Cinco Anos
Janeiro 8, 2009
Uma criança de cinco anos alcança uma nova fase, de uma independência muitas vezes incômoda aos pais. Passa a ver o mundo com outros olhos e de uma nova perspectiva.
Uma relação de cinco anos também atinge um novo patamar. Se antes, tudo era novidade, agora, de uma posição mais confortável, pode-se dizer que já se atingiu uma rotina e que as novidades e descobertas se tornam mais escassas mas os elos se tornam cada vez mais densos.
Uma saudade de cinco anos também não é a mesma saudade de um mês ou de um ano. Apesar de muitas vezes mais doída do que a saudade recente, é uma saudade sufocada, tranqüila e muitas vezes seletiva.
Hoje completo cinco anos de formada. Há cinco anos sou médica. Há cinco anos me casei com a Medicina e uso, sempre que posso, meu anel no anelar esquerdo que, como já disse anteriormente, significa o único casamento indissolúvel que conheço.
Hoje, ainda me sinto uma criança na Medicina. Uma criança de cinco anos, com muita coisa a aprender mas que já tem certa autonomia. Sinto que tenho um casamento extremamente feliz, apesar das turbulências, uma relação que está amadurecendo aos poucos, mas já com algumas rotinas. Sinto também uma saudade velada, dos tempos de faculdade, dos tempos do colégio, quando eu tinha tão menos responsabilidades.
Saudades dos meus colegas de turma, aqui representados pela gravura abaixo.
Parabéns pra mim!

Atualização
Setembro 17, 2008
Mais de três meses sem postar.
Na verdade, mais de três meses até mesmo sem abrir o link deste Blog.
Revolta? Ocupação? Aniversário? Preguiça?
Um misto de tudo e de nada.
Bora ver se daqui pra frente as coisas mudam…
Dever de Casa
Junho 14, 2008
É impressionante que eu tenha passado quase 3 meses sem escrever por aqui.
Deixei este blog às baratas e, acreditem, nesse período muitas coisas aconteceram por aqui do lado de fora.
Fui praticamente obrigada a voltar por causa do “dever de casa” que a Kiara me impôs 2 vezes. Sim, eu tive a cara-de-pau de não fazer o dever de casa pela primeira vez e ela, simplesmente, mandou o dever de casa de novo, como uma espécie de punição pela mal-criação.
Confesso que a tarefa me assustou a princípio. Como assim, definir as 08 coisas que quero fazer antes de morrer??? São tantas coisas, tantos clichês, tantos projetos e tantas coisas bizarras…
Mas vamos lá. Ao trabalho, então! Porque eu já deveria ter aprendido que adiar tarefas, não faz com que elas deixem de existir, como num passe de mágica!
E os comandos são:
1 – A pessoa selecionada, deve fazer uma lista, com oito coisas que gostaria de fazer antes de morrer.
2 – É necessário que se faça uma postagem relacionando estas oito coisas, não importando o que seja, é necessário que a pessoa explique as regras do jogo.
3 – Ao finalizar, devemos convidar oito parceiros de blogs.
4 – E finalmente, deixar se possível um comentário para que nos convidou, e informar o convidado.
Bom… Acho extremamente difícil relacionar isso. Com certeza quero fazer muito mais de 8 coisas antes de morrer, mas vou tentar relacionar as 8 coisas mais importantes, tentando passar por cima de coisas prosaicas, como trocar de carro, comprar apartamento, e demais coisas materiais. Vamos lá!
1) Ser Oncologista Clínica. Espero que este desejo (ou objetivo) seja realizado não apenas antes de eu morrer, mas, se possível dentro de no máximo, uns 5 anos.
2) Conseguir me entregar a sentimentos mais piegas e ser capaz de me envolver num relacionamento estável porém com aventuras e conseguir ser feliz dividindo uma mesma área física, também conhecida como casa/ apartamento/ quarto, além de dividir sonhos, frustrações, doenças, alegrias e tristezas. Em resumo: sim, eu falei sobre ser feliz numa união estável, também conhecida como casamento.
3) Ter um filho. Até hoje nunca me vi como uma mãe em potencial, mas tenho certeza de que isso se tornará uma constante na minha vida daqui a um tempo. Um amigo muito querido me disse dias atrás que gostaria muito de ter um filho, devido ao brilho no olhar que os pais têm.
4) Conhecer a Europa mochilando, de preferência com Thais e Vanessa. Tenhgo certeza de que quando estiver lá, serei extremamente feliz porque espero por esta viagem desde os meus 15 (longínquos) anos.
5) Cuidar de muitas pessoas e poder exercer a Medicina em sua plenitude, aprendendo todos os dias, tanto com meus acertos quanto com meus erros. Curar, poucas vezes; tratar, algumas vezes; confortar, sempre.
6) Aprender a ser mais paciente, menos intrasigente, menos ansiosa e a me conhecer melhor pra ser sempre uma pessoa melhor.
7) Emagrecer de verdade e conseguir que minha auto-estima esteja sempre elevada. Não necessariamente nesta ordem. Encarar um mini biquini sem nenhuma gordurinha a mais é, sem dúvida, um objetivo a ser alcançado.
Ser feliz mesmo com as adversidades e agradecer todos os dias por isso.
Acho q é isso. No próximo post, deixarei os nomes do 8 blogueiros “escolhidos”.
Baci!
Famílias x Médicos
Março 20, 2008
Ainda não havia comentado aqui mas, apesar de já pensar em escrever num blog há alguns anos, o evento que me fez decidir definitivamente por escrevê-lo foi um plantão de UTI.
Na época (ano passado) eu havia passado por uma experiência no mínimo bizarra.
A visita dos familiares na UTI é variável, mas numa das UTIs em que trabalho só acontece durante a tarde e apenas 2 familiares podem entrar e se aproximar do paciente num curto período de 1 hora. Como vocês devem imaginar, apesar de ser um período curto, todas as atividades param nessa uma hora (medicações, banhos, exames, etc.) para que os parentes entrem. É óbvio que muitos barracos são feitos como esposas e amantes brigando pra entrar juntas ou uma primeiro que a outra e outras coisas bizarras…
Eu particularmente tenho o costume de me retirar do salão da UTI, permanecendo no meu repouso para que os familiares visitem de fato os pacientes e não fiquem apenas me perguntando as coisas.
Nesse dia em questão, uma paciente de uns 70 anos “resolveu” aspirar a secreção gástrica e fazer o que chamamos de broncoaspiração, isto é, o conteúdo do estômago foi parar nos pulmões e ela então parou de respirar. Simples assim. O problema maior foi que ela já tinha uma doença cardíaca grave e já tinha tido “derrames” (acidentes vasculares cerebrais). Aí, como desgraça pouca é bobagem, ela evoluiu com uma parada cardíaca bem na frente da filha e de outros acompanhantes dos outros pacientes, a visita foi interrompida abruptamente e as manobras de ressuscitação foram iniciadas.
É necessário explicar que dificilmente uma reanimação cardiopulmonar tem sucesso se o coração já tiver uma doença prévia importante, porque é necessário um esforço tremendo pra que ele volte a funcionar e, se ele já tiver uma doença grave anteriormente, todo o esforço que empregamos acaba se tornando inútil. Foram mais de 30 minutos de reanimação e nada.
Após isso, o pior momento é explicar pra família que os esforços possíveis e necessários foram feitos mas que, infelizmente, o paciente não reagiu e foi a óbito.
Nesse dia, não foi a parada que me chocou, ou o momento e a forma como aconteceu, tampouco o fato da paciente não ter voltado, já que ela já tinha várias doenças prévias (comorbidades), mas as palavras da filha dela quando recebeu a notícia.
A filha da paciente não apenas questionou minhas condutas, como questionou inclusive minha formação médica. Gritou que eu não era médica coisa nenhuma e que queria falar com um determinado médico que também trabalha nessa UTI.
Controlei todos os meus impulsos pelos xingamentos e tentei me colocar no lugar dela, que estava visitando a mãe e a viu broncoaspirar na sua frente e morrer alguns minutos depois. Expliquei mais uma vez o que havia acontecido e me coloquei a sua disposição para quaisquer outros exclarecimentos que se tornassem necessários.
Nesse dia, pensei em muitas coisas, como de praxe.
Meus colegas médicos diriam que é impossível que alguém instruído como ela é, não compreendesse que uma paciente que já tinha tido 02 derrames prévios, um coração doente há anos e uma infecção respiratória grave que a fez ser transferida para a UTI, era uma paciente grave que poderia ir a óbito a qualquer momento e que todos os nossos esforços poderiam ser inúteis frente a isso.
Mas nesse dia e nesse momento, eu percebi que não. As pessoas, instruídas ou não, negam a verdade para si mesmas e ainda há colegas médicos que contribuem com isto ao não explicarem todos os fatos tim-tim por tim-tim.
Ontem, novamente durante um plantão de UTI, fiz mais uma vez todos esses questionamentos.
Um paciente de 83 anos com uma doença cardíaca grave (”coração grande” e arritmia - para os médicos, miocardiopatia dilatada com BAVT) estava internado no Hospital para ser submetido a um implante de marcapasso. Durante a internação, ele apresentou um quadro respiratório infeccioso, com posterior piora da função renal (já que como ele tinha várias doenças prévias e idade avançada, os rins já estavam lesados mas não a ponto de estarem “paralisados” como dizem).
Pelas evoluções dos outros colegas médicos, ele apresentou um evento agudo de desorientação (”não falava coisa com coisa”, “não reconhecia os parentes”) e foi pensado em várias hipóteses, como num “derrame” (AVCI) ou até mesmo num distúrbio metabólico (infecção, insuficiência renal crônica agudizada, hipoglicemia), isto é, algo que estivesse fazendo com que o organismo dele deixasse de funcionar adequadamente, digamos assim.
O fato é que o paciente foi transferido da enfermaria para a UTI e estava apresentando um quadro ainda mais grave, já que tanto os rins, quanto a infecção respiratória haviam piorado e ao invés de ele acordar e voltar a falar e reconhecer as pessoas, ele estava o tempo todo sonolento (rebaixamento do nível de consciência). O implante do marcapasso estava suspenso, para que o estado geral do paciente melhorasse e este pudesse então ser submetido a uma intervenção cirúrgica, ou não.
Após a visita (sempre ela), o médico do plantão da UTI chama os familiares para falar sobre os pacientes e explicar a situação em que se encontram, que tipo de tratamento foi instituído e o que estamos aguardando.
Quando saí da UTI, havia nada mais nada menos do que 20 acompanhantes desse paciente, ávidos por informação e com um desejo quase canibal de comer meu pobre fígado. Eles queriam explicações, queriam respostas, queriam ver rapidamente uma melhora que eu não podia assegurar-lhes que chegaria um dia. Mais do isso, eles queriam entender o que ninguém havia lhes explicado.
Uma das acompanhantes, a mais indagadora de todas, anotava num papel todas as palavras que eu dizia. Eu disse TODAS AS PALAVRAS. E ainda fazia questão de tentar me colocar contra os outros médicos, além de me testar para ver se estávamos todos falando a verdade.
Mais uma vez me perguntei se todas essas pessoas não entendiam que alguém que tem 83 anos, um coração extremamente debilitado, a ponto de necessitar de um marcapasso, umA infecção pulmonar grave e uma insuficiência renal crônica agudizada que está numa Unidade de Terapia Intensiva para tratamento, é alguém com um estado geral muito grave e um prognóstico pra lá de sombrio, ou seja, alguém que até pode melhorar, mas que estatisticamente falando, as chances são muito pequenas, ~pra não dizer ínfimas.
Mais uma vez, tentei ser o mais imparcial possível e explicar novamente pra família todo o quadro do paciente e o que estávamos fazendo por ele.
Não sei se eles me compreenderam e muito menos se aceitaram a verdade dos fatos. Também não sei se eles também acham que não sou médica. O fato é que eu tentei. Isso não é a coisa mais reconfortante do mundo mas talvez um dia eles entendam que não somos perfeitos e, apesar de nos esforçarmos bastante, somos absolutamente impotentes diante da maioria das doenças que infelizmente fogem ao nosso controle e à nossa vontade.
Baci!
Telefone
Março 17, 2008
Sou ansiosa patológica, do tipo diagnosticada por psiquiatra e com prescrição de medicamento e indicação de psicoterapia.
Durante muito tempo, achei que minha ansiedade fosse dentro dos limites da normalidade.
Quando meus cabelos começaram a cair vertiginosamente e eu não estava conseguindo dar um rumo na minha vida, percebi que a ansiedade dentro dos limites da normalidade, estava me prejudicando e deixando de ser fisiológica, para ser patológica.
Mas poucas coisas na face da Terra me deixam mais ansiosa do que um telefone celular!
Quando eu era criança e mamãe trabalhava num Banco, ouvia de minha vó que jamais deveria incomodar minha mãe no trabalho, a não ser que fosse algo muito, muito sério. Todos os meu acidentes escolares, doenças, pitis e machucados eram resolvidos pela minha avó, em nome da concentração e da paz para que mamãe pudesse trabalhar bem e sem intercorrências.
Quando os primeiros celulares surgiram, eu ainda estava na escola e eles eram caríssimos, horrorosos e super pesados. Impregnei a vida da minha mãe pra que ela me desse um só meu e não apenas me desse o dela de vez em quando.
Não demorou muito pra que ela cedesse aos meus apelos, mas eu nem imaginava que o “sonho” viraria pesadelo.
Eu sou completamente viciada em telefone celular!! Tenho crises histéricas quando a bateria acaba, fico desesperada quando o telefone toca e não me conformo enquanto não compro o mais moderno, bonito, pequeno e com mais recursos.
Mas de todas as coisas que mais me irritam, nada, ABSOLUTAMENTE NADA me irrita mais do que ligar pra alguém e este alguém não me atender. Eu só falto ter um ataque histérico se essa pessoa demorar muito tempo pra me retornar, não importando se ela está dormindo, tomando banho, deixou o celular em casa ou foi abduzida. Chego a um absurdo tal, de ligar insistentemente umas 5 vezes seguidas, o que acho o cúmulo, mas também é muito difícil de controlar.
Minha mãe, aquela mesma que eu não podia ligar para o trabalho dela pra não incomodá-la, às vezes me liga nas horas mais impróprias, quando estou atendendo pacientes, examinando ou até mesmo fazendo reanimação cardiopulmonar e igualmente não se conforma se eu não a atender. Se ela julgar necessário, repete a chamada mais de 10 vezes, mesmo tendo plena consciência de que estou no meu horário de trabalho.
Vejam só! Tantas coisas pra herdar dela e eu fui “escolher” logo o desespero por celular!
Ora, Genética, faça-me o favor!
Baci!
Pra que despedidas?
Fevereiro 21, 2008
Aconteceu assim: um gaúcho apareceu repentinamente em terras tucujus e conheceu todos os meus amigos e se integrou “ao grupo”. Quando já estávamos adaptados ao seu jeito pimbudo de ser, ele precisou sair das terras tucujus para buscar novos caminhos e novos horizontes.
A convivência foi de poucas semanas mas tudo aconteceu numa intensidade tão impressionante que já o considerávamos como “membro da equipe”. Nessas poucas semanas, um pouco de tudo aconteceu: farras, passeios, doenças, gargalhadas e papos cabeça.
No dia de sua partida, eu estaria de plantão. Então, na véspera, falei com ele pelo MSN e desejei felicidades. Ele me garantiu que não viajaria sem se despedir de mim, mandando uma mensagem que me deixou enternecida (não, eu não sou meiga assim mas a mensagem tava muito bonita mesmo) mas nem sempre as coisas acontecem conforme a nossa vontade, então ele partiu sem se despedir.
Assim, deixei um testimonial no orkut pra ele porque fiquei pensando em despedidas…
Pra que despedidas?
Pra que despedidas se cada pessoa que passa pela nossa vida deixa um pouco de si e leva, mesmo que sem querer, um pouco de nós?
Pra que despedidas se quando nos aproximamos de alguém e deixamos que este alguem faça parte de nosso dia-a-dia (almoços, farras, passeios, doenças, papos cabeça, conselhos, etc.), percebemos subitamente que o Universo se modificou para que aquela pessoa lá entrasse?
Pra que despedidas se quando a amizade é verdadeira, só existe “até logo”?
Pensei, então, em vários tipos de despedidas. Desde os “tchaus” até os “até nunca mais” que, na maioria das vezes, nem imaginamos que irão acontecer. Claro que pensei também no famoso texto do Chaplin que diz que cada pessoa que passa pela nossa vida passa sozinha mas deixa um pouco de si e leva um pouco de nós.
O fato é que despedidas são momentos tristes de um sofrimento muitas vezes desnecessário, já que estamos neste mundo para interagir, mas podem ser também momentos de extremo crescimento pessoal.
Quando me despedi da minha mãe e dos meus amigos para morar em São Paulo, pensei que estava fazendo um negoção. Ledo engano. Estava na verdade cavando uma forma de voltar pra casa, mesmo inconscientemente e isso me fez amadurecer muito.
Quando me despedi de São Paulo para voltar pra Belém, achei que estava sendo a pior das losers. Ledo engano. Estava na verdade reescrevendo a minha história.
Quando disse “até logo” para Belém e vim morar em Macapá, julguei que passaria aqui apenas uma chuva, que não faria amigos, que não amadureceria mais e que voltaria correndo pra Belém, ao final dos 2 anos. Há cerca de 2 semanas, eu disse “olá” pra Macapá e percebi que já aprendi muito aqui, que já me encantei com muitas coisas da terra, que aqui encontrei amigos fantásticos que não encontraria em outro lugar, que apesar de minhas raízes paraoaras, eu posso e sou muito feliz aqui em terras tucujus.
Pra que despedidas?
Guardo com saudades todo mundo que me fez e faz bem. Sempre. Assim como lugares, cheiros, emoções.
Baci!
Para minha vovó
Fevereiro 16, 2008
Comigo brincaste, riste e choraste. Foste meu porto seguro e meu maior exemplo de coragem e força.
A mim dedicaste amor, provavelmente o maior amor que pode existir, sempre sem medidas apesar de conhecer melhor do que ninguém todos os meus defeitos.
Ao teu lado, eu fui feliz, mimada ao extremo, recebi os beijos mais carinhosos e provavelmente as maiores lições de vida.
A mim contaste tua vida, teus medos, teus sonhos, tuas desilusões e quantas vezes não quis ser igual a ti?
Ao meu lado estiveste em todas as minhas conquistas, em todas as minhas frustrações, em todas as minhas doenças, temendo por mim, querendo me proteger de tudo e de todos e eu, muitas vezes, sem entender o porquê de tanta proteção.
Contigo sempre pude contar, pra me relatar as novidades, pra torcer pelo meu sucesso, pra entender que eu não era exatamente o que desejavas como neta.
Contigo briguei, muitas vezes sem razão e de ti sempre esperei e obtive o perdão, a compreensão, apesar de sempre vir após a raiva momentânea.
A ti devo a lição, o afeto, o zelo, o carinho, a simplicidade de um abraço apertado, de um contar de dias afastadas, de um pudim de aniversário, de uma canção de ninar jamais esquecida, de uma oração na testa, de uma lágrima de preocupação.
A ti, vovó, eu devo o que sou e o que um dia serei. A ti eu devo o significado das palavras força, fé, família e doação.
Não há despedidas, porque o reencontro acontece todos os dias entre nós. Nas palavras, nos gestos, nas atitudes e até nos preconceitos.
Noventa e um anos é tempo demais? Talvez. Eu viveria mais novecentos e dez ao teu lado,ou até mesmo um único dia a mais, só para, mais uma vez, ouvir teus conselhos e, mais uma vez, dizer-te o quanto te amo.
Que um dia eu possa voltar a ser criança nos teus braços e eu possa ouvir, mais uma vez, aquela velha canção de ninar que diz que “muito em breve ó mãe querida lá no céu me encontrarás”…
Aniversário
Fevereiro 10, 2008
Hoje é aniversário do meu primo Fabricio.
É muito estranho “comemorar” o aniversário de alguém que não está mais estre nós, no mundo físico, mas não deixa de ser uma data extremamente especial por lembrarmos o dia em que AQUELA PESSOA ESPECIAL nasceu.
Apesar de ter certeza de que já falei nesse assunto em demasia e correr o risco de me tornar uma chata (sempre de plataformas, por favor), o assassinato do meu primo-irmão foi e ainda é, pra mim e pra toda a minha família, um verdadeiro divisor de águas.
Pra ser bem sucinta, aconteceu assim: Meu primo era promotor de Marapanim, uma cidade no interior do Pará, há cerca de 10 anos. A cidade é super pacata, tem um caranguejo maravilhoso, marujada (dança típica), o Círio de Nossa Senhora da Conceição e outras coisas legais. Lá, Fabricio era autoridade. Muito querido e super bem tratado.
Ele pediu que um tal advogado devolvesse um processo que ele mesmo (o advogado) estava envolvido por tentativa de homicídio e lesão corporal gravíssima, mas o tal advogado não queria devolver o processo ao fórum, como forma de tentar atrasar o julgamento. Fabricio solicitou providências à juíza que expediu um ofício (ou seja lá como se chama o documento que foi mandado) ao tal advogado numa quarta-feira.
Na sexta-feira, por volta de 8 e 9 da manhã, o tal advogado entrou na sala do meu primo, dentro do fórum de Marapanim e atirou 6 vezes nele. Fabricio não teve chance de defesa e morreu cerca de 2 a 3 minutos após, sendo que um dos tiros foi na nuca, quando ele já estava morto e caído no chão, como forma do assassino ter certeza de que ele não sobreviveria.
Falar do Fabricio é muito difícil pra mim. Ele sempre foi meu irmão em todos os sentidos e todos os dias. Ele puxava minhas orelhas por todos os motivos do mundo, desde coisas banais como eu ter esquecido de tampar a garrafa de água, até coisas graves como moral, amizades, romances e etc.
Ele me apoiou durante toda a faculdade, teve milhões de medos por mim e tentava me proteger de absolutamente tudo. A coisa mais comum do mundo era ele chegar na sua casa, num dos finais de semana em que eu ficava por lá e gritar “Cadê minhas meninas???” ou fazer comentário do tipo “Cabelo de mulher não tem cor, com exceção dos cabelos da minha irmã e da minha prima”.
Certa vez, uma namorada dele o acusou de tê-la traído e ele falou: “Meu bem, na minha vida só existem 03 mulheres – a minha mãe, a minha irmã e a minha prima”.
Ele tinha momentos de grosseria extrema comigo, formas exdrúxulas de me repreender, mas tinha a palavra de conforto, o ombro em que eu sempre soube que poderia me apoiar.
Falar do Fabricio no dia do se aniversário é lembrar de festa, muitas festas sempre.
Meu primo sempre foi festeiro, sempre teve muitos amigos, sempre gostou de reunir todos que ele amava (e ama) ao seu redor.
Acho que a lembrança mais antiga que tenho dele é do aniversário dele de 15 anos, numa pizzaria. Eu tinha 04. Claro que são poucas lembranças de fato. O que eu acho que é lembrança, pode ser só fruto da minha imaginação pelas fotos que vi mais tarde, mas eu acho que me lembro da pizzaria e de todas aquelas crianças e adolescentes reunidos comendo horrores de pizza
Houve aniversários do Fabricio em que ele fez churrascadas memoráveis, com direito a mais de 10 horas de festa. Houve aniversários em que comemoramos na casa dos meus tios com muita comida e bebida e que no dia seguinte nos matávamos de comer os RO (restos de ontem) e abríamos os presentes, comentávamos as situações e os convidados.
Houve também aniversários em que éramos só nós, só a família, só um bolo e todo o amor do mundo. Tio Reynaldo, tia Aurea, Vanessa, Fabricio, Vovó e eu. O resto da família chegava e depois víamos televisão ou jogávamos bridge, autorama, xadrez, dama.
Saudade dói e muito mas o amor que existe entre nós, jamais terá fim. Hoje eu tenho plena certeza disso.
Abaixo segue o texto que escrevi pro meu primo e li na missa de 01 ano de seu falecimento. Minha tia fez questão de publicá-lo no jornal hoje, dia do seu aniversário de 39 anos.
“Após um ano da nossa brusca e prematura separação, os ânimos vão se acalmando, a revolta vai nos deixando e a mágoa dói mais fundo. A tua ausência se manifesta diariamente nas coisas e situações mais ínfimas às mais importantes.
Impossível não pensar em tudo que poderia ter sido e não é. Em tudo que poderíamos ter dito e não dissemos. Em tudo, absolutamente tudo, que poderíamos ter vivido e não nos foi permitido.
Nas atividades cotidianas, quando displicentemente tentamos levar uma vida o mais próximo possível do normal, subitamente nos damos conta da grandiosidade da tragédia que se abateu sobre nós e te levou.
Quantas vezes me ligarias pra tirar alguma dúvida médica, perguntar sobre um remédio ou sobre um especialista?
Quantas vezes almoçaríamos juntos na casa de teus pais e tu contarias as fofocas, as novidades, o carro novo, a viagem de férias, os preparativos para o casamento?
Qual o sabor da pizza que pediríamos pra que tu comesses ao retornar do futebol de sábado e nos culpar por termos comido até o último pedaço, quando na verdade tinha comido tudo menos o último pedaço?
De quantas festas participaríamos na tua casa com tantos amigos e pessoas queridas?Quantas pessoas encontraríamos na rua e comentaríamos depois? Quantas pessoas conhecidas tuas encontrei nesse ano e simplesmente não achei qualquer palavra pra dizer diante da tua falta?
Quantas vezes perguntarias sobre a grafia de alguma palavra ou me contarias sobre o restaurante novo, a boate da moda?
Que vestido eu usaria no teu casamento?
Ficarias feliz com o término da minha residência? E os novos rumos na minha carreira, aprovarias?
Quantas vezes me criticarias como forma de mostrar como te importavas comigo?
Que presente eu te daria no Natal?
Viajaríamos juntos mais alguma vez?
Quantas vezes mais brigaríamos e nos xingaríamos pra depois passar qualquer raiva como se nada tivesse acontecido?
Quantas gargalhadas daríamos e quantas lágrimas eu poderia enxugar no teu ombro?
Nossos filhos seriam amigos?
Quantas vezes eu tive a oportunidade de te dizer o quanto te amo e não aproveitei? Será que tu tens a devida noção do quanto és amado até hoje?
Quantas vezes não acordei querendo crer que tudo não passava de um pesadelo e que aparecerias na porta da tua casa subitamente?
O que falar pra quem não te conheceu? Como explicar tua importância?
Como explicar que quem atirou em ti, matou também um pedaço de cada um de nós?
Como explicar que não és apenas um nome, uma foto, uma lembrança, uma história triste, uma premiação, um auditorio ou um centro de estudos?
Primo, hoje, após um ano sem ti, só posso dizer que a dor não cessa nem diminui. A revolta se torna inútil porque não faz com que os nossos corações se acalmem e até a raiva pela tua partida e pelo teu algoz não se aproxima da imensidão da tua falta.
Como conviver com a falta da tua voz, da tua eloqüência, da tua luz, da tua vida?
O que esperar e desejar e tentar acreditar além de justiça e reencontro?
Nesses 365 dias, só a esperança do nosso reencontro tem nos feito prosseguir, mas não há dúvidas que sem você meu primo, meu irmão, o mundo se tornou mais cinza, menos alegre e com muito menos sentido.
Fique em paz nos braços da vovó Pascoa, do vovô Eduardo e dos teus avós Consuelo e Alexandre e não se esqueça de preparar a festa mais bonita que puderes para o nosso reencontro, pois imploramos a Deus que ele permita que isso aconteça.
Qualquer dia, primo, a gente vai se encontrar.
Até breve ou até sempre, porque hoje te vejo como parte de mim e da minha consciência e sei que de onde estiveres, estarás sempre zelando por nós.”
Fechando ciclos…
Fevereiro 2, 2008
… E abrindo outros.
Porque vida é o que a gente vive entre um ciclo e outro. Ou melhor, a vida é um eterno abrir e fechar de ciclos, muitas vezes sinérgicos.
Ontem terminei a Residência de Clínica Médica. Deixo de ser Residente (pelo menos por 01 ano) e volto a ser médica (piada interna).
Na verdade funciona assim: a maioria das pessoas não faz a menor idéia do que é um Médico Residente. Todo mundo acha que estamos no “limbo”, ou seja, não somos nem médicos, nem estudantes. Certa vez, no Hospital onde fiz residência me contaram que uma técnica de enfermagem que estava como circulante (auxiliando na cirurgia porém sem participar ativamente dela, ou seja, buscando materiais externos à mesa operatória e etc) não sabia como descrever o médico residente e colocou no relatório que era o “Acadêmico Médico Residente Estudante Doutor Fulano de Tal”.
Na verdade, o médico residente é a pior escória da Medicina. Já é médico e, como tal, pode ser responsabilizado cível e penalmente por seus atos, porém, ganha pouco, trabalha demais, dedica-se quase que integralmente à Residência e não é nem um pouco valorizado, já que não passa de um “estudantezinho”, na opinião dos outros e muitas vezes, até mesmo de pessoas da área de saúde.
O fato é que ESSE ciclo da minha vida acabou. Daqui pra frente é só focar na subespecialidade. Sim. Porque além de ralar como um condenado, a especialidade que escolhi (Clínica Médica) ainda tem um agravante: Quem termina 02 anos de Pediatria, é Pediatra (as pessoas conseguem entender isso). Quem termina 02 anos de Clínica Cirúrgica, é Cirurgião Geral (as pessoas também conseguem entender isso). Quem termina 03 anos de Ginecologia & Obstetrícia, ao final é Ginecologista e Obstetra.
Mas quem termina 02 anos de Clínica Médica, é clínico especialista em Clínica Médica, mas pra 99,9% da população é exatamente a mesma coisa que ser “Clínico Geral”, isto é, o mesmo título que qualquer um de nós recebe ao acabar os 06 anos da Faculdade de Medicina.
Isto significa que é muito comum as pessoas me perguntarem porque estudei tanto pra ser alguma coisa que eu já era antes de fazer a tal Residência Médica (??????????)
O fato é que só vou passar a ser “fixe” quando terminar meus 03 anos de Oncologia Clínica mas cada vitória deve ser intensamente comemorada (aprendi isso com minha prima-irmã Vanessa) e apesar de saber que ter terminado esse ciclo não vai fazer tanta diferença assim no final das contas, ou pelo menos durante este ano, estou me sentindo de alma lavada e pronta para os novos ciclos que se iniciarão.
Neste ano, vou fazer muitas coisas e espero continuar vivendo, ou seja, continuar abrindo e fechando ciclos.
Baci!
Uma década
Janeiro 29, 2008
Direto do túnel do tempo, gostaria de informar-lhes que há exatos 10 anos eu passei no vestibular da Universidade Federal do Pará, no curso de Medicina.
Como já falei anteriormente, na época do vestibular acredito que tenha curtido mais o prêmio do que a conquista em si, mas é impossível não perceber como aquele dia fez minha vida seguir um rumo totalmente único e que definiu os 10 anos seguintes e, muito provavelmente, todos os outros que ainda me for possível viver.
Há 10 anos, eu pensava em ser cirurgiã, achava que médicos usavam branco e faziam garranchos. Eu achava que me casaria com meu namorado da época, que teria uma penca de filhos e que teria uma família de comercial de margarina.
Nesses 10 anos, já fiz de tudo um pouco e fui decidindo meus caminhos com o tempo. A única coisa constante é a tal da Medicina.
Parabéns pra mim!
Baci!