTI.

Controlei todos os meus impulsos pelos xingamentos e tentei me colocar no lugar dela, que estava visitando a mãe e a viu broncoaspirar na sua frente e morrer alguns minutos depois. Expliquei mais uma vez o que havia acontecido e me coloquei a sua disposição para quaisquer outros exclarecimentos que se tornassem necessários.

Nesse dia, pensei em muitas coisas, como de praxe.

Meus colegas médicos diriam que é impossível que alguém instruído como ela é, não compreendesse que uma paciente que já tinha tido 02 derrames prévios, um coração doente há anos e uma infecção respiratória grave que a fez ser transferida para a UTI, era uma paciente grave que poderia ir a óbito a qualquer momento e que todos os nossos esforços poderiam ser inúteis frente a isso.

Mas nesse dia e nesse momento, eu percebi que não. As pessoas, instruídas ou não, negam a verdade para si mesmas e ainda há colegas médicos que contribuem com isto ao não explicarem todos os fatos tim-tim por tim-tim.

Ontem, novamente durante um plantão de UTI, fiz mais uma vez todos esses questionamentos.

Um paciente de 83 anos com uma doença cardíaca grave (”coração grande” e arritmia - para os médicos, miocardiopatia dilatada com BAVT) estava internado no Hospital para ser submetido a um implante de marcapasso. Durante a internação, ele apresentou um quadro respiratório infeccioso, com posterior piora da função renal (já que como ele tinha várias doenças prévias e idade avançada, os rins já estavam lesados mas não a ponto de estarem “paralisados” como dizem).

Pelas evoluções dos outros colegas médicos, ele apresentou um evento agudo de desorientação (”não falava coisa com coisa”, “não reconhecia os parentes”) e foi pensado em várias hipóteses, como num “derrame” (AVCI) ou até mesmo num distúrbio metabólico (infecção, insuficiência renal crônica agudizada, hipoglicemia), isto é, algo que estivesse fazendo com que o organismo dele deixasse de funcionar adequadamente, digamos assim.

O fato é que o paciente foi transferido da enfermaria para a UTI e estava apresentando um quadro ainda mais grave, já que tanto os rins, quanto a infecção respiratória haviam piorado e ao invés de ele acordar e voltar a falar e reconhecer as pessoas, ele estava o tempo todo sonolento (rebaixamento do nível de consciência). O implante do marcapasso estava suspenso, para que o estado geral do paciente melhorasse e este pudesse então ser submetido a uma intervenção cirúrgica, ou não.

Após a visita (sempre ela), o médico do plantão da UTI chama os familiares para falar sobre os pacientes e explicar a situação em que se encontram, que tipo de tratamento foi instituído e o que estamos aguardando.

Quando saí da UTI, havia nada mais nada menos do que 20 acompanhantes desse paciente, ávidos por informação e com um desejo quase canibal de comer meu pobre fígado. Eles queriam explicações, queriam respostas, queriam ver rapidamente uma melhora que eu não podia assegurar-lhes que chegaria um dia. Mais do isso, eles queriam entender o que ninguém havia lhes explicado.

Uma das acompanhantes, a mais indagadora de todas, anotava num papel todas as palavras que eu dizia. Eu disse TODAS AS PALAVRAS. E ainda fazia questão de tentar me colocar contra os outros médicos, além de me testar para ver se estávamos todos falando a verdade.

Mais uma vez me perguntei se todas essas pessoas não entendiam que alguém que tem 83 anos, um coração extremamente debilitado, a ponto de necessitar de um marcapasso, umA infecção pulmonar grave e uma insuficiência renal crônica agudizada que está numa Unidade de Terapia Intensiva para tratamento, é alguém com um estado geral muito grave e um prognóstico pra lá de sombrio, ou seja, alguém que até pode melhorar, mas que estatisticamente falando, as chances são muito pequenas, ~pra não dizer ínfimas.

Mais uma vez, tentei ser o mais imparcial possível e explicar novamente pra família todo o quadro do paciente e o que estávamos fazendo por ele.

Não sei se eles me compreenderam e muito menos se aceitaram a verdade dos fatos. Também não sei se eles também acham que não sou médica. O fato é que eu tentei. Isso não é a coisa mais reconfortante do mundo mas talvez um dia eles entendam que não somos perfeitos e, apesar de nos esforçarmos bastante, somos absolutamente impotentes diante da maioria das doenças que infelizmente fogem ao nosso controle e à nossa vontade.

Baci!

Pra que despedidas?

Fevereiro 21, 2008

Aconteceu assim: um gaúcho apareceu repentinamente em terras tucujus e conheceu todos os meus amigos e se integrou “ao grupo”. Quando já estávamos adaptados ao seu jeito pimbudo de ser, ele precisou sair das terras tucujus para buscar novos caminhos e novos horizontes.

A convivência foi de poucas semanas mas tudo aconteceu numa intensidade tão impressionante que já o considerávamos como “membro da equipe”. Nessas poucas semanas, um pouco de tudo aconteceu: farras, passeios, doenças, gargalhadas e papos cabeça.

No dia de sua partida, eu estaria de plantão. Então, na véspera, falei com ele pelo MSN e desejei felicidades. Ele me garantiu que não viajaria sem se despedir de mim, mandando uma mensagem que me deixou enternecida (não, eu não sou meiga assim mas a mensagem tava muito bonita mesmo) mas nem sempre as coisas acontecem conforme a nossa vontade, então ele partiu sem se despedir.

Assim, deixei um testimonial no orkut pra ele porque fiquei pensando em despedidas…

Pra que despedidas?
Pra que despedidas se cada pessoa que passa pela nossa vida deixa um pouco de si e leva, mesmo que sem querer, um pouco de nós?
Pra que despedidas se quando nos aproximamos de alguém e deixamos que este alguem faça parte de nosso dia-a-dia (almoços, farras, passeios, doenças, papos cabeça, conselhos, etc.), percebemos subitamente que o Universo se modificou para que aquela pessoa lá entrasse?
Pra que despedidas se quando a amizade é verdadeira, só existe “até logo”?

Pensei, então, em vários tipos de despedidas. Desde os “tchaus” até os “até nunca mais” que, na maioria das vezes, nem imaginamos que irão acontecer. Claro que pensei também no famoso texto do Chaplin que diz que cada pessoa que passa pela nossa vida passa sozinha mas deixa um pouco de si e leva um pouco de nós.

O fato é que despedidas são momentos tristes de um sofrimento muitas vezes desnecessário, já que estamos neste mundo para interagir, mas podem ser também momentos de extremo crescimento pessoal.

Quando me despedi da minha mãe e dos meus amigos para morar em São Paulo, pensei que estava fazendo um negoção. Ledo engano. Estava na verdade cavando uma forma de voltar pra casa, mesmo inconscientemente e isso me fez amadurecer muito.

Quando me despedi de São Paulo para voltar pra Belém, achei que estava sendo a pior das losers. Ledo engano. Estava na verdade reescrevendo a minha história.

Quando disse “até logo” para Belém e vim morar em Macapá, julguei que passaria aqui apenas uma chuva, que não faria amigos, que não amadureceria mais e que voltaria correndo pra Belém, ao final dos 2 anos. Há cerca de 2 semanas, eu disse “olá” pra Macapá e percebi que já aprendi muito aqui, que já me encantei com muitas coisas da terra, que aqui encontrei amigos fantásticos que não encontraria em outro lugar, que apesar de minhas raízes paraoaras, eu posso e sou muito feliz aqui em terras tucujus.

Pra que despedidas?

Guardo com saudades todo mundo que me fez e faz bem. Sempre. Assim como lugares, cheiros, emoções.

Baci!

Fechando ciclos…

Fevereiro 2, 2008

… E abrindo outros.

Porque vida é o que a gente vive entre um ciclo e outro. Ou melhor, a vida é um eterno abrir e fechar de ciclos, muitas vezes sinérgicos.

Ontem terminei a Residência de Clínica Médica. Deixo de ser Residente (pelo menos por 01 ano) e volto a ser médica (piada interna).

Na verdade funciona assim: a maioria das pessoas não faz  a menor idéia do que é um Médico Residente. Todo mundo acha que estamos no “limbo”, ou seja, não somos nem médicos, nem estudantes. Certa vez, no Hospital onde fiz residência me contaram que uma técnica de enfermagem que estava como circulante (auxiliando na cirurgia porém sem participar ativamente dela, ou seja, buscando materiais externos à mesa operatória e etc) não sabia como descrever o médico residente e colocou no relatório que era o “Acadêmico Médico Residente Estudante Doutor Fulano de Tal”.

Na verdade, o médico residente é a pior escória da Medicina. Já é médico e, como tal, pode ser responsabilizado cível e penalmente por seus atos, porém, ganha pouco, trabalha demais, dedica-se quase que integralmente à Residência e não é nem um pouco valorizado, já que não passa de um “estudantezinho”, na opinião dos outros e muitas vezes, até mesmo de pessoas da área de saúde.

O fato é que ESSE ciclo da minha vida acabou. Daqui pra frente é só focar na subespecialidade. Sim. Porque além de ralar como um condenado, a especialidade que escolhi (Clínica Médica) ainda tem um agravante: Quem termina 02 anos de Pediatria, é Pediatra (as pessoas conseguem entender isso). Quem termina 02 anos de Clínica Cirúrgica, é Cirurgião Geral (as pessoas também conseguem entender isso). Quem termina 03 anos de Ginecologia & Obstetrícia, ao final é Ginecologista e Obstetra.

Mas quem termina 02 anos de Clínica Médica, é clínico especialista em Clínica Médica, mas pra 99,9% da população é exatamente a mesma coisa que ser “Clínico Geral”, isto é, o mesmo título que qualquer um de nós recebe ao acabar os 06 anos da Faculdade de Medicina.

Isto significa que é muito comum as pessoas me perguntarem porque estudei tanto pra ser alguma coisa que eu já era antes de fazer a tal Residência Médica (??????????)

O fato é que só vou passar a ser “fixe” quando terminar meus 03 anos de Oncologia Clínica mas cada vitória deve ser intensamente comemorada (aprendi isso com minha prima-irmã Vanessa) e apesar de saber que ter terminado esse ciclo não vai fazer tanta diferença assim no final das contas, ou pelo menos durante este ano, estou me sentindo de alma lavada e pronta para os novos ciclos que se iniciarão.

Neste ano, vou fazer muitas coisas e espero continuar vivendo, ou seja, continuar abrindo e fechando ciclos.

Baci!

Uma década

Janeiro 29, 2008

Direto do túnel do tempo, gostaria de informar-lhes que há exatos 10 anos eu passei no vestibular da Universidade Federal do Pará, no curso de Medicina.

Como já falei anteriormente, na época do vestibular acredito que tenha curtido mais o prêmio do que a conquista em si, mas é impossível não perceber como aquele dia fez minha vida seguir um rumo totalmente único e que definiu os 10 anos seguintes e, muito provavelmente, todos os outros que ainda me for possível viver.

Há 10 anos, eu pensava em ser cirurgiã, achava que médicos usavam branco e faziam garranchos. Eu achava que me casaria com meu namorado da época, que teria uma penca de filhos e que teria uma família de comercial de margarina.

Nesses 10 anos, já fiz de tudo um pouco e fui decidindo meus caminhos com o tempo. A única coisa constante é a tal da Medicina.

Parabéns pra mim!

Baci!

Acredito que qualquer pessoa que tenha lido as abobrinhas que escrevo neste Blog já percebeu o que nem eu mesma já havia percebido: Sou uma otimista incorrigível!

Isso mesmo. Pronto, falei.

E mesmo que eu não seja otimista do tipo que acha que tudo está bom, eu sempre acho que tudo pode melhorar e que não há coisa ruim que não possa piorar, isto significa que mesmo que algo esteja muito ruim, acredito que poderia estar pior e isso me conforta.

Ah! Eu acredito também em “Laws of attraction”, pensamento positivo e todas as outras coisas que minha mãe, uma verdadeira Poliana, fez o favor de me ensinar ao longo dos anos.

Não comentei aqui mas mudei de apartamento na semana que passou. Fui pra um maior, mais espaçoso, mais organizado, mobiliado, melhor localizado e muito muito mais bonito.

O que era pra ter sido a melhor mudança da minha vida quase se trasforma no pior dos meus pesadelos.

É assim: O apartamento é quase todinho mobiliado, mas eu precisava comprar um ar condicionado (artigo de primeiríssima necessidade pra qualquer Paraoara) e uma cama (artigo de zeríssima necessidade para qualquer pessoa que se preze)

Descobri da pior forma possível que sou a mais entulheira das pessoas. Eu passei exatamente 1 ano morando num apartamento-apertamento e consegui reunir mais bregueços do que muitas famílias juntas. Conclusão??? Minha mudança que deveria ter consumido apenas uns dois dias, tornou-se uma aventura sem precedentes e ainda não acabou!

Como tenho até o dia 31 pra sair do antigo apertamento, decidi me mudar aos poucos, mas quando a cama e o ar condicionado chegaram, achei que seria mais prudente passar a dormir no apartamento novo, por todos os motivos listados acima.

No exato dia em qua a cama chegou, percebi que umas 08 lajotas justamente do meu quarto resolveram brigar entre elas e formar um “espaço morto”, o que fez com que elas se quebrassem sem nenhum motivo aparente. Dormi na minha cama box liiiiiiiiiiiiiiiiiiinda de casal (lindas ambas :) - a cama e eu), mas percebi durante a noite que o ar condicionado digamos que servisse de circulador de ar (????????). Não bastando isso, percebi no dia seguinte, ao demorar horrores para acordar do meu sono de princesa (cof! cof!) que há uma “certa umidade” no chão do meu quarto.

Ok. Vida que segue. Passei o dia todo trabalhando e quando volto ao meu novo doce lar para dormir, o ar condicionado continua “circulando” e, pior, durante uma chuva torrencial, noto ainda que chove dentro do meu quarto. Isso mesmo!!!! CHOVE DENTRO DO MEU QUARTO.

Mas o sono foi maior. O meu sono sempre é maior do que qualquer coisa.

Quando acordei no dia seguinte, ao pisar  no chão já com algumas lajotas a menos, noto UMA POÇA D’ÁGUA. Isso mesmo. Uma poça d’água lindamente conjugada à minha cama box novinha e liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinda. Fui até a outra janela do meu quarto e percebo UMA OUTRA POÇA D’ÁGUA só que desta vez conjugada aos meus sapatos!!!!!!!!!!!!!!!! Isso mesmo!!! Uma outra poça d’água conjugada aos meus sapatos!

Fui até a sala que é conjugada à cozinha e olho para a outra janela e duvido que vocês adivinhem o que achei lá!!! UMA NOVA POÇA D’ÁGUA conjugada às caixas dos meus livros.

Não sei se foi o sono, o otimismo ou uma loucura repentina. Só para explicar o quanto sou apaixonada por livros, vale contar que meu Neurologista certa vez perdeu quase todos os seus livros porque na sua clínica houve um vazamento do cano da Ressonância Magnética que, não por acaso, passava bem em cima do seu consultório e todos os livros, eu disse TODOS OS LIVROS dele que estavam lindamente expostos nas prateleiras, ficaram estragados. Adivinhem o que eu fiz ao saber disso???? Chorei compulsivamente na frente dele. Graças a Deus ele não me mandou direto para o Psiquiatra.

O fato é que ao perceber que as poças conjugadas não tinham feito tanto estrago assim e tanto a minha cama box de casal (liiiiiiiiiiiiiinda) quanto meus sapatos e meus livros estavam intactos, eu não dei escândalo nenhum e só chamei o dono do imóvel pra que resolvesse o problema.

Percebam que o imóvel que era maior, mais espaçoso, mais organizado, mobiliado, melhor localizado e muito muito mais bonito se tornou um imóvel com lajotas futuantes, ar condicionado que só ventila e que chove dentro!!!

Na sexta-feira, entreguei a chave para o dono resolver as broncas todas com uma calma que surpreendeu a mim mesma e fui liiiiiiiiiinda dormir na casa da Lucélia, minha amiga e companheira de almoços animados :)

Ao acordar, fui direto para o plantão de 24 horas. Sim, às vezes eu sou uma espécie de Jack Bauer e tenho apenas 24 horas para resolver todas as broncas do mundo!

Quando cheguei ao plantão, compreendi porque depois da tempestade vem a bonança (para os otimistas, é claro).

Meu dia começou com um scrap no Orkut me informando que alguém totalmente desconhecido por mim, chegou a este Blog por meios totalmente desconhecidos por mim, leu o que escrevo e se identificou!! Isso foi algo maravilhoso e sem precedentes.

Depois disso, falei com minha amiga Kiara sobre meus projetos para Abril e descobri que estão todos muito bem encaminhados.

Mais tarde, fui elogiada por um paciente que eu já havia atendido quase 01 ano atrás e ele se mostrou muito feliz por eu tê-lo atendido novamente.

Saí do plantão por cerca de 5 minutos para comprar o meu almoço num restaurante self-service de perto do Hospital (deixando outro médico no meu lugar, que fique bem claro) e fui cumprimentada desde o porteiro do restaurante até o caixa.

Tive a felicidade de confirmar um diagnóstico  difícil.

Kiara me elogiou como escritora (acho que blogueira seria mais adequado).

Recebi a notícia de que meu amigo está completamente apaixonado meeeeeeeeeeeesmo e dei  o maior apoio.

Ouvi de um amigo meu que sou nova demais e bonita demais  (Cof! Cof!) pra deixar de curtir minha vida

Enfim… Tantas coisas boas aconteceram hoje que chego a ficar com medo.

Depois da tempestade, vem a bonança? Ótimo.

Mas e se depois da bonança a tempestade voltar?

O que será que encontrarei no meu apartamento novo amanhã??? Caos novamente ou a ordem de volta ao Santo Lar de Renata?

Aguardem cenas dos próximos capítulos.

No próximo episódio… Renata terá apenas 24 horas para… Dormir e sonhar que nós moramos no melhor dos mundos possíveis (Cândido ou O Otimismo)

Baci!

Sacerdócio

Janeiro 8, 2008

Há exatos 04 anos me casei.

Não um casamento normal e tradicional, embora tenha envolvido uma igreja também.

Há 04 anos me casei com a minha profissão.

No momento em que nós, médicos, recebemos o grau, passamos a usar o anel no anelar esquerdo, símbolo do único casamento indissolúvel que eu conheço!

Existem ex-professores, ex-advogados, ex-mulher, ex-marido mas há algumas coisas que não existem!

Ex-corno, ex-gay, ex-sogra e ex-médico.

Já sofri bastante com e pela minha profissão. Já desejei largar tudo e ter uma vida “normal”. Já disse que isso não era pra mim.

Mas também já tive dias de tanta felicidade que fiz questão de ligar pra minha mãe e agradecer a ela por ter me tornado  médica.

Sim. Se hoje sou médica devo em mais de 90% a minha mãe, que sonhou isso pra mim e viu em mim potencial para sê-lo.

Acredito que minha profissão, casamento, sacerdócio seja uma das coisas mais importantes da minha vida e hoje eu completo mais um ciclo da minha vida.

Há 04 anos eu era apenas uma recém-formada besta. Hoje eu sou uma médica formada há 04 besta ! ;)

Parabéns pra mim e que muito mais conquistas venham!

Parabéns pelo meu casamento feliz!

Baci!

O Mais é Nada

Janeiro 6, 2008

Navegue, descubra tesouros, mas não os tire do fundo do mar, o lugar deles é lá.
Admire a lua, sonhe com ela,  mas não queira trazê-la para a terra.
Curta o sol, se deixe acariciar por ele, mas lembre-se que o  seu calor é  para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe, elas só podem brilhar  no céu.
Não tente deter o vento, ele precisa correr por toda parte, ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não apare a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos,  não  pode molhar só o seu.
As lágrimas? Não as seque, elas precisam correr na minha, na sua, em todas as faces.
O sorriso! Esse você deve segurar, não deixe-o ir embora, agarre-o!
Quem você ama? Guarde dentro de um porta jóias, tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia que você possui, a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milênio é outro, se a idade aumenta;

conserve a vontade de viver, não se  chega à parte alguma sem ela.
Abra todas as janelas que encontrar e as portas também.
Persiga um sonho, mas não deixe ele viver sozinho.
Alimente sua alma com amor, cure suas feridas com carinho.
Descubra-se todos os dias, deixe-se levar pelas vontades, mas não enlouqueça por elas.

Procure, sempre procure o fim de uma história, seja ela qual  for.
Dê um sorriso para quem esqueceu como se faz isso.
Acelere seus pensamentos, mas não permita que eles te consumam.
Olhe para o lado, alguém precisa de você.
Abasteça seu coração de fé, não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus desejos e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo, só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.
Procure os seus caminhos, mas não magoe ninguém nessa  procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando  julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se  afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!
“Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada”.

(Fernando Pessoa)

 

O texto acima é referenciado como do Fernando Pessoa e eu confesso que o acho otimista demais para o poeta, mas quem sou eu pra discutir autoria de alguma coisa?

O fato é que, plagiando meu amigo Leonardo Aquino, “escrever em Blog é coisa de gente triste” e eu estava muito triste até ontem.

Hoje me muni da fé da minha mãe, aquela mesma que remove montanhas e percebi o quanto a minha vida é bela e gratificante. Se hoje estou triste é porque certamente ficaria mais triste mais tarde!

“Se não deu certo, é porque não é o final”

O mais, é nada!

Baci!

Balanço de Ano Velho

Dezembro 31, 2007

É inevitável, né?

Chega essa época do ano e a gente não se conforma se não fizer uma análise às vezes fantasiosa, às vezes nua e crua da realidade que nos cercou nos últimos doze meses. É imprescindível entrar no Novo Ano com o mínimo de mágoas possível e com o máximo de esperança possível.

Hoje fiquei pensando na vida, assim, como se não tivesse nada pra fazer e cheguei a algumas conclusões.

Meu amigo especial me disse que 2007 foi seu ano de purgatório e eu tenho que concordar. O ano que graças a Deus terminará amanhã foi, para mim, de fato, um ano de purgatório.

Digo isso porque 2006 foi certamente um ano inteiro de inferno astral. Como se não bastasse ter mudado de cidade de um dia pro outro, iniciei a Residência de Clínica Médica e me decepcionei muito com pessoas, serviços, Medicina, estudo, trabalho, etc etc etc. Passei por um período brabo de adaptação, larguei empregos em Belém, parei minhas aulas de francês, e, além de ter parido um apêndice, fiquei doente por quase 2 meses e quando já estava me recuperando em todos os sentidos, recebi a bomba da morte do Fabricio.

Estava prestes a mergulhar num processo depressivo muito intenso e importante e no penúltimo dia de 2006, sonhei com meu primo. Era um sonho tão real que não tenho como avaliar se de fato aconteceu mas foi o que me animou para sair de tudo em que eu estava e entrar 2007 da melhor forma que eu poderia naquele momento.

Em 2007, voltei pra academia mas logo em seguida perdi minha vovó. Entrei em estado de mal asmático seguido de pneumonia atípica e depois uma crise básica de ansiedade mas não posso deixar de comemorar as minhas vitórias.

Se em 2006 decidi qual subespecialidade seguir, em 2007 consolidei o desejo e a vontade. Viajei muito, aprendi mais ainda, dei continuidade à Residência, iniciei uma pós-graduação, mudei de casa, cortei o cabelo, fiz novos amigos e consolidei as velhas amizades.

Em 2007 eu me apaixonei, me decepcionei, mas preferi me iludir e continuar apaixonada porque isso siginifica estar viva.

Em 2007, saí meio que a contra-gosto da minha zona de conforto e estou agora mais frágil, porém mais sensível também.

Conheci minha irmã e tantas pessoas maravilhosas. Descobri que posso ainda mais.

Que 2008 seja o ano do paraíso!

Baci!

Cortar o Tempo

(Carlos Drummond de Andrade)

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.

DAM - Dispositivo Anti-Mãe

Dezembro 27, 2007

Antes que vocês me chamem de insensível (na verdade não tenho verdadeira ciência do meu grau de sensibilidade mas este não é o caso), gostaria de dizer que amo muito a minha mãe.

Ela tem algumas excentricidades (apesar de não ser rica e, portanto, suas excentricidades deveriam ser chamadas de doidices mesmo) mas é muito amorosa, honesta, companheira, coruja e se doa integralmente a mim. Confesso até que ultimamente acho que ela está vivendo a minha vida e não a dela, mas tudo bem.

O fato é que já sonhei várias vezes em inventar algo revolucionário que seria o DAM - Dispositivo Anti-Mãe.

Pensei em vários tipos de instrumentos, como mordaças até teletransportadores, mas cheguei à conclusão de que o ideal seria um controle remoto. Sim. Controle Remoto!

Funcionaria da seguinte maneira: quando ela começasse a reclamar da sua bagunça, dos seus livros espalhados, do seu excesso de roupas e/ou de seu descontrole financeiro, você apertaria um do magníficos botões inclusos no pacote e teria acesso à previsão do tempo, a clipes de música ou até mesmo a célebres frases de seus filmes preferidos com interpretação e tradução simultânea. Claro que uma super TV de LCD de 42 polegadas tem que acompanhar o dispositivo.

Se você estivesse sofrendo por um amor não correspondido, ao invés de sua querida mamãe lhe criticar e dizer que seu namorado é um cachorro, você apertaria mais um fantástico botão da engenhoca e ela passaria a dar conselhos de renomados psicólogos.

Haveria também a possibilidade de você acionar um canal de culinária, o que a faria cozinhar as maiores delícias para você todos os dias e quando ela começasse a reclamar que você engordou, que está obesa, horrenda e que ninguém vai te querer, você acionaria mais um botão e iniciaria o programa de exercício com um personal trainer e tudo, sem se esqueer da trilha sonora, sempre antenada no que há de mais moderno em termos de gym music.

Não posso me esquecer do canal de compras, ligado 24 horas por dia, no caso de precisarmos de companhia para umas comprinhas básicas.

Ah! Mas o principal botão do dispositivo seria a tecla MUTE. Quando você simplesmente não quisesse mais discutir nem argumentar, nem se distrair com programação nenhuma, bastaria uma tecla mute.

Eu compraria o DAM, sem medo de ser feliz, de preferência quando estivesse próximo de datas festivas, como o Natal, momento em que a minha mãe mais me estressa. Será que o Submarino venderia???

Feliz Natal atrasado e que em 2008 tenhamos realizações pessoais, profissionais, amorosas, financeiras e sejamos extrema e absurdamente felizes!

Baci!

Poema em Linha Reta

Novembro 16, 2007

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

(Fernando Pessoa como Álvaro de Campos)

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Vou contar uma quase infâmia pra vocês. Aliás, contar não é bem o termo. Vou confessar!

Até hoje tive coragem de fazer essa confissão a pouquíssimas pessoas e a Kiara é uma delas.

Lá vai. Eu não gosto de poesias. Pronto, falei.

Assim. Não é que eu as odeie, mas por exemplo, concretismo é uma coisa que não engulo. Palavras sem nexo menos ainda. Acho que sou objetiva demais para ler um poema. Na maioria das vezes ele não me mostra significado algum.

Mas aí acontecem umas coisas estranhas. A gente lê uma poesia e gostaria de tê-la escrito. Num momento súbito, o que o poeta escreveu faz todo o sentido pra gente e é isso que eu sinto quando leio esse Poema em Linha Reta, do Fernando Pessoa.

Confesso que acho estranho um único poeta escolher três pseudônimos diferentes pra escrever suas poesias. Às vezes me parece que ele não escreveu nada e que os três poetas que ele criou são na verdade espíritos que psicografam as poesias pra ele. Mas então ele me vem com uma poesia dessas, que diz absolutamente tudo que eu queria dizer e eu já não sei se ele escreveu, se psicografou ou se comprou pronto. O importante é que tá aí, é lindo e reflete o que eu sinto.

Essa poesia me faz pensar justamente nessa minha característica de não gostar de poesias de um modo geral, coisa quase inconfessável e na mania que as pessoas têm de tentar mostrar uma coisa que não são. Quantas pessoas vocês conhecem que diriam com todas as letras que não gostam de Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Florbela Espanca e tantos outros? Claro que eu também não sou 100% transparente todo o tempo e que a imagem de perfeição é o que se busca. Eu, na verdade busco não só a imagem mas a perfeição em si, mas tenho que admitir que estou longe disso léguas e léguas e léguas e isso me faz humana e me faz me identificar com o poema do Fernando Pessoa (desculpa, tá?). E eu até gosto de um montão de poesias dos citados, menos da Cecília Meireles que acho deprê demais.

Todas as pessoas são perfeitas, certinhas, cultas, pudicas e muito melhores do que eu, reles mortal que não gosta de poesias.

Acho na verdade que não gosto de todas as poesias. Sou uma chata de plataformas (galochas não estão mais na moda!!!) e só gosto do que me interessa e do que me faz feliz.

Às favas com a perfeição, ou melhor, com a falsa imagem de perfeição. Eu não gosto de poesias mas sou feliz e sou sincera. E se gostar de alguma poesia, eu digo que gostei e pronto!

Quando alcançarmos a perfeição moral, não vamos ter que fingir que somos perfeitos.

Beijos e boa viagem pra mim de novo. Depois eu conto minhas novas aventuras